José Veiga Torres – um rio de águas profundas

| 29 Jan 20

José Veiga Torres (JVT), professor catedrático jubilado da Universidade de Coimbra, editou, em Abril de 2013, o livro Ser cristão? Porquê? Para quê? Que discurso, que projecto? (ed. Lápis de Memórias), obra com mais de quatrocentas páginas, em formato de bolso. Trata-se de um exaustivo “tratado de teologia e história” que esmiúça pormenorizadamente somente isto: todos os documentos do Novo Testamento, vários testemunhos pós-apostólicos e toda a História da Igreja desde o século I até ao século XXI (Bento XVI). Merece a expressão: “É obra!” É, de facto, uma obra única, ímpar em língua portuguesa de Portugal, vademécum para catecúmenos e cristãos curiosos.

Ser cristão? abre com “Pressupostos” (cap. I), uma extensa dissertação filosófica – deliciosa, diga-se − acerca do que é uma “narrativa”, do que é “dar testemunho” e relatar, em que consiste “crer” e “crer num testemunho”, qual o papel do “descrer” para “melhor crer” e, assim, proporcionar a “reconstrução de um crer mais seguro, mais plausível, mais adequado às inevitáveis e permanentes questões novas de saberes diferentes”.

Segue-se-lhe uma apresentação crítica da figura de Jesus de Nazaré (Yeshua) a partir da sua personalidade e da sua mensagem de “Reino de Deus”. Demoremo-nos, entretanto, apenas e para já, neste último ponto: Yeshua de Nazaré e o anúncio do Reinado de Deus (Marcos 1, 14-15: “Depois de João [Baptista] ter sido preso, Jesus foi para a Galileia, e proclamava o Evangelho de Deus, dizendo: “Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo: arrependei-vos e acreditai no Evangelho.”)

É para este capítulo, referido como capítulo I, sobretudo para as suas últimas páginas intituladas “Entre Yeshua e Paulo de Tarso”, que peço a vossa atenção. Elas são uma espécie de salto no escuro. São décadas que decorrem entre a morte de Jesus e os primeiros relatos referentes à actividade pública dos apóstolos, a irrupção das primeiras comunidades paulinas e o surgimento dos primeiros escritos evangélicos; ou seja, é um tempo de testemunhos indirectos da mensagem de Jesus que despertam, hoje em dia, a curiosidade de exegetas e teólogos. Diante da vastidão desta obra de JVT, decidi colher uma pequena amostra e explorar apenas um assunto: este que se segue. A obra de JVT – também ela – me suscitou esta dupla provocação. Primeira questão: será mesmo verdade que a ‘ecclesia’ aceitou genericamente o testemunho da proposta de fraternidade de Yeshua tal e qual, na bacia do Mediterrâneo, como os livros de catecumenado costumam dizer? Segunda questão: como explicar a “derrapagem” da proposta de Reinado de Deus (de Yeshua) para ícone militar e senatorial imperial? Vejamos.

José M. Castillo chama a nossa atenção para o facto de que “a primeira carta do apóstolo Paulo aos Tessalonicenses datar do ano 41 (François Vouga, Cronología paulina, em Daniel Marguerat [Ed.], Introducción al Nuevo Testamento, Bilbao, Desclée De Brouwer, 2008, 135) e nela já se mencionar duas vezes a palavra “igreja” (1 Tessalonicenses 1, 1; 2, 14), expressão que depois se repete com frequência nas restantes cartas de Paulo até à última Carta que foi a que enviou aos Romanos, pelos anos 51/52.”

“Como bem se sabe, nestes escritos fala-se da ‘Igreja’ mas também se fala da teologia que nela se desenvolve e se explica, fala-se da sua incipiente forma de governo interno, das normas que devem cumprir os primeiros cristãos, das suas crenças mais importantes e fundamentais, das suas assembleias ou reuniões litúrgicas, etc., mas o mais surpreendente é que naquela Igreja, que se foi configurando durante mais de vinte anos, nunca se mencionou o Evangelho de Jesus. É claro que o evangelho de Jesus nunca poderia ter sido mencionado por Paulo, já que a redacção dos Evangelhos, aquela que chegou até nós, é posterior ao ano 70. (…) O mais importante – e grave – que ocorreu durante aqueles primeiros anos da Igreja consistiu em que a maioria das primeiras comunidades cristãs, que marcaram o futuro da teologia e da vida da Igreja, e que tiveram a sua origem e centro em Jesus, nunca tiveram o devido conhecimento de que esse Jesus tinha existido e do quanto ele representava para elas.” (…)


“Ninguém sabe o tempo que Paulo passou na Arábia [após a revelação divina; Gálatas 1, 11-24]. O que sabemos é que, quando regressou de lá, ficou mais três anos em Damasco. Depois de passar esses três anos em Damasco, então, foi a Jerusalém, não para recolher informações sobre Jesus, mas “com a única finalidade de conhecer” Pedro (Céfas) (historêsai – como refere com rigor Horst Balz – Gerhard Schneider no Diccionario exegético del Nuevo Testamento, vol. I, Sígueme, p. 2061, a expressão é “historêo”), com quem permaneceu quinze dias (Gálatas 1, 18). Ou seja, em princípio, parece que Paulo, depois da experiência vivida que teve do Ressuscitado a caminho de Damasco, não lhe interessou a vida, a história, os conflitos de Jesus com as autoridades religiosas de Israel e, por conseguinte, não lhe interessaram os ensinamentos de Jesus aquando da Sua passagem por este mundo.” (…) “O rito religioso antepõe-se ao seguimento de Jesus.”

“Como acabo de deixar claro, Paulo prescindiu do Evangelho e dos motivos que, segundo o evangelho, as autoridades religiosas e políticas tiveram para o condenar e executar daquela maneira, e elaborou uma explicação religiosa baseada nas antigas práticas do “sacrifício” e da “expiação” com vistas a aplacar a ira de um Deus ofendido pelos nossos pecados. A convicção de Paulo é que Cristo “morreu pelos ímpios” (Romanos 5, 6), “morreu por nós, pecadores” (Romanos 5, 8), pelo que, e como consequência, aquela morte constituiu um “sacrifício” de expiação que nos redimiu dos nossos pecados (Romanos 3, 24-25). (…)

“Sendo assim, não há que estranhar o conteúdo monumentalmente contraditório com que se apresentam tantos sermões da Paixão de Cristo, nos quais já não se fala de “memória perigosa” (J. B. Metz) de Jesus, mas do “sacrifício do nosso Divino Redentor”; e tudo isto por uma razão muito simples: confunde-se o sacrifício existencial de Jesus com o sacrifício ritual do Redentor. O resultado final desta confusão é que o sacrifício ritual acaba por ocupar o centro da teologia da salvação, o centro da liturgia e o centro da vida da Igreja ao mesmo tempo que se varre para o caixote do lixo “o seguimento de Jesus”, o qual exige, como consequência, que cada um carregue a sua cruz todos os dias da sua vida (Marcos 8, 34; Mateus 16, 24; Lucas 22, 23). Ou seja, antepõe-se o ritualismo solene e sagrado dos sacerdotes e dos templos à honra, à dignidade, à honestidade, à bondade, à misericórdia e à compaixão do Evangelho. Assim se antepõe a observância da religião (que nos tranquiliza a consciência) ao seguimento de Jesus (que nos exige generosidade).

“Quando se desconhece o Evangelho, somos (sem darmos conta) capazes de acreditar muito mais no Deus de Abraão, no Deus em que Paulo desde jovem sempre acreditou (Gálatas 3, 16-21; Romanos 4, 2-20), o que quer dizer, somos capazes de acreditar no Deus que exigia a Abraão “sacrificar o seu filho” (Génesis 22, 2)” (in José M. Castillo, El Evangelio Marginado, DDB 2019, pp.19ss).

Conclusão: É por isto que José Veiga Torres levou anos atrás de anos a escrutinar criticamente o percurso do cristianismo desde os começos mais remotos para verificar, no fim, que a História do Cristianismo não tinha significativamente nada mais para oferecer a não ser algumas pérolas perdidas nos começos destes dois milénios: umas quantas pepitas de oiro que nunca foram incorporadas na Bíblia (vá-se lá saber porquê), como é o caso da maravilhosa carta A Diogneto, da Didakê, de alguns testemunhos patrísticos acerca do estilo de vida civil dos cristãos e dos martírios de crentes no Império romano, e pouco mais. Pérolas vindas de gente sem estudos e sem capacidade para debater elaborações dogmáticas complexas, mas capazes de amar até ao extremo como Jesus amou. “Podereis achar entre nós ignorantes, trabalhadores manuais, velhas mulheres. Por palavras seriam bem incapazes de fazer uma exposição dos seus princípios. Não sabem recitar frases de cor, mas demonstram boas acções … dão a quem pede e amam o seu próximo” (palavras de Atenágoras de Atenas em defesa dos cristãos, in Lucien Deiss, op. cit. Printemps de théologie – apologistes grecs du 2e. siecle, Paris, ed. Fleurus, 1965, pp. 71-72).

Citando JVT: “Os cristãos e quantos desejem sê-lo terão de interrogar se o genuíno projecto de Yeshua poderá conformar-se com qualquer forma de ordem humana, e com qualquer forma de curiosidade intelectual, e se o seu genuíno projecto não provém de um princípio específico de poder e de distribuição de poder, que deva ser uma exigência indispensável das suas formas de ordenar e de pensar. Tal princípio percebe-se na genuinidade das práticas testemunhadas, e, por contraste, nos efeitos da sua perversão.” (p. 308)

Pelo modo como paulinamente começou, o cristianismo perverteu o testemunho de Yeshua inviabilizando uma difusão mais aproximada do seu modelo revolucionário…

Não será antes, assim, apoiados nós em obras de autores como JVT, que melhor seremos capazes de contextualizar e explicar a situação tristemente errática e tumultuosa que a Igreja Católica vive desde há séculos, quer em matéria de ministérios, quer de cristologia, Bíblia e liturgia, quer de relação com todos os homens de boa vontade que anseiam por um sentido mais cheio para as suas vidas?

Ser cristão?. Creio que esta é obra única em Portugal pelo quanto desnuda e arrasta para fora da sacristia de uma estratégia desgastada que fenece, mas que ainda julga que tem algo de significativo para testemunhar (cfr. a decrepitude da encenação de Joseph Ratzinger ‒ Papa emérito Bento XVI ‒ com o cardeal guineense Robert Sarah a propósito da regra do celibato obrigatório para os padres da Igreja Católica…)

Este é apenas um apontamento à volta de uma constatação revelada por uma obra colossal. Parafraseando a poetisa brasileira Adélia Prado: José Veiga Torres ‒ um rio de águas profundas.

 
Paulo Bateira é médico e católico da Igreja que está no Porto

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