João Paulo II conhecia acusações contra McCarrick, admite relatório do Vaticano  (que aponta atenuantes)

| 11 Nov 2020

São 450 páginas que contam uma história de mentiras do próprio, informações incompletas, erros e omissões. E explicam, mesmo apontando atenuantes, a grande responsabilidade do Papa João Paulo II na ascensão do antigo cardeal Theodore McCarrick, arcebispo de Washington entre 2000 e 2006, do episcopado ao cardinalato. Uma história com alçapões que revelam, como escreve Michael Sean Winters, que a “tentação de proteger a instituição” teve como consequência, afinal, uma “traição grosseira à instituição” e ao evangelho – e, sobretudo, criou uma cultura onde floresceram monstros…

Theodore McCarrick (aqui em Davos, em 2008, no Forum Econímico Mundial): o cardeal mentiu várias vezes nas cartas que escreveu em sua defesa Foto © Forum Econº Mundial

 

“A confiança de muitos fiéis na Igreja foi danificada”, diz o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, a propósito do Relatório sobre o conhecimento institucional e o processo decisório da Santa Sé em relação a Theodore Edgar McCarrick (de 1930 a 2017), publicado pelo organismo por ele tutelado nesta terça-feira, 10 de Novembro, depois de dois anos de investigação.

Consultas nos arquivos da Santa Sé, na nunciatura apostólica (embaixada) do Vaticano em Washington e em várias dioceses dos Estados Unidos, além da audição de 90 testemunhas, conduziram a conclusões demolidoras: durante quase duas décadas, as mentiras do próprio, as omissões e informações de várias pessoas consultadas, a quase absoluta desvalorização das primeiras denúncias sobre comportamentos impróprios e os erros de apreciação, nomeadamente do Papa João Paulo II, levaram Theodore McCarrick a ser sucessivamente nomeado bispo, arcebispo e cardeal, apesar de haver contra ele denúncias de aliciamento de outros padres para relações sexuais, e rumores sobre actos sexuais com seminaristas e menores.

O relatório passa em revista o que se passou sob a tutela de quatro papas. Tudo começou em 1977, quando Paulo VI (1963-1978) nomeou McCarrick para bispo auxiliar de Nova Iorque, mas nessa altura “ninguém relatou ter testemunhado ou ouvido falar de McCarrick a comportar-se indevidamente, quer com adultos quer com menores”.

Com João Paulo II (1978-2005), McCarrick foi nomeado para bispo de Metuchen (1981) e arcebispo de Newark (1986). Durante as consultas, o futuro cardeal seria “amplamente elogiado como bispo pastoral, inteligente e zeloso, e não surgiram informações credíveis que sugerissem má conduta da sua parte”. E, em ambas as dioceses, “foi reconhecido como um trabalhador esforçado, activo no seio da Conferência Episcopal e no palco nacional e internacional.”

Logo a seguir a esta referência, o relatório acrescenta: “Tornou-se também conhecido e apreciado como um eficaz angariador de fundos, tanto a nível diocesano como para a Santa Sé.” Esta alusão, mesmo que passageira, não deixa de ser importante: as conferências episcopais da Alemanha e dos Estados Unidos são, tradicionalmente, as mais importantes contribuintes no apoio a necessidades económicas da Santa Sé. Por isso, um bom angariador de fundos seria bem visto também no Vaticano. O triângulo entre o sexo, o dinheiro e o poder confirma-se, também aqui.

 

“João Paulo II tomou pessoalmente a decisão de nomear McCarrick”

João Paulo II na Colômbia, em 1986: o relatório aponta erros na apreciação feita pelo Papa Wojtyla. Foto © Hernan Valencia/Wikimedia Commons

É quando fala da nomeação para Washington que o relatório queima: Theodore McCarrick foi escolhido para a diocese da capital federal norte-americana no final de 2000 e nomeado cardeal no início de 2001. “A documentação mostra que o Papa João Paulo II tomou pessoalmente a decisão de nomear McCarrick e fê-lo depois de receber o conselho de vários conselheiros de confiança de ambos os lados do Atlântico.”

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