7MARGENS/Antena 1

José Carlos Cantante: “A libertação era o tema que me mobilizava na música”

| 6 Abr 2024

25 Abril capitular, 25Abril, Catarina Castel-Branco, Mendo Castro Henriques

Cartaz 50 anos do 25 de Abril, com desenho de Catarina Castel-Branco e frase de Mendo Castro Henriques, para exposição na Galeria Diferença, a partir de 23 Abril 2024, nos 50 anos do 25 Abril 1974. Imagem cedida pelos autores.

“O tema que me marcou mais desde o início foi o da libertação: tinha a ver com o problema da falta de liberdade que havia na altura até 1974 e que eu percebi que era um tema fundamental, que me mobilizava.” A afirmação é de José Carlos Cantante, arquitecto de formação, compositor por vocação, autor de algumas dezenas de músicas para a liturgia católica, que aliam a sua experiência de vida e os temas que encontra na realidade à experiência crente e à reflexão sobre a Bíblia.

Nascido em Coimbra em 1949, José Carlos Cantante viveu e trabalhou em Lisboa, Porto, Ermesinde, Costa da Caparica, Feijó, Sobreda, Albergaria-a-Velha, Águeda, de novo em Coimbra, onde reside agora. Casado, dois filhos, três netos, passou pela Capela do Rato, em Lisboa, onde foi um dos que, com o padre Alberto Neto e José António Feu, deu vida a uma liturgia renovada. Teve um irmão que morreu na guerra colonial, e esse também é um facto importante na sua biografia e nas suas músicas. Deu aulas, trabalhou como arquitecto em gabinetes camarários. Um homem de sete instrumentos, que hoje continua acompanhado pela sua guitarra e que com ela esteve no programa 7MARGENS, da Antena 1.

A ideia da libertação “tinha um símbolo: a libertação do povo judeu do Egipto, a passagem para o deserto e o caminho para a Terra Prometida”, diz o compositor. “Este símbolo, que foi a experiência real de um povo, vai passar para mim e curiosamente vai acertar em cheio no que eu estava a viver e que continuei a viver; porque fui apanhar uma experiência de subjugação social e cultural, passo depois para uma caminhada no deserto a caminho de uma terra prometida.” O 25 de Abril de 1974 dá-se “nesta sequência: a libertação que eu vejo”, acrescenta.

José Carlos Cantante: Jesus é um resguardo contra a violência. Foto © António Marujo/7MARGENS

José Carlos Cantante: Jesus é um resguardo contra a violência. Foto © António Marujo/7MARGENS

Várias das músicas compostas por Cantante dão conta dessa ideia. Avistar a Terra é uma delas: “Já se avistam perto os montes mais altos/ da terra onde mana o leite e o mel,/ façamos a festa façamos a festa,/ que avistar a terra já é alegria.” Numa outra, Monte das Oliveiras, essa ideia da libertação aparece de forma clara, aliada por um lado à ideia da partilha e da fraternidade: “Chegou a hora de elevar com ousadia/ A nossa enxada como a voz que profecia/ Que a terra inteira não será mais devastada/ Será de todos como o pão de cada dia./ E para sempre toda a gente se sacia./ E se ainda o vento queima esta seara/ Não está seca nossa fome de alegria.”

Na mesma música, aponta-se uma clara recusa da violência: “Que queime o vento queime o vento/ E venha a guarda com as armas/ Defenderemos com amor/ O pão da nossa alegria./ À nossa frente há um resguardo/ De peito aberto à arma fria,/ Temos aí nosso Senhor,/ Que é nossa força e valentia.” Este resguardo “é Jesus” e foi, no tempo em que a canção foi composta, o irmão de José Carlos que morreu na guerra do Ultramar. “Esse sentimento de morte vai ser transferido para a realidade da morte de Jesus Cristo e dá sentido à morte do meu irmão”. Nem José Carlos nem os pais conviveram bem com a ideia de herói que o regime – e mesmo pessoas da família – quis colar ao seu irmão, como fazia com os outros jovens que morriam na guerra. “O meu irmão tornou-se quase num retrato daquele outro que morreu por nós, na cruz.”

Com as guerras que continuam, a enxada deve ser “a mesma do profeta Isaías: transformar as armas em instrumentos para a agricultura”. Essa proposta vem do Antigo Testamento bíblico mas “mexeu muito” com Cantante: “Dá a noção de que o mais importante é a vivência universal de todas as nações numa harmonia assente nas necessidades que os homens têm, que é resolver cabalmente e de uma maneira feliz a sua vida.”

 

Um curso acelerado de teologia

o cantor Zeca Afonso, voz de Abril. Foto © AJA

Zeca Afonso “tinha sonoridades muito baseadas na música popular e creio que isso lhe deu uma autenticidade que superou e que me acertava em cheio”. Foto © AJA

 

Na Capela do Rato, o então jovem estudante de Arquitectura fez, com a comunidade “e a proximidade com o padre Alberto Neto um curso de teologia acelerado”. De que forma isso aconteceu? “Fiz entrar [nas músicas um] vocabulário totalmente diferente que me abriu à possibilidade de me exprimir com outro alcance. Já não pensava só em termos de libertação social. A certa altura para mim há uma libertação ainda muito maior – um conceito que aprendi com o padre Alberto, a escatologia, é esse entrosamento com a realidade, o libertar a realidade. [Mas] ao mesmo tempo há sempre mais alguma coisa para realizar, que vai ser realizada no fim, que é o nosso encontro na Terra prometida.”

A esperança, diz Cantante, é uma palavra-chave. “Se não tivermos esperança, o que podemos avançar? A esperança é uma coisa que morde, é a lenta caminhada em esmorecimento. Porque nós esmorecemos”, acrescenta, referindo-se ao poema de Avistar a Terra.

Na outra música que cantou no programa, a Festa da Vida, o compositor fala das “peias que nos dominam” e subjugam. “É por isso que sofremos,/ mas o povo passa fome,/ não podemos descuidar. (…) O dia de liberdade/ é de quem semeia pão/ de justiça e quer amar.” Composta na segunda metade da década de 1960, a canção falava de “uma sociedade sem futuro, uma sociedade sem festa, uma sociedade que ficou profundamente marcada pela saída de levas de jovens que foram combater e muitos deles morreram em África”. Nessa altura, Cantante, que tinha uns 17 anos, refugiava-se muito no seu quarto que tinha apenas uma janela, de onde observava as peias da limitação: “Mais do que a limitação era a pequenez, era a impossibilidade de realizar sonhos, a impossibilidade do futuro e uma omnipresença de uma tutoria, quase de um grande irmão que tomava conta de toda a sociedade e que dava este tom de subjugação e de uma obediência que todos tinham de ter.”

Progressivamente, José Carlos Cantante começa a aproximar-se de outros jovens, não-cristãos, mas dos quais se fez amigo. “Os amigos representavam o outro, o outro mundo para além do quarto, para além daquilo que a sociedade me apresentava na vivência quotidiana. Era viver de outro modo, uma alternativa; começámos todos a trocar conhecimentos sobre o que estava a acontecer na Europa, no mundo, na cultura.” Nesse processo, as influências vinham de Elvis Presley, dos Shadows, Paul Anka, Rickie Nelson – ou ainda de tias pouco mais velhas, que começaram a falar de Zeca Afonso.

“A inspiração única foi o Zeca”, admite José Carlos Cantante. “Vim a descobrir com o padre Alberto: ele tinha sonoridades muito baseadas na música popular e creio que isso lhe deu uma autenticidade que superou e que me acertava em cheio; apesar de gostar [de José Mário Branco ou Sérgio Godinho], claramente centrei-me nas propostas musicais do Zeca, que a todos os níveis eram autênticas, eram de uma criatividade profunda. E quando ele fez intervir a musicalidade africana foi o máximo.”

 

Duas tribos

José Carlos Cantante: “O povo russo é o povo que eu sou, é um povo universal como nós somos.” Foto © António Marujo/7MARGENS

José Carlos Cantante: “O povo russo é o povo que eu sou, é um povo universal como nós somos.” Foto © António Marujo/7MARGENS

O trajecto de José Carlos Cantante levou-o a assumir essas duas tribos: de um lado, os amigos marxistas e surrealistas, a tribo que o “deixou atónito, nunca sendo marxista, mas dialogando, aprofundando” com eles os gostos musicais e o que estava a acontecer pelo mundo. Do outro, a tribo que descobriu na Capela do Rato, com o padre Alberto Neto, que o desafiou a compor músicas para a liturgia. “Eu venho encontrar um espaço em que consigo estabelecer pontes entre os dois universos e vou buscar fraseologia de um lado para o outro; consigo fecundar esses dois espaços de vivência e de composição.”

No final do programa, José Carlos Cantante destaca o texto “O pequeno Deus da partida”, crónica do economista Luís Castanheira Pinto no 7MARGENS. “Põe à luz do dia uma experiência de vida familiar de uma amenidade, de um amor profundo” e a partida “para além da vida familiar, para realizar formação nos países do Terceiro Mundo, algo que é muito importante”.

Como sugestão cultural, o compositor deixa três livros de autores russos: Guerra e Paz, de Leon Tolstoi, Doutor Jivago, de Boris Pasternak, Crime e Castigo, de Fiodor Dostoievski. Cantante decidiu ler estas obras nos últimos tempos, porque há algo que o “deixa perplexo nos tempos actuais: a questão do ódio e do outro que não se conforma aos nossos parâmetros”. Por isso, confessa: “Dei por mim a colocar o povo russo todo nesse parâmetro, o povo russo é o outro, é o adversário. Fiz muito bem puxar por essas leituras, porque esses livros reposicionaram o povo russo na minha proximidade. O povo russo é o povo que eu sou, é um povo universal como nós somos.”

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

O aumento da intimidação católica

O aumento da intimidação católica novidade

A intimidação nos meios católicos está a espalhar-se por todos os Estados Unidos da América. No exemplo mais recente, a organização Word on Fire, do bispo de Minnesota, Robert Barron, ameaçou a revista Commonweal e o teólogo Massimo Faggioli por causa de um ensaio de Faggioli, “Será que o Trumpismo vai poupar o Catolicismo?”

“Desmasculinizar a Igreja?”

Pré-publicação

“Desmasculinizar a Igreja?” novidade

“Desmasculinizar a Igreja?” – Análise crítica dos “princípios” de Hans Urs von Balthasar” é o título do livro que será publicado pela Paulinas Editora e que será apresentado na Feira do Livro de Lisboa, no próximo domingo, dia 2 de junho, às 18 horas.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This