
Jovens na cerimónia de acolhimento da JMJ de Lisboa: os jovens afirmam pacificamente a sua identidade, cantando e tomando conta da cidade. Foto ©️ Arlindo Homem /JMJ Lisboa 2023
As Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) são um “cató-pride” dos jovens que participam, “porque manifestam um certo orgulho, afirmando pacificamente a sua identidade, cantando e tomando conta da cidade” onde decorrem. Um ano depois da JMJ de Lisboa, esta é uma das ideias do sociólogo francês Charles Mercier, 46 anos, professor na Universidade de Bordéus e autor do livro L’Église, les Jeunes et la Mondialisation – Une Histoire des JMJ (A Igreja, os jovens e a mundialização – uma história das JMJ).
Tendo participado na Jornada de Lisboa, Mercier fala, nesta entrevista ao 7MARGENS, sobre o que são as dimensões utópicas que este acontecimento proporciona. As jornadas “são uma forma de epifania, de prefiguração daquilo a que os cristãos chamam o Reino de Deus, um mundo em que as causas de sofrimento – o pecado, a doença e a morte – são salvos”, que fazem “viver uma experiência fundadora a um certo número de jovens que percebem que é possível uma outra dimensão da existência”, acrescenta.
A propósito da “mensagem inclusiva extremamente forte” que considera ter estado “no centro da mensagem do Papa Francisco” em Lisboa, o sociólogo francês nota que os jovens do seu país “ficaram impressionados com o facto de as mulheres poderem distribuir a comunhão”, o que deixou de acontecer no seu país.

Charles Mercier: “Por detrás deste enorme encontro há a ideia de experimentar a diversidade do catolicismo”. Foto © António Marujo/7MARGENS.
7MARGENS – Um semanário português dizia que a Jornada Mundial da Juventude [JMJ] era “uma demonstração de força da Igreja Católica”. É isso, uma forma de congregar os jovens católicos ou um modo de estes ficarem confortados na fé, porque descobrem outras pessoas com a mesma convicção? O que é uma JMJ, afinal?
CHARLES MERCIER – É um acontecimento com diferentes dimensões. “Demonstração de força” não estou certo; seria mais a ideia de um “cató-pride” dos jovens que participam na Jornada, porque manifestam um certo orgulho, afirmando pacificamente a sua identidade, cantando e tomando conta da cidade.
É mais uma manifestação da juventude do que uma manifestação do catolicismo. São os jovens que tomam conta da Igreja Católica. A manifestação de força não faz parte. Talvez seja percebida como tal por quem observa, mas não está no imaginário dos participantes, nem sequer dos organizadores.
Por detrás deste enorme encontro há a ideia de experimentar a diversidade do catolicismo, a sua universalidade, a ideia de comungar numa multidão com uma mesma fé, de viver uma experiência espiritual através dessa dupla dimensão de diversidade e de multidão…
7M – Foi precisamente a convivência entre jovens de povos diferentes uma das coisas que me tocou muito na cerimónia de acolhimento da JMJ em Lisboa: havia russos, ucranianos, indianos, paquistaneses, sírios, arménios, africanos de todo o lado… Se é possível estarem todos juntos aqui, por que não será possível, entre os nossos políticos e na política internacional, um mundo mais fraterno e justo? Essa dimensão é importante desde o início nas JMJ?
Sim, há uma dimensão utópica da JMJ para mostrar como seria um mundo em que houvesse em primeiro lugar a fraternidade, baseada numa dimensão espiritual, com uma referência comum a um Ser bom, que ama cada um individualmente.
Desse ponto de vista, as JMJ são uma forma de epifania, de prefiguração daquilo a que os cristãos chamam o Reino de Deus, um mundo em que as causas de sofrimento – o pecado, a doença e a morte – são salvas. É uma forma de transfiguração furtiva, porque em quatro dias tudo termina e volta-se às rotinas. E não é porque as igrejas se encheram que mudam os problemas da sociedade portuguesa, mas isso faz viver uma experiência fundadora a um certo número de jovens que percebem que é possível uma outra dimensão da existência. E isso leva a um sonho, que sobreviverá talvez ao longo de toda a vida e que pode ser reactivado por outras experiências fortes.
Essa utopia estava lá quando João Paulo II criou as JMJ em 1984-85: estamos no fim da Guerra Fria e há esta ideia de que os jovens podem tornar-se protagonistas das relações internacionais, criar laços entre o Oriente e o Ocidente, desafiar as ideologias: desde logo a ideologia comunista, com os jovens da Europa de Leste, e depois de 1991 e da queda do Muro [de Berlim] desafiando o capitalismo e o neoliberalismo americano, recusando certos aspetos da sociedade de consumo. [Um tema] mais tarde retomado pelo Papa Francisco com a ideia da cultura do descarte, promovendo uma sociedade personalista e não capitalista.

O Papa Francisco na JMJ de Lisboa: “A diversidade está muito em sintonia com a evolução das sociedades ocidentais, onde é vista como um factor de enriquecimento.” Foto © Vatican Media
7M – Falava das consequências da JMJ. A nível pessoal, há histórias de pessoas que se sentiram tocadas, chamadas a ser padres ou religiosas, que resolveram casar com quem conheceram, etc. Tem havido também consequências nas estruturas de pastoral da juventude da Igreja, mudanças importantes nos países pelos quais a JMJ já passou?
É muito variável, depende das edições [da JMJ]. Por exemplo, no Canadá, em 2002, os bispos ficaram angustiados com um buraco financeiro depois da JMJ e tiveram de vender parte dos activos imobiliários para cobrir o défice. Já não havia dinheiro para a pastoral juvenil e quiseram virar a página o mais rápido possível, sem pensar como poderiam aproveitar o acontecimento.
Em França, em 1997, foi diferente: também houve défice, mas as doações dos fiéis permitiram cobrir as despesas e mesmo criar um excedente que permitiu alimentar projetos da pastoral da juventude. Durante a JMJ, experimentou-se que diferentes movimentos, diferentes sensibilidades podiam dialogar, apesar de muitas vezes viverem em competição ou em conflito ou cada um a fazer o seu próprio caminho. Houve um esforço de, à escala de cada diocese, criar instâncias de pastoral, fazendo dialogar os diferentes movimentos de jovens.
7M – Há outras experiências positivas?
Em Itália, durante os encontros de 1984-85, quando a JMJ foi criada, foi-o sob a influência das novas comunidades, principalmente da Comunhão e Libertação, associada aos Focolares, Sant’Egídio, mas também a Taizé. No início, a juventude da Acção Católica Italiana estava em segundo plano mas, no processo de preparação, [esses grupos] encontraram-se [todos]. Este primeiro modelo teve essa cooperação contribuindo para criar pontes entre a Comunhão e Libertação e a Acção Católica Italiana, que são duas linhas muito diferentes.
A ideia era de que, em certos assuntos, em certos projectos, a cooperação era possível e até enriquecedora porque cada grupo participava, tinha uma riqueza para trazer para um projecto [conjunto]. Isso contribuiu para passar o que João Paulo II tentou promover e que [o fundador da Comunidade de Sant’Egídio] Andrea Riccardi tentou desenvolver: uma espiritualidade de comunhão, um catolicismo no qual as diversidades são reconhecidas. Estamos no paradigma da diversidade, da fragmentação, da pluralidade.
7M – Um pouco o que o Papa dizia aqui em Lisboa: na Igreja há espaço para todos.
Sim, traduz a diversidade e a pluralidade e a unidade que se constrói através de projetos comuns sobre o princípio da valorização da diversidade; que também está muito em sintonia com a evolução das sociedades ocidentais, onde a diversidade se tornou um valor em si e é vista como um factor de enriquecimento.
7M – Sobre a questão da inclusão: fala no seu livro de algumas dificuldades para alcançar a inclusão, seja da diversidade religiosa, das mulheres e, sobretudo, da orientação sexual. Acrescento a questão do acesso dos mais pobres, uma vez que há menos jovens de África, da Ásia… Mas houve dificuldades em incluir, por exemplo, jovens LGBT…
A missa que foi celebrada não estava no programa oficial…
7M – Não, era organizada por um grupo informal… Como têm sido vividas nas diferentes JMJ as questões da inclusão – diversidade religiosa, que em Lisboa não foi conseguida, os mais pobres, as mulheres…?
Essa mensagem inclusiva extremamente forte esteve no centro da mensagem do Papa Francisco [em Lisboa]. O que me impressionou foi que o paradoxo é que há uma mensagem inclusiva que funciona muito bem do ponto de vista da diversidade cultural ou da deficiência, porque cada pessoa é diferente. Essa ideia desconstrói a norma dominante e sugere que cada um de nós é único e por isso cada um de nós, cada um dos participantes, é aceite.
Sobre as mulheres, posso dizer que [na JMJ de Lisboa] os participantes franceses ficaram impressionados com o facto de as mulheres poderem distribuir a comunhão [na missa] e serem [acólitas] do altar, o que não é o caso nas suas paróquias. Sentiram que as mulheres estavam mais incluídas na liturgia na Igreja portuguesa do que em França, onde se verifica uma espécie de declínio da presença de mulheres no espaço do altar desde há uns vinte anos. É certo que as mulheres representam 60% dos participantes da JMJ e no “pódio” vemos sobretudo homens, principalmente durante as missas. Há um fosso que não está ainda resolvido.
7M – E os mais pobres?
Os peregrinos que aqui vêm são favorecidos, mas [a JMJ] ainda é um dos únicos eventos mundiais onde há tantos peregrinos do Sul global que podem participar. Há uma política voluntarista através do fundo de solidariedade: cada peregrino do Norte paga esse fundo, que permite a participação de peregrinos do Sul. Há também uma política voluntarista em matéria de vistos para facilitar a circulação.
Isso já existia desde João Paulo II, que lutou para que os jovens do Leste [europeu] e os jovens de África pudessem vir quando não tinham dinheiro. A JMJ permite aos jovens excluídos da globalização beneficiarem da possibilidade de atravessar fronteiras, mesmo que haja uma sobre-representação muito clara dos mais ricos. Mas se compararmos com outros acontecimentos internacionais, são mais inclusivos que os Jogos Olímpicos, por exemplo, há mais diversidade social que nos Jogos Olímpicos.
Sobre as questões LGBTQ, há muita dificuldade de uma proposta pastoral. Há coisas que evoluem, mas que se fazem nas margens.

Missa do envio no Parque Tejo: “A festa foi um sucesso e os participantes viveram e encarnaram a mensagem inclusiva de Francisco.” Foto © Duarte Nunes/JMJ 2023
7M – Em síntese, que avaliação faz da JMJ de Lisboa? Qual foi o aspecto mais positivo e o menos conseguido?
Parece-me que se pode dizer que os organizadores foram bem-sucedidos na sua aposta. A festa foi um sucesso e a cidade de Lisboa transformou-se durante alguns dias. O que faz a magia das JMJ – o encontro improvável de sensibilidades e pessoas que, à primeira vista, são opostas – concretizou-se. Neste sentido, os participantes viveram e encarnaram a mensagem inclusiva de Francisco e experimentaram aquilo a que ele chama “transbordamento”. As cerimónias conseguiram colocar as referências cristãs em diálogo com a cultura contemporânea, como por exemplo no domingo de manhã, quando o padre Guilherme, um padre DJ, misturou música secular e religiosa, as palavras do Papa e música de todo o mundo.
No lado menos positivo, talvez o grande envolvimento dos poderes públicos tenha tido alguns efeitos negativos, quer em termos de controvérsias em torno da utilização de dinheiros públicos, quer em termos de contrapartidas. Por exemplo, o facto de os peregrinos comerem em restaurantes e lojas para alimentar a economia local, em vez de criar um sistema de restauração específico e coordenado, criou filas de espera monstruosas, o que levou alguns jovens a não tomar refeições.
7M – Podemos esperar um segundo livro, sobre as JMJ dos papas Bento XVI e Francisco?
Não, a ideia seria antes complementar o estudo com publicações mais pontuais, sob a forma de conferências e artigos em revistas académicas ou mais lidas. Um artigo para uma revista brasileira está a ser avaliado e outro, especificamente dedicado à JMJ de Lisboa, está a ser preparado.
(O 7MARGENS agradece a colaboração de Carla Crespo)










