Num dos seus livros, publicado em 2009, John Allen Jr. escrevia: “A Igreja está em desordem. Não estou a dizer que seja uma confusão ou que tenha deixado de funcionar. (…) Os católicos do século XXI não só terão de mexer-se (certamente vão necessitar disso), mas sobretudo terão de recorrer à imaginação.” Era essa desordem que o jornalista norte-americano, que trabalhou no National Catholic Reporter, na CNN e liderou o Crux, procurava explicar nas suas notícias, comentários e textos editoriais. John Allen, um dos mais brilhantes “vaticanistas”, morreu quinta-feira, 22, o seu funeral realiza-se nesta segunda-feira, 26, depois da celebração da missa na Basílica de Santo Eugénio (Viale delle Belle Arti, 10), em Roma. Tinha 61 anos, completados na passada terça, 20.
No Religion News Service (RNS), o padre Thomas Reese evoca a sua personalidade e a sua herança citando Austen Ivereigh, jornalista inglês e biógrafo do Papa Francisco: “Durante os anos de João Paulo II e Bento XVI, ele era a principal fonte para explicar o que se passava em Roma”, diz Ivereigh. “Era o grande desmistificador. Amava Roma pela extraordinária visão panorâmica que proporcionava da Igreja e, através dela, do mundo. Costumava dizer que tinha o melhor emprego no jornalismo.”
Nascido em Hays, Kansas, no centro dos Estados Unidos, John foi criado por uma mãe solteira. Fez o bacharelato em Filosofia na Universidade Estadual de Fort Hays e o mestrado em estudos religiosos na Universidade do Kansas. Leccionou jornalismo durante quatro anos, entre 1993 e 1997, na Notre Dame High School em Sherman Oaks, Califórnia.
Rapidamente deixou esse trabalho – mas não a vocação de ensinar, como testemunham os sucessivos jornalistas por ele formados – para ser o correspondente do National Catholic Reporter (NCR) e correspondente no Vaticano, em 2000. Cino anos depois, na altura da doença e morte do Papa João Paulo II, começou também a fazer comentário para a CNN. Os espectadores habituaram-se à figura franzina que lhes dava análises assertivas, profundas e robustas. Em 2014, já depois da eleição do Papa Francisco, o Boston Globe – o mesmo jornal que denunciara os escândalos de abuso sexual na arquidiocese de Boston – criou o Crux, um jornal dedicado a informação religiosa dentro da edição online do Globe, convidando-o para dirigir essa publicação.
O modelo não funcionou economicamente e, dois anos depois, o Globe passou o projecto para as mãos de Allen, que procurou investidores, doadores e publicidade. O Crux continuou, cada vez com mais sucesso, a tal ponto que foi da esposa de John, Elise Ann Allen, a autoria da primeira entrevista ao Papa Leão XIV depois da sua eleição [ver 7MARGENS] – dessa entrevista deverá resultar também uma biografia do Papa Prevost, com publicação inicialmente prevista para este início de ano.
“Dizia sempre: ‘Sê gentil’”

Padre James Martin em Lisboa em 2023, antes da Jornada Mundial da Juventude: John Allen tinha um “conhecimento enciclopédico” e uma prosa brilhante”. Foto © António Marujo.
Os testemunhos publicados por ocasião da sua morte falam dessa argúcia e finura na análise que fazia dos acontecimentos da Igreja Católica e do Vaticano. “Uma leitura essencial para todos os interessados no funcionamento interno do Vaticano”, escrevia Thomas Reese no RNS.
O mesmo comentador referia ainda as “informações e análises perspicazes”, enquanto O mesmo comentador referia ainda as “informações e análises perspicazes”, enquanto Christopher White, que se tornou correspondente do NCR no Vaticano depois de ter estado no Crux, falava da sua generosidade: “Estava sempre disposto a dar conselhos (especialmente se houvesse uma refeição ou bebida envolvida) e demonstrava uma ética de trabalho incansável, equilibrada por um compromisso genuíno em divertir-se ao longo do caminho”, afirmava o agora também investigador da Iniciativa sobre Pensamento Social Católico e Vida Pública da Universidade de Georgetown. White acrescentava que John chegou a Roma com o ar de americano do Midwest “um tanto desleixado, que se sentia desconfortável a usar um fato formal, mas desesperado por ser levado a sério por uma instituição definida pelas suas formalidades”.
White não foi o único a formar-se na escola de Allen: Inés San Martín; Claire Giangravé, agora correspondente do RNS no Vaticano, ou a própria Elise Ann, são alguns dos nomes que se destacam na informação vaticana e que seguiram a esteira de John.
No Crux, Charles Collins e Christopher R. Altieri sublinham a “força da natureza”, o “mentor paciente, um colega generoso e o jornalista por excelência”, que proporcionava “muitos encontros agradáveis” em muitos dos quais “gostava de exercer o seu formidável talento culinário e era um anfitrião prodigiosamente gentil”.
A ele, recorriam “vozes proeminentes” de vários sectores da Igreja Católica, incluindo cardeais e outros jornalistas que queriam ter informações privilegiadas sobre o catolicismo. Era o “mais influente” na língua inglesa, no que aos assuntos do Vaticano dizia respeito, acrescentava o The Tablet, o mais importante semanário católico inglês.
Na America, a revista dos jesuítas dos EUA, o padre James Martin escreveu que John tinha um “conhecimento nada menos que enciclopédico” e “divulgava sempre notícias exclusivas, oferecia análises incisivas, tinha as melhores fontes e reunia tudo numa prosa brilhante”.
O reconhecimento que lhe vinha de tantos notou-se mesmo nos últimos quatro anos, durante a luta contra o cancro que o atingiu. Num texto publicado também no Crux, Elise Ann agradece aos amigos que se organizaram para garantir que John não estava sozinho no final. “Estou mais convencida do que nunca de que a amizade autêntica é uma imagem do divino, porque certamente vimos Deus de formas novas e poderosas em e através de cada um de vós”, escreve ela, agradecendo também aos leitores – muitos deles em Portugal – dos quais John também era um “apaixonado”.
A esposa de John acrescenta que a lição do marido era só uma: “Sê gentil. Num mundo onde a raiva e o desprezo dominam frequentemente as nossas interações com os outros, John dizia sempre: ‘Sê gentil’”.
O catolicismo é “demasiado grande”

John Allen Jr. com o Papa Bento XVI, sobre o qual escreveu dois livros. Foto © Thomas S. Major/Wikimedia Commons.
Além do trabalho como jornalista, John Allen publicou também 11 livros – e, nos últimos anos, realizou ainda um podcast com o título A Última Semana na Igreja. O editor do último livro, Matthew Becklo, escreve também no Crux sobre o processo que levou à publicação do título Católicos e Desprezo: Como a Comunicação Social Católica Alimenta as Lutas Actuais e o Que Fazer Sobre Isso, em tradução livre. Foi o único que escreveu sobre o seu trabalho profissional – os outros incluem entrevistas, dois livros sobre o cardeal Ratzinger, depois Papa Bento XVI, um sobre a Opus Dei e o livro referido no início, com o título A Igreja do Futuro: Como Dez Tendências Estão a Revolucionar a Igreja.
Nessa última obra, Matthew Becklo diz que John Allen fala da “cultura do desprezo” que existe em muitos média católicos. “Esta sede insaciável de ferir os adversários, custe o que custar – muitas vezes online – é o modus operandi da cultura do desprezo e, cada vez mais, dos media católicos”, escreve Becklo, que adianta que, para Allen, era importante “combater esta cultura”. E acrescenta: “Se queremos nadar contra a maré actual de polarização, acrimónia e tribalismo, precisamos de criar espaços onde católicos com diferentes perspectivas e temperamentos se possam encontrar e tornarem-se amigos” em momentos “espontâneos e sem guião, nos quais as pessoas se ligam a um nível humano básico e que isso pode acontecer à volta da mesa: “Ao longo dos séculos, a comida (e a bebida, claro) foi muitas vezes o elo que manteve o catolicismo unido (…). Não vejo razão para que a mesa de jantar não nos possa salvar novamente hoje, e esta é apenas uma possibilidade. A questão é que os meios de comunicação católicos devem ser intencionais na sua procura.”
Na sua página no Facebook, o meu camarada Joaquim Franco recorda “um dos mais sérios e assertivos analistas das fragilidades e virtudes da Igreja Católica”, que tinha “sínteses magistrais, abordando tudo o que era essencial em cada tema” e “descomplicava” os assuntos. A sua morte deixa “o jornalismo mais pobre, sobretudo o que leva a sério o fenómeno religioso, em particular a vida da Igreja sediada em Roma”.
No livro sobre A Igreja do Futuro (há uma edição espanhola na San Pablo), John Allen identifica as dez tendências que, neste século XXI, irão desarrumar a Igreja Católica: líderes oriundos de todos o mundo; política identitária contra uma “secularização sem controlo”; uma abertura ao islão, além do judaísmo; o desafio da população envelhecida; cada vez mais leigos a trabalhar em muitos sectores; uma doutrina moral que procura “desesperadamente” ir atrás dos avanços científicos; uma doutrina social desafiada pela globalização; que se deve também preocupar pelo “bem-estar” do cosmos”; uma diplomacia vaticana que passou a agir num mundo multipolar e já não de cristandade; e que se vê confrontada com o cristianismo pentecostal em expansão.
Não haverá evolução numa direcção única porque o catolicismo é “demasiado grande e complexo para não conter tendências contraditórias”, acrescentava John Allen no livro. E “em certo sentido há uma única tendência, a globalização, que está produzindo reacções dentro da Igreja Católica e criando fora dela toda uma série de novos desafios”.
Teremos saudades das tuas reflexões sobre a desordem, John.










