Johann-Baptist Metz, teólogo e “místico de olhos abertos” (Obituário e entrevista)

e | 11 Dez 19

Johann-Baptist Metz, fotografado em Valadares (Gaia), em 2005. Foto © Fernando Veludo/NFactos, cedida pelo autor

 

Marcou como poucos a teologia do nosso tempo: a sua “nova teologia política”, desenvolvida no anos 1960 a partir de um novo conceito de “compaixão”, fez escola, marcou a fé de muitos contemporâneos e inspirou de forma decisiva o nascimento da teologia da libertação. Johann-Baptist Metz morreu no passado dia 3, na cidade de Münster, com 91 anos de idade.

Metz nasceu em Wellluck (Baviera), estudou teologia na faculdade dos jesuítas em Innsbruck (Áustria), onde foi aluno de Karl Rahner, fez o seu doutoramento em filosofia sobre Heidegger e a habilitação catedrática sobre a antropologia de S. Tomás de Aquino. Era presbítero da diocese de Bamberg.

À pergunta sobre as raízes da sua teologia, respondeu Metz com uma experiência pessoal da sua juventude: aos 16 anos foi mobilizado para os campos de batalha da II Guerra Mundial. Ao ver morrer os seus colegas nas trincheiras, o próprio Metz diz ter começado aí a sua carreira de teólogo: perdeu o sossego de uma fé tradicional, não mais se conformou com as respostas da teodiceia, e nunca mais largou a questão de Deus e do discurso sobre Deus perante todo o sofrimento humano e a consequente resposta daquele que diz acreditar.

“Quem acredita em Deus à maneira de Jesus Cristo aceita que as suas certezas sejam postas em causa pelo sofrimento dos outros”, escreveu. Sofrer com o sofrimento dos outros, sentir o sofrimento alheio: é isso a “compaixão”, chave da sua teologia.

Depois desta experiência pessoal, uma experiência colectiva veio marcar decisivamente a sua investigação teológica: Auschwitz. Depois de Auschwitz, toda a teologia tinha de ser posta em causa radicalmente: “Auschwitz veio mostrar como era oco e cego todo o discurso abstrato, não situado, sobre Deus”, escrevia ele em 1997.

Para ele, o Evangelho de Jesus Cristo não se centra sobre a culpa mas sobre o sofrimento e a teologia cristã tem de partir do sofrimento, reflectir a partir daquele que sofre, ouvir os apelos e gritos que as vítimas de todo o tipo de sofrimento dirigem a um Deus que parece não responder. E, ao mesmo tempo, deve fazer a crítica profética das estruturas políticas e sociais que estão na origem desse sofrimento. Tem de ser, neste sentido, uma “teologia política”, portadora de uma nova hermenêutica do sofrimento, defendia.

A Karl Rahner – de quem Metz foi aluno e com quem mais tarde alimentou um apaixonado e criativo diálogo teológico – se deve a afirmação “o cristão do futuro ou será um místico ou não será nada”. Metz concorda, mas acrescenta que esta mística só pode ser uma “mística dos olhos abertos”, que faça “ver” o sofrimento e dê ao cristão capacidade para o interpretar à luz da memória da paixão e morte de Jesus. A Igreja é definida por Metz como “comunidade da memória” (Erinnerungsgemeinschaft) dessa paixão. Nas suas obras, ele mesmo considera esta “memória da paixão” o fio condutor da sua teologia.

O grande pecado do cristão é, para ele, a cegueira: a recusa de olhar e de ver o sofrimento e a consequente indiferença, falta de “compaixão” ou fuga para uma religião individualista, intimista.

Nos anos 1970 decorria o sínodo das dioceses alemães. A Metz se deve a redacção de um dos mais importantes documentos sinodais: “A nossa esperança”. Nele se exprime e se resume bem a fé e a esperança deste grande teólogo que agora nos deixou: “Aprender o sofrimento num mundo apático e alérgico ao sofrer, mas também aprender a alegria, o prazer terreno em Deus e nas suas promessas no meio de um mundo esgotante: isso faz parte do nosso envio e da nossa esperança neste tempo e para este tempo”. Metz foi isso mesmo: um teólogo e uma testemunha da esperança.

 

Jesus é uma memória perigosa da humanidade

(entrevista de António Marujo a Johann Baptist Metz, no Público de 22 de Dezembro de 2006)

Jesus aponta a ideia de compaixão, enquanto sensibilidade ao sofrimento dos outros, como a missão essencial dos cristãos, diz Johann Baptist Metz, um dos mais destacados teólogos católicos contemporâneos. “Se percebêssemos isso como cristãos, hoje, essa seria a nossa memória perigosa.”

Iniciador de perspectivas como a teologia política e inspirador da teologia da libertação latino-americana, Johann Baptist Metz foi um dos teólogos que mais influenciou o Concílio Vaticano II e é um dos mais importantes nomes da teologia actual, a par do actual Papa Bento XVI, de quem foi colega enquanto professor, ou Hans Küng. Um dos seus melhores amigos, diz o próprio, é Gustavo Gutiérrez, teólogo peruano autor de Teologia da Libertação, o livro que baptizou a corrente latino-americana que advoga a proximidade da Igreja para com os mais pobres.

Nascido em 1928, Metz foi aluno de Karl Rahner, outro dos nomes grandes da teologia do século XX. Inspirador da teologia da libertação pela sua reflexão sobre a teologia política, diz que o catolicismo deve entender a libertação como a sensibilidade prática ao sofrimento dos outros.

Padre, professor universitário emérito em Münster (norte da Alemanha), alguns dos conceitos mais importantes das suas obras são a memória perigosa, o sofrimento dos outros, a solidariedade e a narrativa. Fundador da revista Concilium, onde publicou dezenas de artigos, é autor de obras como Memoria Passionis; Political Theology; Hope Against Hope: Johann Baptist Metz and Elie Wiesel Speak Out on the Holocaust; Faith and the Future: Essays on Theology, Solidarity and Modernity (colecção de artigos com Jürgen Moltmann); A Passion for God: The Mystical-Political Dimension of Christianity, In the Pluralism of Religious and Cultural Worlds: Notes Toward a Theological and Political Program; e The Emergent Church.

 

P. – Com 16 anos, foi chamado ao exército e viu morrer todos os seus companheiros. Isso teve alguma influência na sua teologia?

JOHANN BAPTIST METZ – Talvez tenha sido uma das razões a influenciar-me, não só para eu me tornar padre como para estudar teologia. Tinha tantas hipóteses de fazer outras coisas! Não posso dizer-lhe exactamente como… mas a minha teologia acaba por ser definida por essa experiência.

É a questão do que na teologia chamamos teodiceia, do sofrimento humano no meio da criação de Deus, que é boa. Porquê? – Esta pergunta e este grito tornou-se cada vez mais forte na minha teologia, também quando desenvolvi a teologia política. Fui obviamente influenciado por essa experiência e confrontado, enquanto alemão, com a catástrofe de Auschwitz.

De que modo?

A questão da teodiceia e a sensibilidade da teologia para esse aspecto tornaram-se importantes para mim. Quando o cristianismo se torna teologia, mudamos esta questão sobre a teodiceia, que era a pergunta principal – acerca da justiça de Deus perante os seres humanos que sofrem injustamente. O que define a tradição bíblica, desde o início, é a justiça para os que sofrem injustamente – que foi transformada na reconciliação dos pecadores.

Temos uma resposta para esta questão: Cristo é essa resposta, ao reconciliar, em Deus, a situação dos pecadores. O que sempre enfatizei na minha teologia foi: não esqueçamos este grito por justiça. Não apenas um grito político, mas o grito bíblico, já do Antigo Testamento, que regressa com experiências de catástrofes como a de Auschwitz. Este foi um dos temas que nunca abandonei na minha teologia.

Escreve que o olhar de Jesus é para os sofredores e não para os pecadores…

É também para os pecadores, mas a primeira perspectiva messiânica foi sempre a dos sofredores. Esta era a primeira visão de Cristo. Nós mudámos o cristianismo de uma religião basicamente sensível ao sofrimento dos outros para uma religião sensível aos culpados e aos pecadores.

Os cristãos esqueceram o sofrimento dos outros?

Sim. Melhor: claro que nunca esquecemos essa ideia, mas o cristianismo concreto e a sua história, pelo menos como o entendo, atiraram essa dimensão para as traseiras. Eu pretendo trazê-la de novo ao de cima, precisamente no confronto da actual situação do cristianismo com o mundo globalizado.

A sua proposta de uma mística da compaixão como uma mística política não é uma contradição nos termos?

Misticismo e política? Não. Se se entender a mística política em confronto com as diferentes formas de misticismo de olhos fechados, não é uma contradição. Já em 1980 falei do misticismo de olhos abertos, que é uma característica básica do misticismo bíblico. Porque todos temos responsabilidade por outros sofrerem. Isto é também uma diferença básica em relação ao budismo.

Não estou a falar em política partidária, mas de uma inspiração para o âmbito público da nossa vida. É uma motivação e inspiração para o que chamamos política. Não podemos separar estas duas dimensões.

Num encontro de teólogos que comemorou os seus 70 anos, falou da crise de Deus. O que queria dizer, exactamente?

Se olharmos para a situação na Alemanha, todas as coisas foram sugeridas – fim do celibato, as mulheres poderem ser ordenadas, uma moral sexual mais aberta – mas a Igreja está em crise. Não pode ser apenas uma crise da Igreja, tem que haver uma razão mais profunda. Por outro lado, diz-se que a religião está a regressar, pela espiritualidade. Mas descobre-se que as pessoas podem dizer sim à religião e dizer não a Deus. Porque Deus não é só uma terapia, é um Deus provocador. A religião não é fácil, é uma procura. Uma religião que não busca, não consola. Dizer “religião, sim, Deus não” é o princípio não de uma crise da Igreja mas de uma crise de Deus.

Tem criticado, a propósito da Constituição Europeia, a ausência da memória e, sobre o Holocausto, fala da cultura de amnésia. Esse é um risco dos nossos tempos?

Esta é uma crise que não refiro à teologia nem ao cristianismo, mas às nossas sociedades e culturas. Diria que a crise principal dos nossos tempos é esta amnésia cultural em que vivemos. Por isso é necessária uma afirmação básica, não apenas para a cristandade, mas para a humanidade: o homem não é apenas a sua própria experiência, mas também a sua memória. Esta racionalidade, esta amnésia racional, é muito importante para as questões da bioética e da neuroteologia.

Jürgen Habermas alertava: nunca esquecer a ideia da comunicação, da cultura da razão, que repousa sobre a memória. Se a humanidade perdesse a sua memória, nós seríamos a última peça da natureza.

E a lembrança perigosa de Jesus é o quê?

O Messias aponta-nos a grande missão de compaixão pela humanidade. Se percebêssemos isso como cristãos, hoje, essa seria a nossa memória perigosa.

Uma política guiada pela ideia da compaixão

Fala da compaixão como uma dádiva bíblica. A Europa secularizada está interessada nessa dádiva?

É importante que os cristãos se tornem conscientes que eles têm algo a dar ao mundo de hoje. A política guiada pela ideia da compaixão é muito diferente da política dirigida pela economia e pela técnica. Se todos os cristãos fossem capazes de seguir a ideia da compaixão, seria possível descobrir o ecumenismo da compaixão.

Eu não seria tão negativo quanto à Europa. O sentido bíblico da compaixão é uma atitude para a qual se pode convidar toda a gente. Trata-se de ser sensível ao sofrimento dos outros. Isso não é importante apenas para mim, mas também para a sobrevivência do ser humano. Nenhuma religião pode dizer que isso não é essencial para si. É um imperativo que vem de tradições bíblicas e históricas concretas, mas que é para toda a humanidade.

A compaixão pode ser também a atitude dos católicos em África e no Terceiro Mundo, em questões como a pobreza, a sida, a polémica sobre os preservativos?

Estamos obrigados a fazer alguma coisa, neste espírito de compaixão, confrontados com o desastre da sida ou contra a situação das mulheres em África. A Igreja não pode resolver a questão das mulheres com um modelo de feminismo burguês europeu, por exemplo.

Como encara o facto de, na Igreja, poder haver grupos a olhar para a ideia da compaixão como uma espécie de sentimentalismo?

É um perigo real, claro. É uma questão semântica, de vocabulário. Em alemão, a palavra mitleid é mais sentimental. Por isso tento redefini-la. A possibilidade de mal entendidos está incluída, mas tenho a impressão que não há palavras que não tenham o perigo de mal entendidos.

Tem criticado fortemente a ideia do laicismo na Europa…

Não sou por uma Europa cristã, sou por uma Europa pluralista. Mas o laicismo é uma ideologia. Não posso entender que a situação francesa tenha chegado ao conceito de laicidade a que chegou. A Igreja francesa estava tão ligada ao Antigo Regime, ao período pré-revolucionário, que foi afastada. Mas temos formas diversificadas no processo moderno do iluminismo e modernização: se considerarmos o que está a acontecer na Inglaterra e nos Estados Unidos, também é separação e pluralismo, mas não secularização. A modernização é imparável. O problema é como é que entendemos a laicidade: como uma privatização da religião ou como uma pluralização.

Teve muita influência na teologia da libertação. Há quem diga que ela morreu…

Não há dúvida que a teologia da libertação tentou descobrir e desenvolver a opção pelos pobres. Não se pode desistir disso. Há elementos que se podem abandonar, mas a sensibilidade ao sofrimento dos outros – se se entender a libertação como prática da sensibilidade para com o sofrimento – é uma posição da Igreja da qual não devemos desistir.

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