Em Roma

João Paulo I, a beatificação de um Papa feliz

| 4 Set 2022

A multidão na Praça de S. Pedro para a beatificação de João Paulo I. Foto © Tony Neves

A multidão na Praça de S. Pedro para a beatificação de João Paulo I. Foto © Tony Neves

 

A manhã deste 4 de setembro acordou com chuva e trovoada em Roma, mas nem por isso a Praça de S. Pedro deixou de se encher de peregrinos. O Papa Francisco, apesar das visíveis dificuldades de locomoção, presidiu à beatificação do seu antecessor, João Paulo I, e recitou o Ângelus, mantendo-se sentado durante o resto do tempo da celebração da Eucaristia.

Nas concorridas entradas da Praça de S. Pedro, oferecia-se o jornal L’Osservatore Romano, dedicado à beatificação. Já dentro, era distribuído o guião da celebração. Milhares de cadeiras colocadas na Praça esperavam pelas pessoas com o número especial da revista Luoghi dell’Infinito, do jornal Avvenire, todo ele dedicado ao novo Beato: “Giovanni Paolo I, il sorriso della speranza”. Foram leituras inspiradoras para as quase duas horas de espera até à chegada do Papa Francisco e início da missa.

Num dos artigos deste L’OR, o Secretário de Estado do Vaticano, cardeal Piero Parolin, valoriza o facto de João Paulo I ser o primeiro Papa eleito depois do Vaticano II. O cardeal resume assim as prioridades do Papa Luciani: beber nas fontes do Evangelho, um novo fôlego missionário, a colegialidade episcopal, a insistência na pobreza eclesial e no serviço aos mais pobres, a busca da unidade dos cristãos, no dialogo inter-religioso e o diálogo entre as nações a favor da justiça e da paz…

Na curta homilia, o Papa Francisco disse: “Com o sorriso, o Papa Luciani conseguiu transmitir a bondade do Senhor. É bela uma Igreja com o rosto alegre, o rosto sereno, o rosto sorridente, uma Igreja que nunca fecha as portas, que não exacerba os corações, que não se lamenta nem guarda ressentimentos, que não é bravia nem impaciente, não se apresenta com modos rudes, nem padece de saudades do passado, caindo no retrogradismo. Rezemos a este nosso pai e irmão e peçamos-lhe que nos obtenha ‘o sorriso da alma’, um sorriso transparente, que não engana: o sorriso da alma.”

Albino Luciani nasceu a 17 de Outubro de 1912. Padre em 1935, doutorou-se em Teologia na Universidade Gregoriana. Seria nomeado bispo em 1958, sendo ordenado na Basílica de S. Pedro pelo Papa João XXIII. Bispo de Vittorio Venetto (1958-1969), mudar-se-ia para Veneza onde foi o patriarca, de 1969 até à eleição papal. Nomeado cardeal pelo Papa Paulo VI a 5 de Março de 1973, seria eleito Papa a 26 de Agosto de 1978, sendo até agora o último italiano. O início de pontificado teve lugar a 3 de Setembro e a sua morte inesperada ocorreria a 28 do mesmo mês, com apenas 65 anos de idade. O seu papado duraria 33 curtos dias, muito marcantes pela simplicidade, fé e alegria que transmitia. Foi o sucessor de Paulo VI e antecessor de João Paulo II, ambos já canonizados.

A história reconhece-o como o “Papa do sorriso”, o primeiro a escolher um nome duplo (João Paulo), decisão que constitui um profundo gesto de homenagem aos seus dois predecessores. Morreu durante a noite com um enfarte do miocárdio.

O padre João Aguiar, sempre atento ao ritmo da Igreja e do mundo, relembra uma intervenção notável do Papa agora beatificado de que perduram as marcas da sua humildade (ver 7MARGENS) e os seis “queremos” programáticos: “Recordo-os, resumidamente: ‘queremos prosseguir, sem paragens, a herança do Concílio Vaticano II, cujas normas sábias devem continuar a cumprir-se (…) queremos conservar intacta a grande disciplina da Igreja, na vida dos sacerdotes e dos fiéis, tal como a celebrada riqueza da sua história a assegurou através dos séculos (…) queremos recordar a toda a Igreja que o seu primeiro dever continua sendo o da evangelização (…) queremos continuar o esforço ecuménico, que vemos como a última indicação dos nossos imediatos predecessores, velando com fé intacta, com esperança invencível e com amor indeclinável pela realização do grande mandamento de Cristo: Que todos sejam um (Jo., 17, 21) (…) queremos prosseguir com paciência e firmeza naquele diálogo sereno e construtivo, que o nunca suficientemente chorado Paulo VI pôs como fundamento e programa da sua ação pastoral, expondo as linhas mestras na sua excelente encíclica Ecclesiam Suam: que os homens se reconheçam mutuamente enquanto homens; e quando se trate daqueles que não partilham a nossa fé, que estejamos sempre dispostos a dar-lhes o testemunho da fé que está em nós e da missão que nos confiou Cristo (…) queremos, enfim, favorecer todas as iniciativas louváveis e valiosas, que possam defender e incrementar a paz no mundo conturbado (…)”.

 

Tony Neves é padre católico e trabalha em Roma como assistente geral dos Missionários do Espírito Santo (CSSp, Espiritanos), congregação de que é membro.

 

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