José Mattoso: a pessoa que morava naquele professor

| 9 Jul 2023

José Mattoso. Foto © PR/Agência Ecclesia

Manuel Pinto recorda o professor e amigo José Mattoso. Foto © PR/Agência Ecclesia

 

Estávamos, então, na reta final da segunda metade dos anos 70, já no refluxo do período revolucionário. Sentíamos que era preciso pensar e projetar o processo de transformações que em velocidade estonteante acabávamos de viver. Achávamos que esse movimento não podia prescindir das experiências, descobertas, desilusões e inquietações que cada um de nós tinha vivido.

Éramos gente de ação. Vários de nós integrávamos uma lista que concorria à associação de estudantes da Faculdade, para questionar um ensino universitário por vezes bastante medíocre. Vários alertavam que era preciso prestar atenção ao campo cultural, nas suas várias facetas. Nuno Teixeira Neves, um jornalista já veterano, mas vivido e culto, partilhava densas provocações, na sua coluna dominical “Ser Cidadão”, do Jornal de Notícias, alertando para a cidadania cultural e para a atenção que se deveria prestar ao diálogo entre cultura de elites e cultura popular, entre o social e o quotidiano e pessoal. Corria a perceção de que alguns falhanços do período mais quente e empolgante da revolução de Abril havia sido nesse terreno que se verificaram.

Alguns sonhávamos projetos que tirassem consequências desse clima e dessa consciência emergente. Que fizessem pontes entre gente diferente, mas que era, no vocabulário então em uso, “porreira”. Universitários que éramos, sentíamos que a Universidade precisava de um abanão. Que a coisa não ia lá com slogans e discursos que pouco diziam à vida das pessoas. Em suma, que era preciso repensar a sociedade e a vida. Lembro-me de ter daí nascido um projeto de trabalho científico que pretendia levar mais longe o que (não) aprendíamos na Universidade – por exemplo, em torno dos estudos da contemporaneidade. E lembro-me de termos começado a sonhar a ideia de uma revista de debate de ideias e de práticas, que viria a chamar-se Viragem.

Neste clima, um belo dia deu-se um acontecimento singular. Um estimado professor do Curso de História que vários de nós frequentávamos apresentou-se a provas de doutoramento (sim, na altura, eram duas as provas, em dias subsequentes). Mais pelo professor do que pelo ato – ainda que esse tipo de atos fosse então facto raro – lá fomos ver o espetáculo.

Um consagrado catedrático de história medieval, por sinal bastante mediático, começou a arguição com uma retórica que nos cheirou a mofo. Pretendia ele que aquele ato académico fosse uma espécie de combate de guerreiros medievais e que os arguentes e o arguido eram como que cavaleiros que esgrimiam argumentos, não com espadas, mas com ideias… E a arenga lá seguiu sempre nessa toada.

José Mattoso, Metanoia

José Mattoso, em 2016, no Encontro de Reflexão teológica do Metanoia. Foto © António José Paulino

 

Fazia parte do júri, como examinador externo, o professor José Mattoso. Pelo menos entre os estudantes era ainda pouco conhecido, mas alguém tinha ouvido dizer que era diferente do pai, que tinha dominado o ensino escolar da história, em boa parte do período salazarista. Foi, assim, com curiosidade que nos dispusemos a escutá-lo. Não demos o tempo por perdido.

O professor Mattoso começou por se posicionar e, sem ser deselegante para o colega que o antecedera, esclareceu que não se via ali como cavaleiro, muito menos medieval, apesar de todo o interesse que esse período da História pudesse ter para ele, e, sobretudo, não vinha espadeirar ou combater, mas dialogar. Que tinha lido a tese do candidato, com a qual muito aprendera; que havia pontos duvidosos ou discutíveis, sobre os quais gostaria de conversar com o doutorando e que entendia estas provas como um tempo de debate académico.

O contraste quer do registo discursivo quer da atitude e até do tom de voz foi tão flagrante e tão eloquente que logo na assistência se geraram comentários entusiásticos pela descoberta desse tal professor Mattoso.

Eu fui um desses e, conversando com uns amigos que estavam ao meu lado, entendemos que seria interessante poder conversar com ele. Ganhámos coragem e, quando o júri, no final, se retirava do auditório para deliberar, abordámos o professor e dissemos que éramos estudantes de História daquela Faculdade, que a intervenção dele nos tinha suscitado a vontade de reunir com ele e se ele podia arranjar um tempinho. Ele olhou para nós com ar algo surpreendido, mas aceitou. Que fôssemos ao hotel onde ele estava alojado na manhã do dia seguinte.

Entre o nervosismo e o entusiasmo, lá fomos dois ou três, depois de conversarmos sobre o que gostaríamos de saber dele. A conversa, para nós, tinha subjacente o tal projeto de revista de debate de ideias, em que a relação entre a nossa condição de estudantes (de História) e o futuro era uma questão premente, assim como a relação entre a vida profissional, que em breve iríamos iniciar, e a vida pessoal e familiar, que também se começava a pôr.

Creio que foi sobre estes aspetos que decorreu a conversa. E, nomeadamente sobre o segundo tópico, lembro-me que ele, em vez de responder como deveríamos fazer, optou por dar o testemunho de como é que procurava conciliar a vida de professor e de investigador com a vida familiar e pessoal.

Se bem recordo, disse que precisava vitalmente de um tempo para meditar e rezar. Que isso era mesmo uma necessidade e que o ajudava a viver. Convocou a experiência que havia tido como monge beneditino, e a disciplina da gestão dos tempos, ao longo do dia, que lá praticara. Falou da importância de dar tempo à família e aos filhos (“quando se está a brincar é preciso estar mesmo, entregar-se, perder-se nessa entrega” – se não foi com estas palavras, foi a ideia com que fiquei do diálogo).

Porém, recordo que aquilo que mais me (nos) surpreendeu nesse encontro foi a simplicidade e abertura desse professor que, de forma espontânea, correspondeu à ousadia de uns estudantes desconhecidos. Primeiro, como o hotel não era espaçoso, convidou-nos para o seu quarto. Aí fomos encontrá-lo descalço. Como não havia cadeiras nem mesa suficientes, convidou-nos a sentar numa roda no chão. Escutou-nos sobre as nossas inquietações. E refletiu connosco, falou dele, não deu lições de moral. Foi como que um irmão mais velho.

Mais tarde, as circunstâncias da vida, incluindo académicas, fez com que nos cruzássemos, ainda que muito menos vezes do que teria gostado, e tornámo-nos amigos. Nunca mais esqueci aquele encontro e a pessoa que morava naquele professor.

 

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