Memória

JOÃO

| 30 Jun 21

João Figueiredo

João Figueiredo. Foto: Direitos reservados.

 

numa comovente cena final do filme o resgate do soldado ryan,
este, já idoso, pergunta-se se terá sido suficientemente bom para merecer a vida proporcionada pelos homens que morreram para que ele pudesse viver.
é uma pergunta muito importante, mesmo sem o extremo da guerra.

todos nós tivemos, mesmo sem o saber ou sem o compreender,
um Jesus que morreu para nos salvar.
no fim dos nossos dias, perante Deus Nosso Senhor,
seremos convidados a fazer a contabilidade da vida.

a pergunta é se rentabilizámos devidamente os talentos de que são mateus nos fala no seu Evangelho, se merecemos a vida que o Senhor nos deu,
se fomos suficientemente esforçados e bons para que as portas seguintes nos sejam abertas.

há ano e meio estive perto da morte
(na verdade sem dar por ela, sem dor nem sofrimento).
no rescaldo, ao impor-me essas perguntas, não obtive de mim respostas tranquilizadoras.

evidentemente, isso será muito diferente com o nosso João Figueiredo.
sabemos muito bem que o João nunca teria razão para, em qualquer dos seus dias, temer essas perguntas,
porque o seu saldo é enorme, como grande foi a vida que viveu.
acho muito improvável encontrar quem discorde desta afirmação.

mesmo que todos o saibamos,
mesmo que as palavras pareçam muito evidentes e estupidamente pequenas, não devemos deixar de dizer que o João era uma pessoa especial em todos os sentidos
um homem brilhante, intelectualmente superior, de grande integridade,
tão cerebral quanto emotivo e sensível
um visionário, um estratega com um espírito de missão
um humanista convicto e um homem de fé, uma fé adulta e consequente.

que fantástica combinação de características!
dela resultou aquele especial desempenho de serviço aos outros,
a Portugal, nos últimos anos à Europa,
apimentado por uma graça muito própria.

era assim o João, “demasiado perfeito”, ouvi uma vez dizer.

João Figueiredo

Na década de 80, o João Figueiredo ao centro, numa actividade informal da delegação regional de Lisboa do Instituto de Reinserção Social; à esquerda, António Ganhão, Klara, em baixo a Isabel Lourenço e Nuno Caiado, à direita. Foto: Direitos reservados.

 

quando éramos novos e víamos o futuro como uma densa neblina, o nosso querido padre Janela dizia-nos que o João haveria de ser ministro da justiça.
errou, mas por defeito, não por excesso.

o João superou-nos a todos,
e nós gostámos de ser superados por ele, orgulhávamo-nos dele,
da sua afabilidade, do seu humor, do seu firme humanismo,
dos seus feitos profissionais que o tornavam grande.
de certo modo, nós, por isso, com ele ficávamos também um pouco maiores.

foi demasiado curta a amizade com o João.
faltaram-lhe, vá… mais 20 anos a somar aos mais de 40 que ela durou,
primeiro nas lides das juventudes católicas e outras
e depois como meu chefe em várias ocasiões,
o que reforçou os nossos laços e amizade,
e depois como nada
somente amigos.

joão figueiredo

éramos os dois mais jovens no grupo de preparação de por uma sociedade justa e fraterna, e foi a primeira vez que pude testemunhar o fulgor e brilhantismo do João em termos de organização e de pensamento.
ele já trabalhava e eu era estudante.
a iniciativa queria mostrar à sociedade e igreja portuguesas que podíamos ser cristãos sem estar politicamente alinhados com o poder político, à data uma aliança de partidos conservadores. (Nuno Caiado)

neste tempo,
o João foi uma bússola moral, um mentor, um cuidador, um mestre
a que procurei, e procurarei, ser fiel.

por tudo isto,
e sei que o posso fazer também
em nome de muitíssimos colegas que por ele ficaram marcados nas suas vidas profissionais,
e que estão hoje destroçados pela sua ausência,
só posso dizer

 

obrigado João
obrigado João.

 

teremos que nos ver noutros dias, junto do Pai.

 

 

 

 

Junho 2021, em profunda tristeza
Nuno Franco Caiado

Nota – João Figueiredo era membro do Tribunal de Contas Europeu e morreu na noite de terça-feira, 29. Participou em estruturas da Acção Católica e da Pastoral Juvenil do Patriarcado de Lisboa. Exerceu vários cargos na Administração Pública. O Presidente da República publicou uma nota de condolências e o primeiro-ministro emitiu uma nota de pesar a propósito da sua morte. 

O corpo de João Figueiredo será velado na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa, nesta quinta-feira, 1 de Julho, das 10h às 14h, altura em que será celebrada eucaristia, que poderá ser acompanhada neste endereço do YouTube.

A cerimónia de cremação será no Cemitério dos Olivais em Lisboa, às 16h.

 

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