Árvore da Vida

João Manuel Duque, prémio para um teólogo “cruzador de fronteiras”

| 22 Nov 2021

João Manuel Duque fotografado em 8 de Julho de 2019, no Centro regional de Braga da UCP, para o livro Teologia Como Resistência. Foto © António Pedro Ferreira, cedida pelo autor.

 

O teólogo João Manuel Duque, “figura marcante da cultura portuguesa”, tornou-se o primeiro teólogo a receber o Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes, atribuído pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC), da Igreja Católica. O distinguido é um “cruzador de fronteiras”, diz o comunicado do júri, que lembra que um dos seus livros tem precisamente o título Fronteiras: Leituras Filosófico-Teológicas.

A decisão, anunciada nesta segunda-feira, 22 de Novembro, refere que o trabalho de João Manuel Duque se situa “entre a teologia e a filosofia; entre estes saberes e a arte, especialmente a música (compositor que é, membro de coro e director artístico, em Portugal e na Alemanha, para além de uma reiterada reflexão no campo, traduzida em diversas publicações e no ensino na Escola de Artes da Universidade Católica Portuguesa, no Porto); entre os escritos académicos e a humildade dos pequenos artigos de formação evangelizadora (pense-se na sua colaboração em O Mensageiro)”.

No Corpo do Tempo, O Próximo e a Comunidade, Desporto, Humanismo e Tecnologia, El Dios Ocultado, Fátima. Uma Aproximação, Educar para a Diferença, Cultura Contemporânea e Cristianismo, Homo Credens. Para Uma Teologia da Fé, O Excesso do Dom. Sobre a Identidade do Cristianismo e Dizer Deus na Pós-Modernidade são alguns dos títulos dos seus livros recordados pela notícia do SNPC.

Há dois anos, numa entrevista para o livro A Teologia Como Resistência (ed. Universidade Católica Editora), João Duque dizia que as comunidades cristãs vivem no mundo e não se podem desligar dele. Por isso, terão de responder sempre ao “nervo” da relação entre a Teologia e a pós-modernidade: “O que é o humano? Qual a fronteira entre a humanização e a desumanização?”

Nesse trabalho, considera necessária a liberdade de investigação do teólogo, mesmo que situada: “As tensões não são más e, se não se permite a crítica, não há Teologia. A própria história do cristianismo é autocrítica.” Por outro lado, “a ortodoxia também existe em todas as ciências”, recorda, com o exemplo do modo como é vista alguma contestação à teoria da relatividade.

Nascido em 1964, João Manuel Duque licenciou-se em Teologia na Universidade Católica Portuguesa (UCP), em 1987. Dez anos depois, concluiu o doutoramento em Frankfurt (Alemanha), com uma tese sobre a filosofia da arte de Hans-Georg Gadamer. Desde 1996 é professor na FT. Duque é actualmente pró-reitor da UCP, presidente do Centro Regional de Braga da mesma instituição e professor catedrático da sua Faculdade de Teologia.

Para o teólogo agora distinguido, o cristianismo concebe Deus como uma pessoa e como fonte de liberdade. Trata-se de um conceito “personalista”, que se distingue de várias outras religiões, acrescenta. E é na busca dessa dimensão personalista que se encontra o “mistério de Deus”.

A marca da violência, que por vezes também aparece associada ao religioso, tende a ser cada vez mais desconstruída pelo cristianismo. Este está “claramente na continuidade da herança judaica” de que procede. Mas nem todas as concepções religiosas têm como consequência a liberdade que João Manuel Duque considera ser genética no cristianismo – este tem na sua marca originária e na sua história essa dimensão autocrítica antes referida.

 

“Um novo humanismo nas redes sociais”

Olhando para a realidade cultural que é o objecto de muita da sua investigação, João Manuel Duque faz “um esforço por não ser pessimista”, mas admite: “Devemos reconhecer que a dimensão do humano não é muito cuidada. Mesmo eclesialmente, porque a Igreja também é um espelho da sociedade, vivemos uma fase muito crítica para a Teologia”, sobretudo na Europa. As lideranças eclesiais parecem por vezes pouco interessadas no debate teológico com o humano e a pós-modernidade, o que exige aos teólogos um “esforço” suplementar.

“Há uma teologia que não faz mais que repetir fórmulas”, mesmo que sejam as do II Concílio do Vaticano, afirma. Apesar disso, cita teólogos que podem ser vistos como referência: Christoph Theobald, Pierangelo Sequeri, Stella Morra ou, fora da Europa, a brasileira Maria Clara Bingemer ou o mexicano Carlos Mendoza-Álvarez.

“Certas ocupações, até no divertimento, acabam por poder ter um efeito quase analgésico sobre o interesse pela reflexão, pela arte, pela poesia… As nossas gerações podem estar um pouco alienadas nesses campos, mas encontrarão outros”, observa. “A tradição humanista e poética está neste momento a migrar para as próprias redes sociais: pode surgir uma poesia diferente, porventura mais trabalhada…” As redes sociais, nota ainda, “são muito ambíguas: podem anular a relação corpo a corpo, que é básica para a percepção da vida humana, mas trazem outras potencialidades, até como extensão da relação corpo a corpo”. Ou seja, não devem ser entendidas como tecnologia pura.

Olhemos então do avesso: “Em rigor, há uma espécie de novo humanismo a desenvolver-se no ambiente das redes sociais. Há que ter alguma cautela, mas o humanismo da Renascença também levantou muitos problemas…”

João Manuel Duque fotografado em 8 de Julho de 2019, no Centro regional de Braga da UCP, para o livro Teologia Como Resistência. Foto © António Pedro Ferreira, cedida pelo autor.

A característica multifacetada da investigação de João Manuel Duque traduz-se também, além dos livros, em dezenas de artigos e capítulos de obras colectivas, sobre temas tão diversos quanto a fé em Deus na Europa, a vulnerabilidade dos idosos e dos pobres, a ideologia de género, a música e a arte, o ensino da religião, o diálogo entre crentes e não crentes, o lugar das mulheres, os sentidos na eucaristia, a questão de Deus na obra de Vergílio Ferreira, a sexualidade, ou o pluralismo religioso.

Casado e pai de três filhos, João Manuel Duque destaca o facto de haver cada vez mais não-clérigos a fazer estudos de teologia como uma “tendência cada vez mais forte” no catolicismo europeu. Por isso o prémio atribuído é “uma espécie de eco a partir do exterior daquilo” que ele sempre considerou que deveria ser a teologia e que sempre tentou praticar: “Um trabalho a partir do mundo, no meio do mundo, mergulhado no mundo, e, sobretudo, no mundo da cultura”, resumiu, em declarações à agência Ecclesia.

Expressando a sua “surpresa” e dizendo que a escolha poderia também contemplar outros teólogos portugueses, José Manuel Duque afirma-se grato pelo reconhecimento ao “esforço de tentar colocar a teologia no circuito cultural nacional, com benefício para todos”.

“A teologia tem de evitar dois extremos: ser demasiado presunçosa, orgulhosa, como se tenha a verdade toda para dizer às pessoas” – antes, deve ter “humildade” e dar o seu contributo “com todos os outros”; mas também “não se pode retrair nem pode ter preconceito de inferioridade, como se não tivesse cidadania de contributo para o bem de todos”, afirmou, citado pela mesma fonte.

O Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes destaca um percurso ou obra que, além de atingirem elevado nível de conhecimento ou criatividade estética, reflectem o humanismo e a experiência cristã, recorda o SNPC.

Nesta edição, o júri foi presidido pelo bispo D. João Lavrador, presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, e composto por Guilherme d’Oliveira Martins, José Carlos Seabra Pereira, o padre jesuíta Júlio Trigueiros e Maria Teresa Dias Furtado.

Nas edições anteriores já foram distinguidas personalidades como o poeta Fernando Echevarría (recentemente falecido – ver 7MARGENS), a classicista Maria Helena da Rocha Pereira, o actor e encenador Luís Miguel Cintra, o actor Ruy de Carvalho, o historiador José Mattoso, o ensaísta Eduardo Lourenço (que morreu no ano passado), o compositor Eurico Carrapatoso, a artista plástica Lourdes Castro e o cineasta Manoel de Oliveira.

Da lista de galardoados, recordada pela Ecclesia, fazem ainda parte o cientista e padre jesuíta Luís Archer, o político e intelectual Adriano Moreira, o Departamento do Património Histórico da Diocese de Beja (entretanto extinto pelo actual bispo), o arquitecto Nuno Teotónio Pereira, o pedagogo Roberto Carneiro, o jornalista Francisco Sarsfield Cabral e o professor de Medicina e Bioética Walter Osswald.

A entrega do Prémio, com a escultura “Árvore da Vida”, concebida por Alberto Carneiro, e a quantia de 2500 euros, ocorrerá em data e local a anunciar.

(Alguns parágrafos deste texto reproduzem ou adaptam excertos do livro citado, Teologia Como Resistência). 

 

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