Joe Biden em silêncio, Palestina a votos, Israel à espera que o telefone toque

| 15 Fev 21

O 7MARGENS publicou recentemente dois textos de Ruben Azevedo sobre a hipótese de um Estado único para israelitas e palestinianos e as possibilidades de diálogo entre ambas as partes do conflito.
Neste texto, da autoria do jornalista José Manuel Rosendo, analisa-se o acordo estabelecido entre partidos palestinianos para realizar eleições em Maio e Junho, depois de 15 anos sem contendas eleitorais, bem como a proximidade de eleições em Israel. Com uma nova Administração nos EUA, a discussão sobre o futuro da região volta a estar em cima da mesa e debate-se, também por isso, a solução dos dois estados e o que pode estar em jogo neste momento.

Abu Dis, Palestina. Muro. Israel

Uma mulher em Abu Dis, perto do muro de separação construído por Israel: a divisão entre palestinianos também tem alimentado a ocupação. Foto © WCC

 

A Palestina prepara-se para eleições. Mais de uma dezena de grupos e partidos políticos palestinianos, sentaram-se à mesa no Cairo e acertaram um Acordo que prevê eleições parlamentares em Maio e presidenciais em Julho. Desde janeiro de 2006 que não há eleições na Palestina.

Por acaso acompanhei as presidenciais de 2005 (após a morte de Arafat) e as parlamentares de 2006, quando, para surpresa geral, sondagens incluídas, o Hamas venceu a corrida eleitoral. Um ano depois consumava-se a divisão entre palestinianos e, até hoje, apesar de algumas aproximações, a divisão mantém-se.

Terá sido também essa divisão que alimentou a ocupação. A ausência de uma única voz de comando que representasse o lado palestiniano afectou a credibilidade internacional e, se juntarmos a isso os governos mais à direita que alguma vez existiram em Israel e nos Estados Unidos, está aí grande parte da explicação para uma situação cada vez pior, do ponto de vista palestiniano. O Acordo agora estabelecido não é uma garantia de que algo vá mudar e, face ao passado recente, é preciso esperar para ver.

Do lado de Israel, a política resvalou para a direita e há também eleições à vista. Perante a inexistência de uma esquerda que possa ter expressão de peso na governação, a direita israelita nada de bom poderá trazer à questão dos direitos dos palestinianos e ao cumprimento das resoluções das Nações Unidas. Benjamin Netanyahu, sabemos o que defende; Benny Gantz não é diferente, apenas reivindicando ser um homem de “mãos limpas”, numa alusão aos casos de corrupção e processos que Netanyahu enfrenta em Tribunal. Isto significa que é mais do que certo manter-se o rumo de expansão do Estado de Israel para territórios palestinianos, através da construção de novos colonatos, do alargamento dos já existentes, da expulsão de palestinianos das casas de Jerusalém Oriental e também do Vale do Jordão. Tem sido sempre assim, o que não abona em favor de Israel quando fala em negociações. Negociar o quê, se no terreno, o direito internacional é letra morta e apenas prevalece a vontade do Governo israelita?

Dois Estados, sim!
Joe Biden, Palestina, Mahmoud Abbas,

Joe Biden com Mahmoud Abbas, Presidente da Autoridade Palestiniana, em Ramallah, nos Territórios Palestinianos, 10 de Março 2010: o futuro da Palestina pode passar pelas eleições de Maio e Junho. Foto: David Lienemann/ Wikimedia Commons.

 

O paradoxo deste conflito é que a única solução viável é a de dois Estados, sendo que a evolução registada, com a expansão do território israelita – embora não assumida (não há anexação formal) – inviabiliza um Estado palestiniano com as características mínimas que qualquer Estado independente deve ter.

Perante a situação criada, e na qual Israel tem a grande fatia de responsabilidade, a única forma de criar um Estado palestiniano passa por fazer regredir grande parte das decisões tomadas à margem do que está determinado nas resoluções das Nações Unidas. Não há outra solução, a não ser que se pretenda designar por Estado algumas bolsas de terreno, dentro do Estado de Israel. Nenhum palestiniano aceitará. E devemo-nos interrogar se algum de nós aceitaria uma situação semelhante se com ela fôssemos confrontados na nossa terra.

As longas décadas de guerras e conflitos, de morte, de famílias desfeitas, de punição colectiva, de demolições de casas, de presos (alguns menores de idade) sem culpa formada e por tempo indeterminado, de fronteiras fechadas e check-points ad-hoc, criaram uma divisão que só pode ser ultrapassada com a construção de um Estado Palestiniano.

Daqui a cem anos ninguém sabe como poderá ser, mas pensar num só Estado que albergue, neste momento, israelitas e palestinianos, depois de décadas a acumular ódios e desejos de vingança, é pura utopia. E é ainda preciso ter em conta que Israel é um Estado judaico. Assim sendo, como se propõem os defensores dessa utopia integrar a população palestiniana maioritariamente muçulmana, que é já uma parte importante da população de Israel e seria quase metade se se concretizasse a ideia de um só Estado? Será que quem admite e advoga a solução de um só Estado admite também que esse Estado possa vir a ter um Primeiro-Ministro ou um Presidente palestiniano e muçulmano? Alguém consegue, convictamente, acreditar nisso? Ou será que esse único Estado teria de ser obrigatoriamente governado por não palestinianos e não muçulmanos?

 

Joe Biden sem pressa
Joe Biden, Benjamin Netanyahu, Israel,

O então vice-Presidente dos EUA, Joe Biden, com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, em Telavive, Março 2016: o que significa o facto de Biden ainda não ter ligado a Netanyahu? Foto: U.S. Embassy Tel Aviv/Wikimedia Commons.

 

A grande expectativa criada à volta da eleição de Joe Biden para a Presidência norte-americana, deverá acabar por ser apenas isso: expectativa. À hora a que escrevo, Biden ainda não telefonou a Benjamin Netanyahu e já se tecem as mais variadas teorias sobre esse silêncio. Ninguém duvida dos fortes laços entre Israel e os Estados Unidos, seja quem for que governe os dois países, mas quase um mês depois de chegar à Casa Branca, e depois de ter anulado grande parte das polémicas decisões de Donal Trump, Joe Biden nada disse ainda sobre o conflito israelo-palestiniano.

No primeiro discurso sobre política externa, a 4 de Fevereiro, referiu-se à China, à Rússia, ao Iémen, a Myanmar [Birmânia] e ao acordo com o Irão. Já se percebeu que o conflito israelo-palestiniano não é uma prioridade, mas apenas isso, e já se sabe que a Embaixada dos Estados Unidos vai mesmo ficar em Jerusalém. Do “plano de paz” traçado por Donald Trump, fica o reatar de relações entre Israel e alguns países do Golfo.

O acordo entre palestinianos para realizarem eleições está obviamente ligado à janela de oportunidade com a chegada de Joe Biden, mas se a liderança norte-americana mudou, nada garante que haja mudança nas lideranças israelita e palestiniana. Com tudo o que aconteceu no passado recente fica a ideia de que uma mudança de liderança em Israel e na Palestina poderia ser uma vantagem para fazer avançar o processo de paz. Talvez Biden vá adiar uma posição mais assertiva até saber qual é o resultado das eleições em Israel (Março) e na Palestina (Maio e Julho).

 

José Manuel Rosendo é jornalista da Antena 1 e tem feito reportagem em vários países do Médio Oriente; o texto foi publicado em simultâneo no blogue do autor.

 

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