Joker, o desafio da diferença

| 8 Dez 19

 

Filmes baseados em banda desenhada não faltam, mas este Joker é diferente. Para melhor. É o único representante desta década nos vinte melhores filmes de sempre da IMDb e parece-me sério candidato aos Óscares de melhor ator, realizador e banda sonora.

É preciso ir ver. Num dia que estejamos com força para enfrentar um filme negro e desconfortante e, se com companhia, apenas de alguém que não esteja ali para se “divertir” ou ser entretido. Se não conseguirmos entrar nesta versão do Joker, vai parecer tudo estranho e distante, quando o filme é para nos levar aos poucos até onde quer. É para ser experienciado como uma peça de Teatro.

Aqui não há herói e vilão como noutro excelente Joker de 2008 que deu o óscar a Heath Ledger. De resto, não há nenhuma personagem (real) que faça o papel de bom da fita. Há intenções, tentativas, mas em alguma altura todos mostram algo por resolver dentro de si, inseguranças, ou são apenas incapazes de serem bons em todas as situações.

Também não senti que fosse um filme sobre Arthur Fleck (Joker). A história dele é complicada e vai-nos sendo explicada, mas sentimos que ele vai reagindo sobretudo ao que lhe acontece. Não é nas suas intenções, planos ou capacidades que está a questão e não somos levados a ter uma ligação com a personagem. A história é sobre o que nós e as outras personagens vamos sentindo dele quando reage a tudo o que lhe cai em cima.

Por ser diferente, Arthur Fleck é gozado, iludido, agredido e afastado por outros quando procura exprimir-se e encontrar um lugar – You don’t listen, do you?. É tarefa impossível para alguém sozinho até que os média pegam nele, despersonalizam e amplificam a diferença por si só e lhe dão o poder, nome e veículo para se tornar símbolo e catalisador de uma luta de “nós” contra “eles” – Is it just me, or is getting crazier out there?

O filme é muito negro ao mostrar que aceitar o diferente nos outros e em nós é difícil, antinatural até, ao passo que usar a diferença para a separação e categorização é extremamente eficaz. Mesmo com todo esse negro e alguns pontos de violência a mais, desnecessários para os efeitos da história mas que parecem ser obrigatórios num filme deste género, retirei algo positivo do filme que não consegui definir logo. Algo ligado com a enorme diversidade em cada um de nós e com o facto de haver formas de usar o próprio sistema que amplificam a diferença e a tenta despersonalizar, para criar dinâmicas de aceitar a diferença e mudança.

O efeito desafiador do filme manteve-se algum tempo. Era noite de Halloween e havia máscaras por todo o lado quando saí do cinema. No dia seguinte vi protestos em Hong Kong com caras de palhaço como no filme e tenho ouvido a banda sonora do filme. Além de estar mais atento à diferença, de vez em quando penso: quem é o Joker e o movimento à nossa volta neste momento que pode quebrar lógicas?

Para alguns será a Greta Thunberg e os jovens que lutam contra a emergência climática, para outros será a Extinction Rebellion com acções pró-ambiente mais agressivas ou até mesmo, para outros, será Trump, ao ir aparentemente contra o sistema em Washington. A diferença parece estar a ganhar terreno mas será que a estamos a aceitar ou apenas a escolher lados em vez de misturar, aprender com todos e cada um fazer o seu caminho… diferente?

7.12.2019

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