Era um homem que “acreditava em Jesus, piamente”, dizendo que “o que é preciso é fazer o que Jesus fez” e “amar a todos e a todos querer bem”. Irene Catanho, que foi secretária do padre José Martins Júnior em vários cargos religiosos e políticos que ele desempenhou, recorda-o como “o maior humanista” que conheceu. Em declarações ao programa Vidas Com História, que passou neste domingo na TSF, em colaboração com o 7MARGENS, a actual presidente do Centro Cívico, Cultural e Social da Ribeira Seca (Machico, na Madeira), acrescenta que o padre Martins era uma pessoa permanentemente “preocupada com os outros”.
O funeral de José Martins Júnior, que morreu no passado dia 12 na Ribeira Seca (Madeira), realizou-se neste domingo na mesma paróquia. Por vontade que o próprio deixara expressa, a missa de corpo presente foi presidida pelo padre José Luís Rodrigues. “Foi o homem mais livre que eu encontrei na minha vida. Era uma pessoa exímia na fidelidade a valores e a princípios”, dizia o pároco de São José, no Funchal, num depoimento ao mesmo programa.
Mesmo no funeral, o padre Martins, que morreu com 86 anos, “gostaria de ser recordado com alegria, em festa, e que ninguém chorasse por ele”, recorda Irene Catanho. “Era um homem com muita luz, muita alegria. Para ele, os outros vinham sempre em primeiro lugar.”
Nascido em Machico no seio de uma família modesta, em 16 de Novembro de 1939, o padre Martins morreu tal como viveu: de pé, sempre ao lado do povo da Ribeira Seca, na Madeira, a quem quis servir. Apenas insatisfeito por nunca ter havido um julgamento canónico sobre o seu suposto crime de padre envolvido na política, condenado e suspenso por um bispo que, ele sim, promoveu, apoiou e foi o sustentáculo religioso de Alberto João Jardim na liderança política da Madeira.
O trajecto do futuro padre José Martins Júnior começou quando, aos 12 anos, foi para o seminário do Funchal. Seria ordenado padre em 15 de Agosto de 1962. Começou a sua actividade como prefeito e professor no seminário menor do Funchal. Em Fevereiro de 1967, foi para Moçambique como capelão militar durante a Guerra Colonial, missão que contribuiu para formar a sua oposição à guerra e ao regime ditatorial de Salazar.
A crítica a um regime de quase escravatura

Padre Martins Júnior com a população da Ribeira Seca (Machico, Madeira) na segunda metade da década de 1970. Foto de arquivo
Em 22 de Junho de 1969, fez neste domingo precisamente 56 anos, assumiu o cargo da recém-criada paróquia da Ribeira Seca, no concelho de Machico. Aí se destacou como dinamizador da comunidade, no campo católico e cultural, através da música, do folclore ou do teatro. Ao mesmo tempo, contestou o regime de colonia, que permitia aos grandes proprietários rurais manter os trabalhadores em regime de quase escravatura, e apoiou a criação de uma União das Bordadeiras, cujo trabalho era também muito explorado.
Ajudar a resolver os problemas das populações e lutar pelos direitos dos mais fracos foi, afinal, o seu crime. Mas seria já com a democracia e depois de 25 de Abril de 1974 que o padre Martins veria a sua actividade censurada pelo bispo da época, Francisco Santana que, em Novembro de 1974, o tentou expulsar da sua paróquia, recorrendo para isso à ajuda policial, como o próprio recordou em entrevista ao programa 7MARGENS, da Antena 1, há pouco mais de um ano.
Durante duas semanas, a população resistiu com protestos e vigílias e não permitiu que o seu pároco dali saísse. O bispo acabaria a suspendê-lo a divinis, ou seja, proibiu-o de celebrar missas e administrar sacramentos – uma decisão confirmada pelo bispo Teodoro de Faria em 1985.
Essa atitude do bispo Santana, que duraria por 44 anos, “foi uma monstruosidade e um erro irreparável da Igreja da Madeira”, considera Edgar Silva, que foi padre e é o actual líder do PCP-Madeira. O padre Martins propunha “um catolicismo actuante numa Igreja povo, uma Igreja que nasce do povo”, afirma, no depoimento concedido ao programa. “A excomunhão do padre Martins e o assalto à igreja [da Ribeira Seca] por 18 dias, foi uma vergonha sem sentido. Infelizmente, o futuro da Igreja da Madeira é servida por funcionários, talvez, já sem fé”, acrescenta Edgar Silva, que publicou no 7MARGENS uma evocação de Martins Júnior, após a sua morte.
Mas o padre Martins Júnior nunca levou a sério a suspensão, continuando a exercer o seu múnus com o apoio dos paroquianos. Em Fevereiro de 1985, num outro episódio de confronto, 40 polícias ocuparam a igreja da Ribeira Seca durante 18 dias, por ordem do bispo Teodoro de Faria e Alberto João Jardim. O padre e a população resistiram, celebrando missa ao ar livre.
Um doutoramento que fica por terminar

Festa dos 81 anos do padre José Martins Júnior. Ribeira Seca (Machico, Madeira), 16 de Novembro 2019. Foto © Elmino Mendonça
Foi um homem “perseguido” por uma hierarquia “fascista e pelo poder derrotado de Alberto João Jardim”, diz a historiadora Raquel Varela, que publicou em Novembro do ano passado o livro O Canto do Melro, uma biografia ficcionada de José Martins Júnior. “O padre Martins é uma figura maior do que a Madeira e o país. Foi o meu grande amigo que segui de perto por dez anos. Foi um homem radical que não se limitou a usar o poder que tinha na Igreja, mas tinha como objectivo construir uma democracia de base.” A historiadora acrescenta: “Ele pôs ao serviço das pessoas a emancipação e a liberdade. Ele era um homem de reflexão, de pensamento e de silêncios.”
Bernardo Martins, mais novo 20 anos que Martins Júnior, acrescenta: “Era meu irmão de sangue e de luta.” A mãe nunca conseguiu travas os ímpetos da acção do mais velho. “Tivemos sempre muito medo de que fosse vítima de atentado, sobretudo no tempo da Flama”, a Frente de Libertação do Arquipélago da Madeira, “movimento perigoso” activo na segunda metade da década de 1970.
O tempo viria a dar razão ao padre Martins: em Junho de 2019, o actual bispo do Funchal, Nuno Brás, revogou a pena de suspensão, nomeou o padre Martins como administrador paroquial da Ribeira Seca e reconheceu como válidos os sacramentos que ele celebrara ao longo de 44 anos. Martins Júnior manteve-se no cargo até Fevereiro de 2023. Em troca, o bispo quis apenas a reafirmação de que o padre Martins não se envolveria de novo em actividades político-partidárias. De facto, paralelamente ao seu trabalho de padre, Martins Júnior foi presidente da Câmara do Machico pela UDP (União Democrática e Popular) e depois pelo PS, além de ter sido deputado regional, até 2007, por sete mandatos: quatro pela UDP, três pelo PS. O Presidente da República Mário Soares atribuiu-lhe em 1995 o grau de Comendador da Ordem de Mérito.
“Era um homem da paz, apesar de parecer muitas vezes revoltado”, sintetiza Irene Catanho, que recorda também o modo como, poucas horas antes de morrer, ainda brincava e fazia humor com a sua própria morte – a brincadeira e o humor eram outra das suas marcas pessoais.
“Para ele, a liberdade era a luz interior que o iluminava de forma quase ‘fanática’, acrescenta o colega padre José Luís Rodrigues. Martins Júnior “distinguiu-se de todos os líderes religiosos e de todos os políticos que a Madeira teve até hoje”. E resume: “Ele fez a denúncia profética e, a partir daí, a Igreja nunca mais o tratou com dignidade nem mesmo com respeito, por parte do actual bispo. A relação dos bispos da Madeira com ele foi péssima e anti-evangélica.”
Talvez por isso o padre Martins tinha decidido, nestes últimos anos, fazer um doutoramento sobre a Igreja e os bispos na Madeira no pós-25 de Abril. Seria a sua forma de ajustar contas com a história. Fica por cumprir o objectivo, numa vida que se cumpriu completa.
O programa Vidas Com História pode ser escutado na página da TSF na internet ou na plataforma Spotify.










