José Tolentino Mendonça: “Ser cristão é um risco, ser humano é um grande risco”

| 5 Out 19 | Destaques, Newsletter, Últimas

Com o consistório deste sábado, Francisco indica claramente várias direcções que pretende para a reforma do catolicismo: o acolhimento dos migrantes e refugiados, o diálogo com o islão e a diversidade cultural, a abertura da Igreja à ideia da diversidade. Tolentino Mendonça está pronto para ser cardeal.

José Tolentino Mendonça, esta sexta-feira, 4 de Outubro, no Vaticano. Fotografias © António Marujo

 

Um colégio de cardeais cada vez menos europeu e italiano, cada vez mais do Sul do mundo e onde cresce o número de membros preocupados com questões que saem das fronteiras da Igreja. Cardeais que se empenham em questões como o diálogo com o islão, os migrantes e refugiados, os pobres e as pessoas marginalizadas ou a dimensão de escuta e de diálogo cultural com artistas e pensadores – incluindo aqui o português José Tolentino Mendonça, que hoje será formalmente investido pelo Papa, com outros 12 bispos, na função de cardeal, que corresponde à de conselheiro do líder da Igreja Católica.

“A cultura é um palco particular para essa dimensão do encontro, da hospitalidade do outro, da escuta”, disse ontem à tarde o arcebispo José Tolentino Mendonça, 53 anos, a um grupo de jornalistas portugueses. “Uma coisa que a cultura me ensinou é que a coisa mais importante que podemos fazer é escutar e é na escuta profunda uns dos outros que nos podemos verdadeiramente encontrar”, declarou, a propósito da sua capacidade de fazer pontes com outros sectores.

Garantindo que continua a escrever poesia – João Paulo II era Papa e escreveu poemas, lembrou –, o autor de A Noite Abre Meus Olhos disse que a poesia “é também uma chave importante para escutar Deus”. E acrescentou: “O maior dom que a poesia me deu é a necessidade profunda da escuta.”

Questionado sobre se ser cardeal o incomoda, Tolentino Mendonça respondeu: “Ser cristão é um risco, ser humano é um grande risco.” E referindo outro grande poeta, acrescentou: “Guimarães Rosa, esse autor amado da nossa língua, dizia ‘viver é perigoso’. E nós sabemos que é assim. As coisas grandes da vida são assim e todos nós vivemos, nos nossos caminhos diferentes, coisas muito perigosas: um grande amor, um filho, um encontro, um trabalho que nos apaixona.”

 

A diversidade é “genética” no cristianismo

Sobre o momento actual da Igreja, com as críticas de diferentes sectores ao caminho de reforma trilhado pelo Papa Francisco, Tolentino Mendonça considera que a diversidade dentro da Igreja é uma marca “genética”: “Não é um problema, a diversidade é uma riqueza. Se olharmos para a história do cristianismo, ela é feita de santos tão diferentes, de congregações religiosas, de carismas…”, disse. As diferentes sensibilidades nunca foram de deitar fora, acrescentou. Pelo contrário, são um “enriquecimento muito importante” e a Igreja é uma experiência que se encontra “não na fusão, mas numa diferença convergente”, sendo o papel do Papa o de “agregador”.

Referindo-se ainda às palavras do Papa no regresso da sua recente viagem a África (incluindo Moçambique), quando disse não ter medo de um cisma, o bibliotecário da Santa Sé afirmou: “O que o Papa disse na viagem foi ‘não tenho medo’. A mensagem não é ‘vem aí um cisma’. A mensagem é ‘eu não tenho medo’”. Socorrendo-se da sua investigação na área dos estudos bíblicos, acrescentou que a diversidade está presente “desde os primeiros textos das origens cristãs, é alguma coisa muito permanente”, exemplificando com o facto de haver quatro relatos diferentes acerca da vida de Jesus, referindo-se aos quatro evangelhos canónicos.

 

O Papa Francisco tem uma voz que chega longe, disse Tolentino Mendonça. Ele “tem uma autoridade muito para lá das fronteiras do mundo católico, muito na linha de uma curiosidade com os outros, de encontrar-se com o coração desarmado e de escutar até ao fim a pessoa”.

Por isso, colocado perante a possibilidade de um dia ser ele próprio a vestir de branco, o novo cardeal disse que entrar num conclave “é tão perigoso como sair dele”. “O importante é convergir, para o espírito de comunhão da Igreja, interpretar os sinais dos tempos e [deixar] que o Espírito Santo fale. Mas não falemos de conclave. Vida longa ao Papa Francisco”, disse, para insistir: “Vida longa ao Papa Francisco e a todos os papas que virão.”

Nascido no Machico (Madeira), José Tolentino Mendonça foi para o seminário aos 11 anos. Depois de ordenado padre doutorou-se em estudos bíblicos, área em que já publicou vários ensaios – nomeadamente A Construção de Jesus e Leitura Infinita. Ao mesmo tempo, é reconhecido como uma das vozes mais originais da poesia portuguesa contemporânea e vários dos seus livros de poemas foram premiados.

Em 2018, foi convidado a orientar os exercícios espirituais da Quaresma para o Papa e a Cúria Romana, o que deu origem ao livro Elogio da Sede, outra obra marcante da sua produção. Agora, pouco mais de um ano depois da sua nomeação como arcebispo e bibliotecário da Santa Sé, o Papa anunciou que o nomearia cardeal, o que o surpreendeu, aceitando “uma missão para a qual antes não [foi] escutado”. Por isso, sente-se com “uma humildade muito grande e um desprendimento no sentido de dizer ‘sou chamado, estou aqui com o que sou’, venho arregaçar as mangas e servir”. “A pergunta que repito no meu coração é neste momento mesmo dirigida a Deus: ‘O que é que queres de mim, o que é que queres que eu faça?”, acrescentou.

 

As direcções de uma reforma

Quando, a partir das 16h de hoje em Roma (menos uma hora em Lisboa), o Papa entregar aos 13 novos cardeais as insígnias representativas da sua função (barrete, anel e bula), estará a dar vários sinais. Desde logo, as escolhas do Papa destes nomes reflectem a preocupação de Francisco em ter conselheiros oriundos de todo o mundo: o Colégio Cardinalício passará a contar com 225 cardeais (incluindo os 124 que podem votar num futuro conclave de eleição de um papa, caso ele se realizasse daqui a poucos dias), oriundos de 90 países representados. Nunca a universalidade do catolicismo (uma redundância, já que dizer “católico” significa “universal”) foi tão verdadeira neste organismo de consulta do Papa.

Com esta nomeação (uma palavra que, com Francisco, não é casual, como se verá abaixo), passará a haver 66 cardeais escolhidos por Bergoglio, além de 42 nomeados por Bento XVI e 16 por João Paulo II. O que não quer dizer tudo, mas significa muito, para um próximo conclave.

Noutro âmbito, o Papa quer significar que considera muito importantes o diálogo cultural, como no caso de Tolentino Mendonça, e áreas como o diálogo inter-religioso e o apoio a migrantes e refugiados ou a pessoas pobres e marginalizadas. No caso do diálogo inter-religioso, isso traduz-se com as escolhas dos actual e antigo presidentes do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso, Miguel Ángel Guixot, missionário comboniano, e Michael Louis Fitzgerald, que foi núncio no Egipto; e ainda do salesiano espanhol Cristóbal Romero, arcebispo de Rabat (Marrocos), reconhecido pelo seu papel de aproximação ao islão numa sociedade esmagadoramente muçulmana, e que também tem feito grandes esforços para o acolhimento de migrantes e refugiados da África subsariana.

No apoio aos refugiados, também se destaca o até ontem padre checo Michael Czerny, jesuíta checo e responsável da secção dos Migrantes e Refugiados no Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral. A cruz de Czerny, que ontem á tarde foi ordenado bispo, é de madeira oriunda de um barco usado por migrantes para atravessar o Mediterrâneo, rumo a Lampedusa, recordou a Ecclesia.

A par do apoio a refugiados, o guatemalteco Alvaro Leonel Imeri dedica muita da sua acção aos mais pobres e excluídos. Também os arcebispos do Luxemburgo, Jean-Claude Höllerich, que esteve muitos anos no Japão, e de Bolonha, Matteo Zuppi (mediador do primeiro acordo de paz de Moçambique) se incluem no lote dos que actuam nessas áreas consideradas prioritárias pelo Papa.

Das periferias geográficas vêm o cubano Juan García Rodríguez (Havana), o congolês Fridolin Ambongo Besungu (Kinshasa), e o indonésio Ignatius Hardjoatmodjo (Jacarta), líder católico no maior país muçulmano do mundo.

Com o consistório de hoje, Francisco indica claramente várias direcções que pretende para a reforma do catolicismo.

 

A linguagem que traduz a reforma de Francisco

Não é por acaso que Francisco fala da nomeação de cardeais, numa Igreja em que, durante séculos, o Papa os “criava”. Trata-se de uma nomeação, disse ele ao anunciar os diferentes nomes para os diferentes consistórios. Uma piada eclesiástica dizia que nesse momento o líder da Igreja se assemelhava ao Deus criador – quando se limitava a fazer uma nomeação e a entregar os três símbolos da função: anel, barrete e bula.

Tão pouco é casual que o Papa não fale da “elevação” de alguém a cardeal, outra palavra muito usada por estes dias, ou que insista na ideia de que o serviço e não o poder é a ideia essencial do cargo, aliás repetindo já ideias fortes de Bento XVI nos últimos tempos do seu pontificado.

A pompa com que os cardeais eram (e ainda são) tratados, as regras protocolares que subsistem em muitas cerimónias do Vaticano, com uma rígida hierarquia e insistindo mais na formalidade, nos ritos, em regras estritas de vestuário e nos títulos mostram que a reforma de Francisco, que muitos crentes desejam acelerar, ainda levará muito tempo. Até porque outros insistem na importância desses factores, considerando-os fundamentais e fazendo deles alguns dos principais argumentos da sua oposição a Francisco.

(Texto publicado simultaneamente na edição do Público de sábado, 5 de Outubro de 2019)

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