José Mattoso, um demandador de sentido

| 10 Jul 2023

“Ele (José Mattoso) alertava-nos para a importância de aliar o rigor com as energias da intuição, a capacidade de fazer perguntas às fontes, de ler os seus silêncios, de as entender nos seus contextos.” Foto: Direitos Reservados

 

Confesso que escrevo este texto com temor e tremor, face à recente partida do Prof. José Mattoso. Talvez porque tantos outros o fizeram já com mais propriedade e saber ou por me sentir, tal como no Evangelho, como um dos trabalhadores da hora última, entre os que tiveram o privilégio de o conhecer e de o ter como orientador.

Tal como testemunhado por Rui Tavares no Público, também eu me contava entre os alunos da licenciatura em História da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova que tiveram o privilégio, pelas mãos do Prof. Luís Krus, de ouvir o Professor Mattoso falar-nos sobre o que significava afinal fazer História. Desde a atenta e crítica leitura das fontes históricas à construção de uma narrativa sobre o passado, ele alertava-nos para a importância de aliar o rigor com as energias da intuição, a capacidade de fazer perguntas às fontes, de ler os seus silêncios, de as entender nos seus contextos. Na disciplina de História das Religiões na Idade Média, numa sala efectivamente pequena para acolher todos os que o queriam ouvir, foi com um efectivo deslumbre que pude seguir o seu percurso pela história do monaquismo medieval, da liturgia ou das persistências dos elementos populares, “pagãos”, nas vivências religiosas medievais.

O meu caminho com o Prof. Mattoso seguiu muito a par com a minha relação com quem creio ter sido um dos seus mais brilhantes discípulos, o Prof. Luís Krus. Foi por esta via que ele integrou o meu júri de Mestrado e acabou por aceitar coorientar a minha investigação sobre os eremitas da Serra de Ossa. Senti a sua proximidade sobretudo após o falecimento inesperado de Luís Krus (2005), podendo inclusive passar algumas semanas num retiro quase monástico, em sua casa, para concluir parte da redação da tese.

Se evoco todo este caminho, faço-o sobretudo com gratidão. Por nele se cruzarem dois grandes mestres e intelectuais – José Mattoso e Luís Krus –, cuja obra se revelou e revela um marco incontornável, tanto para o nosso entendimento do passado medieval português e da construção do país que somos, como para a afirmação de um novo paradigma de fazer e entender a História, liberta das funcionalidades legitimadoras do presente e aberta a novos campos e saberes e à sua compreensão em contextos e dinâmicas mais vastos. Ler a sua obra, reflecti-la e questioná-la é obrigação incontornável de todos os que desejem aproximar-se deste passado medieval. Não porque ela seja eterna – esse atributo não nos pertence – mas porque ela é seguramente fecunda e interpelante. O Prof. José Mattoso, aliás, sempre recusou volumes de homenagem, preferindo que a sua obra fosse discutida, as suas hipóteses verificadas, completadas ou mesmo postas em causa. Daí os “Seminários José Mattoso” iniciados pelo Instituto de Estudos Medievais por iniciativa de Luís Krus. Daí também os muitos prefácios que com manifesto contentamento escreveu para tantos livros dos seus discípulos e amigos, pondo em relevo sobretudo o que traziam de novidade, de acréscimo de conhecimento, de perspectivas outras de questionar e compreender o passado.

 

“O modo como homens e mulheres viveram, amaram, sofreram, trabalharam, mas também mataram ou traíram, exerceram o poder e se pensaram e pensaram as suas instituições, nessa amálgama de luz e sombra sempre amassada na fragilidade e vivida no concreto de tempos e lugares, era o caminho para a procura de uma percepção mais profunda de sentido.” Foto: Direitos Reservados

Mas, para o Prof. Mattoso, esta faceta era inseparável de uma demanda mais profunda, de compreensão da história e da natureza humanas. O modo como homens e mulheres viveram, amaram, sofreram, trabalharam, mas também mataram ou traíram, exerceram o poder e se pensaram e pensaram as suas instituições, nessa amálgama de luz e sombra sempre amassada na fragilidade e vivida no concreto de tempos e lugares, era o caminho para a procura de uma percepção mais profunda de sentido, dessa espantosa realidade das coisas, desse dizer do eterno na história humana. Lembro-me do fascínio com que o fui descobrindo nas páginas da sua Escrita da História e que retomou no seu último ensaio sobre a História contemplativa. Foi efectivamente no aprofundar da sua atração e opção primeira pela vida monástica que José Mattoso chegou à História, procurando entender as raízes desse mesmo monaquismo. E essa busca de compreensão de sentido estendeu-se também à sua inscrição bem concreta no presente, numa liberdade que, descoberta nessa relação íntima com o mistério feito carne e compaixão em Jesus, apelava à transformação do mundo, à luta pela paz, ao desafio de, tanto pela palavra como pelo silêncio, elevar o mundo para o recriar à imagem do Céu.

Longe de endeusamentos ou de absolutizações, aliás sempre denunciados por José Mattoso como formas de poder e de desumanização, queremos sobretudo evocar este querido mestre – e com ele, também Luís Krus – no que ele(s) pode(m) inspirar nessa infatigável, bela, rigorosa, criativa, busca de compreensão do passado. Sabendo que a própria busca obriga a refazer, reconstruir, questionar. Mas a consciência deste caminho é também a condição da humildade e da profunda tolerância que testemunharam, do sentido de cidadania e de comunhão com os outros, de abertura deslumbrada à espantosa diversidade do mundo.

Partiu no sábado um querido mestre e um homem que, até ao fim, não desistiu de procurar. Um demandador de sentido, daqueles que a Escritura elogia porque as suas raízes penetraram a terra, como a árvore à beira das águas, sabendo que só daí se pode procurar alcançar o céu.

 

João Luís Inglês Fontes é professor auxiliar em história medieval na Universidade Nova e membro do Instituto de Estudos Medievais.

 

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