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arcebispo de cracovia, karol wojtyla, em 1971

Reportagem televisiva e livro

João Paulo II ocultou abusos de menores quando era arcebispo, denunciam investigações jornalísticas

| 08/03/2023

arcebispo de cracovia, karol wojtyla, em 1971

Karol Wojtyla, em 1971, quando era arcebispo de Cracóvia. Foto: Direitos reservados.

 

Uma investigação da estação privada polaca TVN24 e um novo livro escrito por um repórter holandês a viver na Polónia revelaram esta semana que Karol Wojtyla, enquanto cardeal e bispo de Cracóvia, teve conhecimento de casos de pedofilia cometidos na sua diocese e optou por transferir os alegados abusadores de paróquia, encobrindo assim o sucedido.

De acordo com o jornalista Michal Gutowski, que assina a reportagem televisiva, pelo menos três casos terão acontecido nas décadas de 1960 e 1970. O repórter, que diz ter-lhe sido negado o acesso aos arquivos da Igreja, encontrou-se com vítimas e antigos funcionários da diocese. Um deles afirmou que “Wojtyla queria, em primeiro lugar, ter certeza de que não se tratava de uma mentira. Pediu que ninguém fosse informado e disse que se encarregaria do assunto”, contou a testemunha, acrescentando que o cardeal lhe pediu para manter o assunto em sigilo.

Um dos padres abusadores chegou a ser enviado pelo futuro Papa para a Áustria. O canal televisivo citou uma carta que Wojtyla escreveu ao então arcebispo de Viena, Franz Koenig, recomendando o clérigo aos seus cuidados. Wojtyla não disse na carta que esse clérigo, Boleslaw Sadus, havia abusado de crianças, e este foi nomeado pároco naquele país.

“O que [agora se] descobriu é revolucionário, porque mostra o que muitas pessoas suspeitaram durante anos: João Paulo II sabia que este problema existia mesmo antes de se tornar Papa”, disse na reportagem Thomas Doyle, um antigo padre católico norte-americano, especialista em direito canónico e autor de um dos primeiros relatórios sobre abusos do clero católico nos Estados Unidos.

A investigação da TVN24 conclui assim que não restam dúvidas de que Wojtyla sabia sobre os abusos cometidos por padres na sua arquidiocese e tentou ocultá-los. “Espero que esta reportagem ponha fim à discussão de que João Paulo II poderia não ter sabido. Depois desta reportagem, não teremos dúvidas de que sabia muito antes de se tornar Papa. Agora, para dizê-lo de forma grosseira, a bola está do lado da Igreja”, disse o jornalista Michal Gutowski.

 

Livro e reportagem coincidem

livro do jornalista ekke overbeek, maxima culpa

O livro “Máxima Culpa. João Paulo II sabia” conta o caso de um dos padres referidos na reportagem de Gutowski.

Outro repórter, o holandês Ekke Overbeek, lançou esta semana na Polónia  (onde é correspondente há mais de 30 anos) o livro “Máxima Culpa. João Paulo II sabia”, contando o caso de um dos padres referidos na reportagem de Gutowski. O clérigo em causa abusou de diversas meninas durante a catequese e, após queixas feitas pelos pais, o seu superior terá levado o caso a Wojtyla, que o suspendeu. O padre chegou mesmo a ser condenado a dois anos de prisão, mas foi libertado após um ano de cumprimento de pena. Nessa altura (1970), Wojtyla ter-lhe-á escrito, sugerindo que voltasse “gradualmente ao trabalho sacerdotal”. Quatro anos depois, o então cardeal de Cracóvia recebeu cartas acusando o padre de “comportamento indecente” para com as meninas da paróquia onde havia sido colocado.

Tanto o novo livro como a reportagem televisiva alegam ainda que o cardeal Adam Stefan Sapieha, antecessor de Wojtyla como arcebispo de Cracóvia e seu mentor, abusou sexualmente de candidatos ao sacerdócio.

Ambas as investigações têm desencadeado reações acaloradas no país. Enquanto uns defendem que esta é mais uma tentativa das forças de esquerda de destruir a memória de João Paulo II, outros exigem que a Igreja Católica revele a verdade.

O primeiro-ministro Mateusz Morawiecki, um católico, partilhou na sua cota de Twitter uma foto de João Paulo II cumprimentando uma multidão na Polónia e acrescentou o lema do falecido papa “Não tenhais medo”, sem qualquer comentário adicional.

Recorde-se que a escolha de Wojtyla para Papa em 1978 estimulou a população predominantemente católica da Polónia a opor-se ao sistema comunista do país e, eventualmente, derrubá-lo.

Até recentemente, a Igreja Católica na Polónia desempenhou um papel significativo na vida pública do país. Revelações sobre padres pedófilos e os laços estreitos da Igreja com o atual governo de direita têm vindo a denegrir a sua reputação.

 

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