Pré-publicação

Joshua Ruah, um judeu de Lisboa

| 2 Mar 2022

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No livro de memórias, o antigo dirigente da Comunidade Israelita de Lisboa fala da sua infância, do modo como entende o judaísmo, da sua participação na Guerra Colonial e de várias histórias já do tempo do regime democrático.

Um Judeu de Lisboa (ed. Caminho) é o título do livro de Joshua Ruah que nesta quinta-feira, 3 de Março, será apresentado numa sessão que decorre (a partir das 18h) na Sala do Arquivo do edifício da Câmara Municipal de Lisboa, na Praça do Município. No livro de memórias, o antigo dirigente da Comunidade Israelita de Lisboa fala da sua infância, do modo como entende o judaísmo, da sua participação na Guerra Colonial e de várias histórias já do tempo do regime democrático: a sua proximidade com Mário Soares, Jorge Sampaio e Álvaro Cunhal, a polémica sobre o ouro nazi, a sua pertença à maçonaria, o exercício da medicina e a família – o casamento, os filhos, os netos e os bisnetos.

Personalidade destacada da comunidade judaica da capital e da vida pública portuguesa, Joshua Ruah dá, neste livro, um testemunho sobre episódios da história contemporânea do judaísmo português e do próprio país. Pela sua importância, o 7MARGENS publica aqui excertos de dois dos capítulos do livro: “Presidente da Comunidade Israelita de Lisboa. Belmonte” (cap. 11) e “E Agora?” (cap. 19).

 

 

Presidente da Comunidade Israelita de Lisboa

A Segunda Guerra Mundial marcou‐me de forma profunda. Era um miúdo quando o conflito acabou, em 1945, mas as histórias perduram na memória de todos quantos sentiram os seus ecos.

Na nossa comunidade ainda existe uma sobrevivente de Theresienstadt, na antiga Checoslováquia, um híbrido de campo de concentração e gueto, usado pelos nazis para apresentarem às autoridades internacionais e dissimularem a «solução final», a dona Zina Liebermann. Encontra‐se também uma outra refugiada, a dona Ruth Arons, nascida em 1922, que cá chegou em 1936. A família vivia na Alemanha pelo menos desde 1730. Era neta de um banqueiro e de um antigo secretário-geral da AEG, marca alemã de material eléctrico. O pai, advogado, fora militar voluntário no exército alemão durante a Primeira Guerra Mundial. Eram, portanto, alemães. Mas também eram judeus. Chegaram a Lisboa sem conhecer ninguém nem falar português. Traziam com eles apenas um cartão com o endereço de uma senhora que a avó conhecera em viagem e que os ajudou a instalarem‐se. Quando na década de 1960 voltou a Berlim, encontrou a casa em ruínas. É mãe do antigo secretário de Estado da Comunicação Social Alberto Arons de Carvalho. (…)

Por tudo isto, quando me casei disse à minha mulher, «Quero ter seis filhos, um por cada milhão de judeus exterminados.» A minha mulher, numa espécie de telepatia que experimentámos em alguns momentos da nossa relação, respondeu‐me que tinha pensado o mesmo. (…)

Enquanto presidente da CIL, o primeiro desafio foi arranjar dinheiro para pagar as dívidas. A comunidade devia 500 contos à funerária, mais mil contos aos fornecedores de carne casher Viúva Reis e ainda um valor de que já não me recordo relativo às contas da água e da luz. Mil contos na altura era o suficiente para comprar três apartamentos de quatro assoalhadas em Lisboa. O tesoureiro era o senhor Moisés Etner, um comerciante de material para oficinas, dono de uma loja na Rua de São Paulo (mais tarde nas Amoreiras), que eu muito apreciava, mas que era stressadíssimo. «Onde é que vamos arranjar todo este dinheiro?», perguntou‐me mais do que uma vez. Tranquilizei‐o: «Sei que és um homem pouco religioso. Tal como eu. Nenhum de nós vai muito à missa. Mas somos directores de uma associação religiosa. No mínimo, temos de acreditar em milagres.» Ele riu‐se, mas nem por isso ficou menos angustiado. Então, fiz uma coisa que me custou um pouco, mas teve de ser. Peguei no telefone, liguei a todas as pessoas mais abonadas da comunidade e expus a situação. A cada um pedi um cheque; diferentes quantias consoante as diferentes contas bancárias. E toda a gente colaborou. E lá disse ao Moisés, «Não acreditavas em milagres, mas há por aí muito santo espalhado.» (…)

 

Joshua Ruah com João Paulo II, em 1982, em Lisboa, durante a visita do Papa a Portugal. foto direitos reservados

Joshua Ruah com João Paulo II, em 1982, em Lisboa, durante a visita do Papa a Portugal. Foto: Direitos reservados.

Belmonte, uma comunidade na clandestinidade

Talvez o caso mais mediático em que estive envolvido durante a minha presidência da CIL tenha sido o da recuperação da comunidade judaica de Belmonte. E, mesmo assim, de forma muito lateral. (…)

A história dos judeus de Belmonte foi escrita pelo historiador e engenheiro de minas polaco Samuel Schwartz. Logo no início da Primeira Guerra Mundial refugiou‐se em Portugal, onde começou a trabalhar nas minas de estanho e volfrâmio em Vilar Formoso e Belmonte. Foi assim que começou a reparar que havia na região quem tivesse uma vida bastante diferente dos demais. Não trabalhavam ao sábado. Ao domingo iam vender para as feiras, mesmo que para disfarçar também fossem à missa católica. Mantinham um grande secretismo entre si. Schwartz também era judeu. Já em Espanha tinha publicado alguns artigos sobre marranos. E foi assim que conseguiu entrar naquele meio fechado. Em 1925 publicaria um livro intitulado Os Cristãos‐Novos em Portugal no Século XX. Daria conta da descoberta ao mundo numa série de artigos para jornais e revistas ingleses, espanhóis, italianos, franceses e polacos. Já em 1923 comprara um edifício no centro histórico de Tomar onde em tempos funcionara a mais antiga sinagoga do país, datada pelo menos do século XV. Criou aí o Museu Luso‐Hebraico de Tomar, mais tarde doado ao Estado Português.

Fomos pela rua abaixo até encontrarmos o talho do Senhor Elias. Ele e a mulher estavam a aviar uns clientes e por isso ele disse‐me para me sentar e esperar. Estranhei aquilo. Quando os clientes saíram, pediu à mulher para fechar as portas e mudou de atitude. Disse que sabia muito bem quem eu era, quem era a minha família e quem eram uma série de pessoas da comunidade. Mas que era preciso ter cuidado. «Há 400 anos que somos perseguidos.» Argumentei que ele tinha estado na sinagoga de Lisboa sem qualquer problema. Ao que ele me explicou que na cidade era diferente, que ali, em Belmonte, era conforme os padres, que se o padre não gostasse deles ia logo ter com o agente local da PIDE dizer que eram comunistas e que já havia quem tivesse sido preso dessa maneira. Achei tudo aquilo um pouco inusitado, mas percebi que aquelas pessoas viviam de facto com medo. Depois, lembrei‐me da história do capitão Barros Basto e pensei que talvez não fosse um receio assim tão infundado. (…)

Já em 1988, chegou uma embaixadora [de Israel], Colette Avital, uma mulher cultérrima, inteligentíssima, que pertencia ao Partido Trabalhista e era muito amiga do Shimon Peres. Tornámo‐nos amigos. Pensei que finalmente tinha ali a interlocutora certa para falar de Belmonte. E não me enganei. Não só se interessou pela ideia de ainda haver um grupo clandestino como quis ir visitar a aldeia e estabeleceu depois contacto com a Fundação Pinkus que apoiava comunidades em dificuldades. E assim, em conjunto com os judeus de Belmonte, começámos a desenvolver a ideia do regresso daquela comunidade à vida pública.

A embaixadora Avital tratou de arranjar um rabino israelita de origem marroquina para vir para Belmonte. O bairro judeu em Belmonte chamava‐se, afinal, Bairro de Marrocos. E eu comecei a circuncisar aqueles que quiseram aderir à comunidade. Ao todo, perto de 300 homens, de recém‐nascidos a idosos de 90 anos. Saía de Lisboa ao Sábado à tarde com todo o material preparado e a minha enfermeira instrumentista, Manuela Cruz, uma profissional de excelência de quem tenho muitas saudades, e em cada domingo operava entre 20 e 25 pessoas. A Câmara Municipal cedia‐nos uma sala do centro de saúde. Em indivíduos mais velhos aplicava uma anestesia local – a circuncisão só não é dolorosa nos bebés até às duas ou três semanas de vida. Por volta da hora do almoço já tínhamos, como eu costumava dizer, 25 lápis afiados.

Joshua Ruah com João Paulo II, em 1982, em Lisboa, durante a visita do Papa a Portugal. foto direitos reservados

Joshua Ruah com Yasser Arafat, em 1993, no Palácio de Queluz, durante a visita do líder da Organização de Libertação da Palestina a Portugal. Foto: Direitos reservados.

E agora?

Há quem acredite que Deus nos mostra o caminho. Outros preferem falar no Universo, e nas coisas que o cosmos nos diz. Como em tantas outras áreas da vida, acredito que o que importa realmente é saber ouvir.

Em toda a minha existência tive noção de que a morte é uma coisa que temos de pensar e de aprender. E o aprender é muito simples: faz o melhor que puderes e o mais rapidamente possível porque podes não ter tempo para acabar. Como me convenci de que tinha um prazo de validade ali por volta dos 60 anos, fui‐me habituando a esta ideia e tentando adaptar a minha vida ao pouco tempo que me restava.

Tinha 52 anos quando nasceu a minha neta mais velha, a Raquelinha, filha da Susana e do René. Seguiu‐se o meu neto mais velho, Abraham, filho da Raquel e do João. Poucos anos depois, a Raquelinha ganhou um irmão, o Rafael. Foi então que deixei de trabalhar à sexta‐feira à tarde para dedicar esse tempo aos netos. Passeios, cinema, exposições. O que mais prazer me dava era quando começavam a conversar uns com os outros. Percebi que os miúdos daquela idade tinham os seus problemas: pessoais, existenciais, políticos, de relação com o patronato lá de casa. Então assumi o papel do avô bom comparsa. Tudo o que fazíamos em conjunto não era para comentar. Depois ficavam para jantar, altura em que toda a família se reunia, um ritual de décadas interrompido pela primeira vez no ano passado com a peste pandémica. (…)

Sinto que vivemos um momento, se não de viragem, de reflexão. A globalização da miséria, os ricos cada vez mais ricos, o fim da classe média, os algoritmos estúpidos e inclementes, o fim do trabalho, as alterações climáticas, a corrupção e incompetência políticas: podíamos ficar por aqui. Felizmente, não é esta a história em que acredito. Basta olhar para trás. Considerar as convulsões e revoluções. E ter um bocadinho de fé. Resolver‐se‐á tudo, possivelmente – e infelizmente – com algum atraso. O mais importante, acredito, é e será a literacia. O aprender a pensar, a raciocinar e também a sentir melhor. Novos paradigmas de relação social, de economia, de finanças e de distribuição de riqueza. Até à disseminação da Internet e, em particular, dos smartphones, a aprendizagem cingia‐se em grande parte à memorização. Lembro‐me, com repulsa, de quando tínhamos de vomitar o nome dos rios, das serras ou das estações das linhas de comboio. Hoje, com a memória na algibeira, acredito que o processo de aprendizagem nos levará a destinos mais igualitários e livres, pelo caminho da criatividade. Este novo mundo pode ser aterrorizador para os mais velhos, mas espero que os mais novos acreditem no seu poder demiúrgico, no sentido da inovação, da fraternidade e da felicidade.

Nunca como agora senti tão próxima a iminência de morte. Costumo dizer que sou saudável com várias doenças mortais. Talvez por isso, agarro‐me à vida. Aos planos, às conversas, às ideias. Olho para a Mery e penso que, apesar de incidentes tristes, percorremos um caminho, construímos uma vida e pusemos neste mundo gente melhor do que nós. Uma garantia de continuidade, mas também um selo de esperança. Porque nunca deixei de sonhar com a construção de uma humanidade utopicamente perfeita. Mesmo nestas circunstâncias terríveis que me impedem de estar com a família. Que põem máscaras cirúrgicas entre nós que aqui vivemos e tornam mais profundo o oceano que nos separa dos que vivem do lado de lá na América.

Agora que já estou vacinado, das coisas que me dão mais gozo é voltar a estar com o meu bisneto, Gabriel [que vive nos EUA], um miúdo sensacional, giro, esperto, com um sentido de humor raro para a idade. Rio‐me só de me lembrar dele de dedo em riste em busca do Baby Shark no tablet e a cantar as músicas de cada filmezito que vê na Internet. No outro dia apareceu‐me um anúncio no computador e comprei-lhe uns brinquedos. Sempre que cá vem, recebe um: ora são umas marimbas, ora um pífaro, ora uma gaita de beiços. Divertimo‐nos muito os dois, às vezes como se tivéssemos a mesma idade. Costumo dizer que filho é sempre filho. Mas neto é dois pontos acima de filho, porque é filho de filho. E bisneto é três pontos acima de neto, porque é aquilo que não esperamos. E se a isto se juntar uma bisneta, que acaba de nascer, sou um homem feliz.

 

Um Judeu de Lisboa – Autobiografia, de Joshua Ruah
Ed. Caminho, 248 pág., 23,90 €

 

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