Jornalixo

| 28 Nov 19

Chamemos-lhe jornalismo “criativo”, em vez de fake news ou jornalismo de fabricação, tabloide ou mesmo de sofreguidão. Independentemente da nomeação, é coisa que não nos interessa. De todo.

Recentemente sucederam dois episódios dignos de antologia. O primeiro tem a ver com o trabalho que uma estação de televisão fez com o caso das crianças supostamente roubadas à mãe dum infantário da IURD [Igreja Universal do Reino de Deus], há uns bons anos.

Esse canal generalista cavalgou a temática até à exaustão com programas longos em hora nobre e em dias seguidos, qual telenovela. Incluiu debates com comentadores, juristas, magistrados, técnicas de serviço social e jornalistas entre pessoas de outras profissões e ocupações. Para criar maior dramaticidade apresentou, por detrás dum biombo translúcido, uma mulher a quem os filhos terão supostamente sido roubados, a fim de não poder ser identificada.

A ideia que se passou ao público foi de que teria havido um conluio entre diversos responsáveis públicos, ou pelo menos negligência grosseira, de modo a lesar aquela pobre mulher e a beneficiar a família do líder neopentecostal daquele grupo religioso de origem brasileira.

Levada à justiça, a mãe das duas crianças que foram adoptadas por elementos da IURD admitiu agora perante a juíza de instrução criminal que mentiu quando falou em “roubo” dos filhos e na sua assinatura putativamente falsificada num documento, assumindo ser “falso que alguma vez a IURD ou qualquer pessoa com ela relacionada tenha roubado os seus filhos”. Pelo contrário, declarou em documento escrito estar grata pelos bons cuidados e carinho com que a instituição e os pais adoptivos trataram os seus filhos.

A mulher juntou ao documento entregue ao tribunal um pedido de desculpas, garantindo que nunca pretendeu ofender o bom nome e prestígio da instituição, acrescentando que foi manipulada pela responsável pelo programa O Segredo dos Deuses para confirmar ao público uma história falsa e sensacionalista criada por aquela jornalista “em nome das audiências”.

O segundo episódio é mais recente e relaciona-se com o bebé encontrado no lixo em Lisboa. Se o primeiro caso terá sido fabricado de forma inescrupulosa pela comunicação social, aqui trata-se de um exemplo de “precipitação”, como lhe chama o Público.

O bebé deixado pela mãe no ecoponto em Santa Apolónia não foi resgatado apenas pelo sem-abrigo que ficou com esses louros em exclusivo, mas também por outros dois homens que vivem na rua como ele. Até Marcelo Rebelo de Sousa agiu sem dispor de informação exacta sobre o que tinha acontecido e correu a encontrar-se com o “herói”, com as televisões atrás, tendo daí surgido até a promessa de uma casa para ele. Ou seja, o Presidente deu um passo em falso, no afã de ser mais rápido do que o vento a intervir em público. Confrontado com o facto, chutou para canto como era de esperar.

O imediatismo da informação comporta riscos elevados, mas a comunicação social assume-os cada vez mais em nome duma luta corpo a corpo com as redes sociais. O jornalismo cede assim o seu valor mais precioso – a confirmação dos factos e o espaço para o contraditório – de modo a não chegar tarde ao público. Abandona igualmente a sua vocação única, de fazer a mediação entre os acontecimentos e os consumidores da informação, tornando-se uma caixa-de-ressonância semelhante aos que debitam num teclado de computador tudo quanto sabem ou julgam saber, o que ouvem ou julgam ouvir e o que vêem ou julgam ver, sem preocupações de rigor.

Felisbela Lopes diz que o “jornalismo assenta cada vez mais no imediatismo e das fontes de informação que, de uma forma apressada, fazem julgamentos lineares sobre factos complexos”. Basta ler as caixas de comentários dos jornais online para perceber que há gente capaz de dizer tudo, quase sempre escondendo-se atrás do anonimato.

Ambos os casos são preocupantes enquanto sintomas. Se no primeiro parece ter havido toda uma fabricação (falsificação) dos factos com vista a produzir um determinado efeito nos telespectadores, o que é gravíssimo, no segundo trata-se essencialmente de precipitação e uma falta de verdadeira prática jornalística, que terá levado ao engano o país e até a Presidência da República.

Numa das suas viagens missionárias, o apóstolo Paulo e o companheiro Silas deslocaram-se a Bereia e anunciaram o evangelho na sinagoga dos judeus: “Ora, estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalónica, de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim. De sorte que creram muitos deles, e também mulheres gregas da classe nobre, e não poucos homens” (Actos 17:11-12). Acontece que os tessalonicenses rejeitaram prontamente a “boa nova”, mas os bereanos confirmaram-na, ao conferi-la com a lei e os profetas (textos do Antigo Testamento). Hoje é ao contrário, acredita-se logo em tudo e não se verifica nada. Por isso estamos como estamos.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

Artigos relacionados

Enzo Bianchi, um verdadeiro cristão (Opinião)

Enzo Bianchi, um verdadeiro cristão (Opinião)

Quem conhece o Enzo Bianchi, quem já se refletiu naqueles olhos terríveis de fogo, como são os olhos de um homem “que viu Deus”, sabe do seu caráter enérgico, por vezes tempestuoso, firme, de quem não tem tempo a perder e que por isso urge falar sempre com parresía, isto é, com franqueza, com verdade. Enzo habitou-nos a isso, habituou os monges e as monjas de Bose a isso. O exercício da autoridade, a gestão do governo e o clima fraterno da Comunidade sempre tiveram a sua marca, esta marca.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

Alemanha: número de crimes contra judeus é o mais elevado desde 2001

A Alemanha registou no ano passado o número mais elevado de crimes motivados pelo antissemitismo desde que os mesmos começaram a ser contabilizados, em 2001. Os líderes da comunidade judaica daquele país prevêem que a situação continue a piorar com o surgimento de uma nova vaga de “teorias da conspiração” associadas aos judeus, na sequência da pandemia de covid-19.

Igreja Católica contesta alteração da lei de biotecnologia na Noruega

Um comité de especialistas da diocese de Oslo acusa a alteração à lei da biotecnologia, aprovada na semana passada pelo parlamento norueguês de “abolir os direitos das crianças” e “abrir caminho à eugenia”, dando a possibilidade de, mediante testes pré-natais precoces, fazer abortos nos casos em que o feto apresente patologias ou seja de um sexo diferente do desejado pelos futuros pais.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

“Conhece um judeu”: projeto inovador quer dar “voz e cara” à comunidade judaica na Alemanha

“Conhece um judeu”: projeto inovador quer dar “voz e cara” à comunidade judaica na Alemanha

Pode parecer estranho, mas é verdade: muitas pessoas na Alemanha, em particular as mais jovens, nunca conheceram judeus, a não ser pelos livros de História. Para aumentar a exposição e o contacto com esta comunidade, que atualmente corresponde a menos de 0,2% da população daquele país, o Conselho Central de Judeus lançou o projeto “Conhece um Judeu”, que vai apresentar judeus a não judeus e pô-los a conversar.

É notícia

Entre margens

Peste Malina novidade

Não, não é O Ano da Morte de Ricardo Reis, mas é o ano d’A Peste. As Ondas de pequenos monstros transformaram a terra num Vasto Mar de Sargaços. Qualquer Coisa Como um Lugar de Massacre. Nada vai voltar a ser como O Mundo em que Vivi. Sim, Os Dias Tranquilos acabaram, Os Anjos desfizeram As Estrelas Propícias (se é que, na verdade, alguma vez existiram). Agora, a vida está Em Frente da Porta, do Lado de Fora e toda a gente está confinada aos Pequenos Delírios Domésticos.

Afinal, quem são os evangélicos?

A maior parte dos que falam de minorias religiosas como os evangélicos nada sabem sobre eles, incluindo políticos e jornalistas. Em Portugal constituem a maior minoria religiosa, e a Aliança Evangélica Mundial conta com mais de 600 milhões de fiéis em todo o mundo.

Um planeta é como um bolo

O planeta Terra tem registado emissões de dióxido de carbono bastante mais reduzidas nestes primeiros meses do ano. Não porque finalmente os decisores e líderes políticos consideraram cumprir o Acordo de Paris, não por terem percebido as consequências trágicas de um consumo insustentável de recursos para onde o modelo económico e de vida humana no planeta nos leva, mas devido à tragédia da pandemia que estamos a viver.

Cultura e artes

Diálogos com Paulo Freire

Trata-se de dois livros inspirados na filosofia de Pauloreire, a quem de há largos anos chamo meu “Mestre”: o primeiro, de Christopher Damien Auretta, Diz-me TU quem EU sou: Diálogo com Paulo Freire. O segundo, do mesmo autor com João Rodrigo Simões: Autobiografia de uma Sala de Aula: Entre Ítaca e Babel com Paulo Freire (Epistolografia).

“Travessia com Primavera”, um exercício criativo diário

O desafio partiu da Casa Velha, associação de Ourém que liga ecologia e espiritualidade: um exercício artístico e criativo diário, a partir da Bíblia. Sandra Bartolomeu, irmã das Servas de Nossa Senhora de Fátima, apaixonada pela pintura, aceitou: “Algo do género, entre a oração e o desenho – rezar desenhando, desenhar rezando ou fazer do desenho fruto maduro da oração – já emergia em mim como um apelo de Deus, convite a fazer do exercício do desenho e da criação plástica meio para contemplar Deus e dar concretude à sua Palavra em mim”, diz a irmã Sandra. O 7MARGENS publica dez aguarelas resultantes desse exercício.

A poesia é a verdade justa

“A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha”, escreve Sophia de Mello Breyner na sua Arte Poética III. Foi destas palavras que me lembrei ao ver o filme Poesia do sul coreano Lee Chang-dong, de 2010

Hinos e canções ortodoxas e balcânicas para a “Theotokos”

Este duplo disco, Hymns and Songs to the Mother of God reúne, como indicado no título, hinos bizantinos (o primeiro) e canções tradicionais (o segundo), dedicados à Mãe de Deus. O projecto levou três anos a concretizar, entre a recolha, estudo e gravação, como conta a própria Nektaria Karantzi na apresentação.

Sete Partidas

Retrospectiva

Regresso algures a meados de 2019, vivíamos em Copenhaga, e recupero a sensação de missão cumprida, de alguma forma o fechar de um ciclo ao completarmos 10 anos de vida na Dinamarca e nos encontrarmos em modo de balanço das nossas vidas pessoais, profissionais e também da nossa vida interior. Recordo uma conversa com uma querida amiga, onde expressei desta forma o meu sentimento: “a nossa vida aqui é boa, confortável, organizada, segura, previsível, mas não me sinto feliz.”

Visto e Ouvido

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco