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Jornada de memória, luto e afirmação da esperança

| 2 Jul 21

Homenagem às vítimas da pandemia da covid-19 

Uma iniciativa para mobilizar a sociedade civil, multiplicando gestos que sejam significativos de homenagem a quem foi (ou está a ser) vítima da pandemia. Este é o sentido da proposta da Jornada de Memória, Luto e Afirmação da Esperança, sugerida para o fim de semana de 22-24 de outubro por um conjunto de 100 pessoas, a que se associou o Presidente da República, através do seu alto patrocínio. 

Tendo em conta a relevância da proposta, o 7MARGENS associa-se também à sua divulgação, apresentando a seguir o texto integral da declaração de apresentação, que inclui já um conjunto de sugestões e também a lista dos 100 subscritores. 

Flor seca luto morte © Miguel Veiga

Foto © Miguel Veiga

 

O vírus da pandemia que assolou o mundo em 2020-21 está a ser combatido com eficácia pelas medidas sanitárias e pelas vacinas conseguidas em tempo record. O rasto deixado é de desolação: o número dos diretamente afetados caminha para os 180 milhões e, desses, perto de quatro milhões perderam a vida. Estamos perante uma tragédia de proporções avassaladoras.

Ainda que sejam grandes os desafios que as nossas sociedades têm pela frente, em particular na saúde e na economia, a amplitude da tragédia parece ter-se atenuado nos países do mundo ocidental que controlam a produção e o acesso às vacinas. Mas os entraves à libertação das patentes e a falta de solidariedade internacional fazem com que uma grande parte da humanidade, sobretudo dos países do hemisfério sul, continue a sofrer e a morrer de forma dramática com a covid-19. 

Mesmo nos países ditos desenvolvidos a situação de algum controlo dos aspetos sanitários mais gravosos da pandemia, a que estamos a chegar, pode considerar-se precária, porque é sistémica: só estaremos seguros contra a covid-19 quando, a nível do planeta, todos estiverem seguros.

Ao olhar para a fase pós-pandemia na realidade que nos é mais próxima, não podemos esquecer, não podemos fazer tábua-rasa, da experiência traumática que o último ano representou para centenas de milhares de portugueses que viveram e vivem momentos trágicos.

Não podemos nem queremos esquecer as perto de 900 mil pessoas contagiadas, muitas das quais passaram por situações desesperadas de que estão ainda a recuperar física e psiquicamente.

Não podemos nem queremos esquecer as mais de 17 mil vítimas mortais. Grande parte sofreu sozinha, morreu longe dos seus e sem possibilidade de um último adeus. Não podemos esquecer os seus familiares e amigos, sobretudo os que não puderam acompanhar e despedir-se dos doentes hospitalizados ou institucionalizados, e de todos aqueles que nem sequer puderam fazer-lhes o funeral.

Não queremos nem podemos esquecer as várias categorias de profissionais que trabalharam até ao esgotamento nas linhas da frente, bem como outros profissionais que, em outras frentes, permitiram que o país funcionasse.

Não podemos nem queremos esquecer a memória dos que partiram e a dor vivida pelos que ficaram, mais a de todos os familiares e amigos que também sofreram com a dor dos outros.

Não podemos esquecer aqueles que, em Portugal e um pouco por todo o mundo, morreram não devido à covid-19, mas à fragilidade dos serviços de saúde que deixaram de poder atender a outras doenças graves.

Não podemos esquecer a pandemia da solidão, que atingiu todos, mas, particularmente, os muitos idosos, que perderam a vida ou a lucidez, fazendo-nos ver que a vida dos mais velhos não é menos preciosa do que a dos mais novos.

Fazer o luto é imprescindível. São atos pessoais e sociais que ajudam a despedir-se de quem parte, proporcionando o reconhecimento da vida que viveram. Ajudam também a curar as feridas e a seguir em frente. As circunstâncias da pandemia e as restrições de movimentos a que ela obrigou não deixaram, em muitíssimos casos, que se iniciasse o processo de luto.

Fazer o luto comunitário é imprescindível. Numa pandemia, há uma dimensão coletiva e comunitária do luto que não resulta apenas do somatório dos lutos individuais ou familiares. Há um luto comunitário que precisa de ser feito, porque a tragédia que eclodiu e o trauma que ela originou são sociais e globais.

Afirmar a esperança é igualmente necessário. Esperança no reforço de relações sociais fraternas, justas e portadoras de futuro para todas e todos, conscientes do risco que existe de regresso ao velho normal. Esperança por estarmos mais preparados para enfrentarmos juntos os desafios da pós-pandemia e outros que se nos coloquem. Esperança fundada nos atos de solidariedade, dedicação e atenção de que fomos atores e testemunhas ao longo deste longo ‘inverno’. 

Afirmar a esperança será também não desistir de pensar um outro mundo, de questionar o modelo de sociedade centrado no ter e não no ser. Reconhecer que somos todos vulneráveis e interdependentes, que estamos todos no mesmo barco e que reconhecê-lo pode ajudar a superar o medo. 

Em memória do que cada um viveu, para sublinhar o luto coletivo, afirmar a esperança que nos move e homenagear as vítimas da pandemia, um grupo de cidadãos, constituído em Comissão Promotora, entende ser necessário e oportuno propor a organização de uma iniciativa cívica, de âmbito simultaneamente nacional e local, que vá ao encontro das preocupações aqui enunciadas. 

Jornada nacional Memória e Esperança 2021

25 de Abril em pandemia, numa das fotos (agora distinguida pelo Prémio Gazeta de Fotografia) da exposição Diário de Uma Pandemia, da autoria de José Sena Goulão, na Galeria CC11. Foto © Miguel Marujo.

  1. A jornada visa mobilizar a sociedade portuguesa e suscitar a participação de todas as pessoas e instituições que o desejarem.
  2. A jornada visa dar densidade, rosto, vida e sentido coletivo aos números, estatísticas e gráficos com que todos fomos confrontados desde março de 2020.
  3. De modo especial, a jornada propõe-se prestar tributo aos que partiram, acolher o sofrimento e as narrativas dos que foram afetados pela pandemia e suas consequências e celebrar e agradecer a todos os que cuidaram da saúde e minoraram o sofrimento e a dor de tantos. Será também uma iniciativa para afirmar a vontade de viver em comunidades que não querem deixar ninguém para trás. 
  4. A jornada ocorrerá no fim-de-semana de 22-23-24 de outubro de 2021 em um ou mais destes dias, podendo extravasar para dias anteriores ou posteriores.
  5. A jornada poderá ter uma cerimónia nacional, em moldes a definir, e terá múltiplas iniciativas locais ou setoriais, de carácter livre, articuladas num programa local, se possível. 
  6. Procurar-se-á dar corpo a tudo o que a pandemia nos deixa na memória, recorrendo a todas as linguagens expressivas, que não apenas, nem sobretudo, o discurso falado. 
  7. Num dos dias da Jornada, a definir, procurar-se-á que os sinos das igrejas toquem ao meio-dia e as famílias serão convidadas a colocar, à noite, uma vela num espaço público coletivo ou na janela das suas casas.
  8. As instituições religiosas, atendendo à proximidade com as respetivas comunidades e aos rituais próprios que têm para lidar com o sofrimento e a morte, são convidadas a tomar as iniciativas que entendam mais adequadas, próprias e/ou em articulação com outras confissões e outras instituições da sociedade.
  9. Do mesmo modo, os órgãos do poder autárquico municipal e de freguesia são convidados a assumir protagonismo, quer na promoção de iniciativas quer na articulação e coordenação de ações no plano local quer na sensibilização das instituições e das comunidades locais.
  10. As escolas e, em geral, as instituições educativas são chamadas a organizar projetos que valorizem a expressão das crianças e dos adolescentes relativamente às vivências e aprendizagens que fizeram com a pandemia, num exercício que permita abordar um processo que foi traumático e que afetou de modo particular os mais novos.
  11. As instituições de saúde, de ação/intervenção social e de proteção civil, pelo papel que têm tido no combate à pandemia, terão certamente um lugar de destaque em iniciativas nacionais e locais, através de iniciativas próprias ou de outras entidades.
  12. As instituições e os atores culturais, tão fortemente penalizados pela pandemia, saberão incluir na sua programação e na sua criação propostas específicas de interpretação artística e de expressão de sentido e significados sobre estes tempos de pandemia e o desenho de um futuro não assente em tentadoras distopias.
  13. Os meios de comunicação social são convidados a tomar as iniciativas que entendam oportunas para informar e mobilizar a comunidade, tomando as iniciativas editoriais e de programação que entendam mais adequadas.
  14. As iniciativas deverão ter um carácter aberto, plural e inclusivo, podendo assumir formas como celebrações cívicas, celebrações religiosas/ ecuménicas, concentrações, desfiles, vigílias, tempos (minuto) de silêncio, cordões humanos, instalações artísticas, sessões musicais ou performativas (dança, poesia, teatro, murais…).
  15. Será criado o site memoriaeesperanca.pt onde poderão ser anunciadas e registadas todas as iniciativas. Esse site terá também um papel pedagógico, recebendo e propondo ideias sobre o que se pode fazer localmente.

30 de junho de 2021

A Comissão Promotora

Adel Sidarus, Adelino Gomes, Adriano Miranda, Alexandre Abrantes Neves, Alfredo Abreu, Alice Vieira, Álvaro Laborinho Lúcio, Ana Madureira, António Calaím, António Cardoso Ferreira, António Marujo, António Silva Graça, Bruno Nogueira, Catarina Castel Branco, Catarina Pereira, Cátia Tuna, Cho Ian Lei, Cristina Sampaio, Daniel Sampaio, Debora Hossi, Deolinda Machado, Eduardo Jorge Madureira, Estela Gameiro, Esther Mucznik, Eugénio da Fonseca, Evelina Ungureanu, Fátima Almeida, Fernando Alves, Fernando Lapa, Filipa Reis, Francisco José Viegas, Fernando Ventura, Ghalia Taki, Gonçalo Reis, Helena Araújo, Helena Genésio, Helena Valentim, Inês Espada Vieira, Isaac Assor, Isabel Capeloa Gil, Isabel do Carmo, Joana Belbute, Joana Marques, Joana Rigato, João Madureira, João Pedro Chantre, João Ramos de Almeida, Joaquim Azevedo, Jorge Bateira, Jorge Pina Cabral, Jorge Wemans, José Carlos Mota, José Centeio, José Mattoso, José Vera Jardim, Júlio Martín Fonseca, Khalid Jamal, Leonor Xavier, Lídia Jorge, Liliana Caridade, Luís Mah, Luís Soares Barbosa, Luísa Alvim, Luísa Schmidt, Madalena Victorino, Mahomed Iqbal, Manuel Brandão Alves, Manuel Pinto, Margarida Mano, Margarida Valença, Maria Eduarda Ribeiro, Maria João Avillez, Maria João Nogueira, Maria José Água Mel, Maria Rueff, Miguel Poiares Maduro, Mónica Freitas, Nicolau Fernandes, Paula Moura Pinheiro, Paulo Borges, Pedro Abrunhosa, Pedro Bacelar de Vasconcelos, Pedro Silva Rei, Pedro Vaz Patto, Peter Stilwell, Rita Veiga, Rodrigo Soares, Romualda Fernandes, Rosa Coutinho Cabral, Rui Bebiano, Rui Veloso, Rui Vieira Nery, Sara Balonas, Silas de Oliveira, Simonetta Luz Afonso, Teresa de Sousa, Teresa Toldy, Teresa Vasconcelos, Tiago Rodrigues, Yasmin Bah. 

 

“Só posso agir como cristão, como me dita a consciência”

Aristides com honras de Panteão

“Só posso agir como cristão, como me dita a consciência” novidade

Domingo, 17 de Outubro, no programa Página 2, da RTP2, António Moncada Sousa Mendes, autor do livro Aristides de Sousa Mendes – Memórias de um Neto evocou a memória do seu avô. Foi um depoimento também a referir essa perspectiva e a recordar o longo caminho de Aristides até este dia que o 7MARGENS pediu ao neto do primeiro português a ser declarado Justo Entre as Nações.

Pandemia teve impacto devastador sobre liberdade de informação

Relatório da Amnistia Internacional

Pandemia teve impacto devastador sobre liberdade de informação novidade

“Os ataques à liberdade de expressão por parte de governos, combinados com uma enchente de desinformação por todo o mundo durante a pandemia da covid-19, tiveram um impacto devastador sobre a capacidade das pessoas para acederem a informação precisa e oportuna, que as ajudasse a lidar com a crescente crise de saúde global.” A conclusão é da Amnistia Internacional.

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Os dias não têm 24 horas

Os dias não têm 24 horas novidade

E se de repente nos viessem dizer que cada dia passaria a ter apenas 16 ou 17 horas? Com a falta de tempo de que sempre nos queixamos iríamos, decerto, apanhar um susto. Não saberíamos como resolver tamanho corte e, com imensa probabilidade, entraríamos em stresse, esse companheiro que nos boicota a vida num padrão que, como alguém disse, se traduz por excesso de presente.

Árvores, vigílias, música, humor… e o Presidente

Jornada Memória e Esperança de 22 a 24

Árvores, vigílias, música, humor… e o Presidente novidade

Uma exposição de cartoons, uma música para ser cantada por toda a gente, plantação de árvores a recordar as vítimas da pandemia ou a manifestar a esperança numa sociedade mais justa e solidária, vigílias cívicas ou religiosas, murais em escolas ou espaços públicos, bandas no coreto ou em praças públicas e ainda uma evocação que contará com a presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Estas são algumas das dezenas de iniciativas já previstas no âmbito da jornada Memória e Esperança, que decorrerá em todo o país, no próximo fim-de-semana.

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