José Vaz Napolesin: “Padre de Cernache”, em aventuras e bondade da Índia até ao Minho

| 31 Mai 20

José Vaz Napolesin. Foto: DIreitos reservados.

Foi pároco de Goios, no concelho de Barcelos, um dos 320 padres de Cernache do Bonjardim, alvo de homenagem à missionação portuguesa. Conterrâneo de Eugénio de Andrade, distribuiu bondade na Índia, em Lisboa e em Barcelos.  Crónica de encontros casuais que mudaram vidas.

 

Contra o habitual tratamento de “senhor abade”, andava na boca de todos os habitantes de Goios, o de “senhor prior”, o nome dado ao novo pároco que vinha de fora da arquidiocese de Braga. José Dias Vaz Napolesin nasceu em 1885, na freguesia de Póvoa d’Atalaia, no concelho do Fundão. Dali, com a serra da Gardunha no horizonte, era também natural o poeta Eugénio de Andrade.

Tal como aconteceu a muitas crianças do seu tempo, o seminário era a única saída, alternativa a uma agricultura de subsistência que, por longos anos, dominou a sociedade portuguesa. Aos doze anos, a uma distância considerável da terra natal do pequeno José, erguia-se, em outubro de 1897, o Seminário Nacional das Missões, que provia o Padroado português dos missionários a que a monarquia se tinha comprometido com a Santa Sé.

Foi ali, naquele seminário amplo, em Cernache do Bonjardim, no centro do país, que José Napolesin se preparou para o campo missionário que o esperava. Candidato ao sacerdócio, foi ordenado na catedral de Portalegre, no dia 25 de julho de 1908, por D. José Sebastião Pereira, bispo de Damão (Índia).

Não dispondo de outra documentação, sirvo-me da nomeação do padre José Napolesin para o serviço missionário em Damão, em 1908, tal como surge no monumento levantado à missionação portuguesa em Cernache do Bonjardim, a 20 de outubro de 2019.

A ordenação em Portalegre do padre José Napolesin pelo bispo de Damão, implicou, naturalmente, a incardinação na diocese do antigo território português no Oriente, sendo, assim, prova do destino que cumpriu, ainda que por poucos anos, na Índia portuguesa.

 

Os dias difíceis da religião

Com a implantação da República, em 1910, e a separação da Igreja do Estado, no ano seguinte, operou-se o desmantelamento das missões católicas, dispersas pelo mundo português.

Transformado em liceu, o seminário de Cernache do Bonjardim, que o padre Napolesin frequentou, tornou-se, no final da década de 1910, sede das Missões Laicas, organizadas por Afonso Costa, então ministro da Justiça e do Culto, instituição que, por alguns anos, tentou substituir, sem êxito, o terreno e as tarefas dos “padres de Cernache”.

Com incipiente formação profissional, e apesar de servidas por membros não celibatários, não cumpriram os desejos do bispo missionário António Barroso, também saído, algumas décadas antes, do seminário de Cernache.

Este missionário, visionário de uma nova evangelização nos territórios ultramarinos de Portugal, preconizava a formação de um instituto de padres seculares. Este só viria a concretizar-se em 1930, com a criação, pelo Papa Pio XI da então designada Sociedade Portuguesa das Missões Católicas Ultramarinas, hoje Sociedade Missionária da Boa Nova.

 

Missões em diversas frentes

Láoide do monumento à missionação portuguesa, em Cernache do Bonjardim, com o nome do padre José Vaz Napolesin assinalado. Foto © José Campinho.

 

Por registo do patriarcado de Lisboa, assinado em 1931, por José Napolesin, sabe-se que este padre está incardinado na diocese de Lisboa desde outubro de 1919. Nos cargos eclesiásticos exercidos, há referência a um período de dois anos, como coadjutor na paróquia de S. Mamede, em Lisboa. Desde outubro de 1927, o padre Napolesin será pároco de Alhandra e de S. João do Monte. A partir de agosto de 1930, paroquiou, por oito anos, Vila Franca de Xira.

No questionário consultado está explícito que, como títulos científicos ou literários, tinha apenas o curso do seminário de Cernache de Bonjardim. À posse de títulos honoríficos, respondeu o então pároco de Vila Franca de Xira à secretaria do Patriarcado que também nenhum título ou louvor lhe tinha sido atribuído.

Era, aliás, turbulenta a vida eclesiástica num país em constantes mudanças políticas e com respirações de uma república anticlerical. A direção postal e telegráfica do padre Napolesin é, ao tempo, Vila Franca de Xira, onde se faziam sentir, de modo especial, as tradições taurinas, num território banhado pelas águas de um Tejo alagadiço.

A partir de outubro de 1939, Napolesin será pároco de Campolide, em Lisboa, cargo que cumprirá até junho de 1944. Celebrava em Belém e também no sanatório do Lumiar. Era ainda capelão no quartel Caçadores 5, onde acudiam, sobretudo, militares minhotos. Dizia-se que Salazar tinha por estes soldados particular apreço, por os considerar especialmente fiéis ao regime.

 

A mão do cardeal Cerejeira

De acordo com declarações de José Esteves da Costa, de 79 anos, antigo seminarista de Goios, é para esta paróquia, no concelho de Barcelos, que o padre Vaz Napolesin vai ser enviado pelo cardeal Cerejeira, patriarca de Lisboa, de quem este antigo missionário era muito próximo.

Foi no decorrer de um encontro festivo de bodas de ouro do padre José Garcia de Oliveira, pároco de Viatodos, com o patriarca de Lisboa, de quem, aliás, era condiscípulo, que se referiu a vacância, há já algum tempo, da paróquia de Goios, pelo falecimento do anterior pároco, padre Joaquim Gomes Lobarinhas, que ali esteve por mais de cinquenta anos.

Goios ficou, então, anexada, por dois anos, à paróquia das Carvalhas, assistida pelo padre José de Araújo Ferreira. É em 12 de junho de 1944 que o padre Napolesin obtém licença para se retirar do Patriarcado de Lisboa para a arquidiocese de Braga, a fim de paroquiar a freguesia de Goios. A pequena comunidade agrícola ficava, finalmente, descansada com a presença de um “novo” pároco, com 59 anos de idade.

Recorda José Esteves, a residir desde os 14 anos, na Moita, em Setúbal, que “o senhor prior” era dotado de grande serenidade, “muito próximo das pessoas”, granjeando, por isso, “grande cumplicidade com todos os paroquianos”. Segundo este antigo seminarista, o novo pároco “tirava o chapéu para falar com os outros”. Era saudado com veneração.

Trajando sempre de negro, de olhos grandes e vivos, dedicava particular atenção à catequese, sendo “fluente e simples” nas homilias. Era até um pregador de nomeada. Tinha sempre muita gente de fora nas duas missas de domingo. Não perdoava saias sem o rigor da moral tradicional…

A Ação Católica mereceu-lhe grande preocupação. Reunia à noite, com os homens, na residência paroquial e, com as mulheres, na igreja, na sacristia do meio. Muito atento às necessidades dos paroquianos, percorria os campos, com “clamores”, em demanda da chuva.

 

As horas do fim

Lápide no cemitério de Goios, Barcelos, assinalando a gratidão da paróquia pela passagem do padre Napolesin. Foto © José Campinho.

 

Prova da bondade do padre Napolesin foi o cuidado que, por mais de três anos, dedicou a uma criança da freguesia vizinha de Chorente, cuja irrequietude impôs a sua transferência para a escola primária de Goios, onde a disciplina era mais rigorosa. Foi um verdadeiro tutor do David, cujo futuro não ficou, assim, comprometido.

O menino “rebelde” haveria de frequentar a escola industrial, em Barcelos, o seminário em Braga e em Lisboa. Com emprego na Misericórdia da capital, haveria de abrir, mais tarde, um consultório de psicologia clínica, depois de ter passado, como quadro superior, da Direção Geral das Alfandegas.

Foram levados de dedicação pastoral os dias do “senhor prior”, na paróquia de Goios. Nunca, entretanto, revelou que tinha e mantinha naturais simpatias monárquicas. Muitos dos militares que assistiu em Lisboa faziam-lhe visitas frequentes. Era o pároco da aldeia reservada em tradições, onde se cantava ao Menino e à Senhora do Ó e eram feitas as reisadas, entre esforçadas lutas agrícolas e a confeção de tapetes de penas de galinha e licores de tangerina.

A saúde do antigo missionário em Damão começou a perigar. Várias vezes caiu, no altar, durante a celebração da missa. Por fim, dificilmente percorria o espaço que lhe pedia o Compasso, na Páscoa. Fazia só o percurso da manhã. De tarde, contava com a generosidade dos padres capuchinhos de Barcelos.

 

Um substituto à altura?

Em 25 de janeiro de 1958, chegou a notícia da morte deste bondoso pastor. Aos 73 anos, muito desgastado por um passado pouco sereno, o “senhor prior” de Goios despedia-se de uma vida comprometida com a felicidade dos outros, em qualquer parte do mundo.

Poucos dias antes que o coração o traísse, recebeu a visita do pai e do autor destas linhas que o deixou em aparente tranquilidade. Quando se queixava do fim da vida que sentia aproximar-se, o antigo missionário de Cernache recebeu de mim, então criança de 9 anos, uma certeza: “Não se aflija, senhor prior, eu fico cá para o substituir…”

Quis Deus que, sem que o soubesse até há alguns anos, tivesse frequentado eu também, o mesmo seminário de Cernache do Bonjardim, sendo, desde agosto de 1974, membro da Sociedade Missionária da Boa Nova.

 

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