Encenador morreu aos 73 anos

Jorge Silva Melo (1948-2022): ser católico “é uma coisa firme”

| 15 Mar 2022

HuJorge Silva Melo. Foto © José Goulão — Lisboa, Portugal, CC BY-SA 2.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0>, via Wikimedia Commons.

Jorge Silva Melo. Foto © José Goulão — Lisboa, Portugal, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons. 

Não sou, de longe, a melhor pessoa para evocar o Jorge Silva Melo. Estive com ele meia dúzia de vezes, sempre sem demora. No entanto, havia nele uma generosidade capaz de estabelecer laços de proximidade, mesmo em curtas conversas de chat de facebook. Numa dessas conversas falei-lhe da primeira vez, em 2005, em que o vi presencialmente, na estreia de Perdoar Helena, de Tolentino Mendonça, no Teatro Taborda, na Costa do Castelo, onde então estavam sediados os Artistas Unidos. Ele, fundador e director da companhia, encenador da peça, estava à entrada da sala a verificar os bilhetes dos espectadores. Contei-lhe isso e ele comentou: “Gosto muito de fazer essas tarefas aparentemente menores no Teatro.”

De Deus, da Igreja, de sermos católicos, pouco ou nada, além de uma ou outra subtileza, um ou outro piscar de olho. Sobre esses assuntos remeto para a belíssima conversa que teve com Maria João Avillez na Capela do Rato, no dia 21 de Outubro de 2015.

Dessa conversa fica(-me) a sensação de que assume o ser católico como um acto de rebeldia. Um fulgurante acto de rebeldia. Anos mais tarde, numa entrevista saída na edição do Verão de 2019 da revista LER, quando Filipa Melo lhe pergunta se continua a afirmar-se católico, responde “Foi uma coisa firme. É uma coisa firme. O catolicismo formou-me numa série de princípios, dos quais não abdico.” E não posso deixar de pensar que, no testemunho de solidariedade que deixou a Mamadou Ba, em Fevereiro de 2021, são esses princípios do catolicismo que o fazem citar um verso de A Internacional – “Uma terra sem amos” – a que acrescenta: “sem acabarmos de vez com o capitalismo, não poderemos nunca ser iguais.”

Jorge Silva Melo, acompanhado de João Bénard da Costa e Paulo Vale no debate sobre "A beleza", em 24 de Maio de 2007, no ciclo "Eis o Homem", organizado pelo Patriarcado de Lisboa na catedral. Foto © Rui Martins/Pastoral da Cultura.

Jorge Silva Melo, acompanhado de João Bénard da Costa e Paulo Vale no debate sobre “A beleza”, em 24 de Maio de 2007, no ciclo “Eis o Homem”, organizado pelo Patriarcado de Lisboa na catedral. Foto © Rui Martins/Pastoral da Cultura.

Depois, o seu fascínio pelo episódio da transfiguração narrado nos evangelhos (Mateus 17, 1-9; Marcos 9, 2-8; e Lucas 9, 28-36), que aparece amiúde referida nas suas obras, como, por exemplo, a personagem que o evoca por duas ou três vezes no filme Ninguém Duas Vezes, de 1984. É com entusiasmo que fala dessa cena, na referida conversa da Capela do Rato, num trecho que não resisto a transcrever: “…e depois há aquela coisa que é o desígnio de todos os artistas (acho eu), que é o São Pedro… que era o mais simpático de todos, sempre com o coração ao pé da boca… o São Pedro que diz ‘vamos é fazer aqui três tendas e… ficarmos aqui para sempre’. Portanto, Jesus terá rompido a matéria e o espaço, São Pedro queria parar o tempo! E parar o tempo é a ambição de todos nós, nas artes. É o famoso verso do Lamartine: ‘Ó tempo, suspende o teu voo’… é ficarmos… sem a deterioração, sem a morte, sem a rosa a cair. Queremos o momento em que está… o esplendor da divindade, da humanidade, o esplendor da flor.”

Intercede por nós, Jorge, aí, junto do Deus do amor e do perdão.

Rui Almeida é poeta

 

Mais do que A Voz da Fátima

Pré-publicação

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Que fosse pedido a um incréu um texto de prefácio para um livro sobre A Voz da Fátima, criou-me alguma perplexidade e, ao mesmo tempo, uma vontade imediata de aceitar. Ainda bem, porque o livro tem imenso mérito do ponto de vista histórico, com o conjunto de estudos que contém sobre o jornal centenário, mas também sobre o impacto na sociedade portuguesa e na Igreja, das aparições e da constituição de Fátima e do seu Santuário como o centro religioso mais importante de Portugal. Dizer isto basta para se perceber que não é possível entender, no sentido weberiano, Portugal sem Fátima e, consequentemente, sem o seu jornal.

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Há quem diga que este é o “primeiro fruto milagroso” da viagem apostólica que o Papa Francisco fez ao Bahrein, no início de novembro. Na verdade, resulta de três anos de trabalho de uma equipa de arqueólogos locais e britânicos, que acaba de descobrir, sob as ruínas de uma antiga mesquita, partes de um ainda mais antigo mosteiro cristão.

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