Mirandela

Jorge Órfão: o homem que molda o metal à religião

| 21 Abr 2024

Jorge Órfão. Foto Rúben Castanheiro

Jorge Órfão no seu atelier, que fica na Rua do Convento, em Mirandela. Foto © Rúben Castanheiro

 

Chama-se Jorge Órfão, tem 53 anos e é o mais recente elemento da Rota Saber Fazer. Destaca-se pela sua capacidade metalúrgica e são os temas ligados à religião que mais gosto lhe dão. Desde cruzes e presépios a brinquedos que fazia quando era criança, assim vão variando as peças de Jorge.

É na Rua do Convento, em Mirandela, que tem o seu atelier e as ferramentas com que, manualmente, trabalha o metal. O único processo em que usa a eletricidade é quando precisa de soldar alguma peça. O que o torna diferente é ser um dos poucos que trabalha o metal para elaborar peças artesanais. O gosto, segundo ele, “nasceu e cresceu” consigo.

“Antes de fazer desse gosto a minha profissão, sempre tive, desde miúdo, tendência para pegar no arame e na lata e moldá-los para fazer as minhas coisas… era eu que criava os meus próprios brinquedos”, explica ao 7MONTES.

Um dos temas a que Jorge dedica mais atenção é a religião e às peças com ela relacionadas. É assunto que sempre o sensibilizou e algo que as pessoas também procuram. Mas a verdade é que as peças que produz são feitas a partir da “primeira coisa que lhe vem à cabeça”. “Tenho muitas ideias, muitos projetos, para fazer coisas novas, mas se entretanto surgir outra ideia, esta sobrepõe-se às outras. Se estiver entusiasmado em colocar essa ideia em prática, passo por cima de tudo para a conseguir concretizar”, diz Jorge.

Presépio criado por Jorge Órfão. Foto Rúben Castanheiro

Presépio criado por Jorge Órfão. Foto © Rúben Castanheiro

Desde o início de abril, Jorge Órfão está integrado na Rota Saber Fazer da Terra Quente Transmontana, que é uma rede de oficinas de artesãos e de produtores rurais integrada na oferta turística da região – o alojamento, a restauração e as empresas de animação turística – para criar ofertas estruturadas de turismo de experiências. Jorge é de Mirandela, por isso pertence à Terra Quente Transmontana. Foi contactado pela organização, pareceu-lhe bem, e só teve de preencher um questionário para finalizar os pormenores de adesão.

“Achei que era um projeto interessante e que o meu trabalho se enquadrava naquilo que eles procuravam. Aderi e está a correr bem”, conta. Com esta iniciativa, Jorge começou a desenvolver workshops e até 31 de maio tem uma exposição localizada na ECOTECA de Mirandela. São perto de 50 peças, mas já estão quase todas reservadas para venda. A exposição abriu a 16 de fevereiro e está aberta todos os dias das 9h até às 18h.

Já quanto às técnicas, Jorge usa algumas bastante interessantes. “Tenho um modo de trabalhar em que realizo tudo numa linha contínua. Usando um fio, ou um arame, ou até uma verga de ferro, consigo criar uma forma seguindo sempre essa linha. Tenho também outra técnica em que trabalho a partir de peças usadas e, sendo mais ou menos abstrata, a forma dessa peça é que me ajuda a definir o que quero fazer”, explica.

Jorge já ganhou vários prémios com as suas peças, quer a nível nacional quer internacionalmente. No Luxembourg Art Prize 2023,  foi reconhecido pelo seu mérito artístico, o que, lembra, lhe trouxe “grande felicidade”. Mas a aquisição do seu presépio por parte da Província Portuguesa da Ordem Franciscana, em Lisboa, no âmbito do concurso nacional de presépios comemorativos do VIIIº Centenário de Greccio, em dezembro de 2023, foi segundo ele, um dos pontos mais altos da sua carreira artística.

Porém, apesar das pessoas até poderem achar interessante, durante os workshops, ver fazer e trabalhar as peças, é difícil encontrar alguém que se mostre disponível para trabalhar na área. “Era bom que aparecesse alguém interessado”, mas, até agora, o artesão não tem candidatos a aprendizes.

Para o futuro, Jorge diz que é “para ir andando” e não para fazer “fortuna”, dado que o artesanato feito manualmente acarreta outros custos, como, no seu caso, produtos de manutenção, para, por exemplo, garantir o tratamento antiferrugem. Os custos sobem e os preços das peças também, pelo que são menos as pessoas com disponibilidades para as comprarem.

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