Jovens portugueses nas JMJ, com o Papa, para transformar o mundo e humanizar a economia

| 20 Jan 19

Vasco Gonçalves, Patrícia D’Ouro e Bernardo Lobo Xavier, fotografados sexta-feira, 18 de Janeiro, em Lisboa; foto Maria Wilton

Levar para a política a ideia de “transformar o mundo”; “abrir horizontes, olhar para as pessoas sem liberdade ou que sofrem com problemas ambientais e “dar sentido à mudança de hábitos”; um estímulo a ligar-se ao Papa e a humanizar “esta economia do descarte”.

Desejos piedosos de jovens ainda com sonhos? Estas são, por enquanto, as ideias que Vasco, Patrícia e Bernardo querem trazer das Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ), que decorrem no Panamá entre quinta-feira e domingo, 24 a 27 de Janeiro, com a presença do Papa. Eles são três dos 300 jovens portugueses que, na sua maioria, partiram ontem para o país da América Central, onde Francisco chega na quarta.

Vasco Gonçalves, 29 anos, é de Setúbal e trabalha numa associação empresarial, no âmbito da gestão de projectos, ao mesmo tempo que frequenta uma pós-graduação em Relações Internacionais, em Lisboa. Esteve nas JMJ de Madrid (2011, com Bento XVI), Rio de Janeiro (2013) e Cracóvia (2015), ambas já com o Papa Francisco. “Gosto de viajar, conhecer novas culturas, novos países”, diz ao 7MARGENS, para explicar a sua participação na quarta iniciativa do género. “Quando vi imagens de Sidney [em 2008], fiquei fascinado. Como era possível não ter sabido antes?…”

Com outros amigos, Vasco organizou-se para estar em Madrid. “Era aqui tão perto…” Foi como responsável por um grupo e teve uma experiência que o “marcou”. Também por perceber a dimensão de uma fé comungada por outros: “Nós, crentes, achamos que somos uma minoria, mas ali percebemos que há milhões como nós, a partilhar a mesma fé. Não há encontro de jovens tão grande, em tão curto espaço de tempo.”

Na paróquia de São Sebastião, em Setúbal, onde reside, Vasco participa no coro e no grupo de jovens. Mas sente que a participação dos mais novos nas actividades da Igreja Católica não é muito intensa. “Houve um afastamento dos jovens em relação à fé, a atitude da Igreja tem de ser repensada.” Crê que o actual bispo de Setúbal, D. José Ornelas, está a querer dinamizar uma nova linguagem, mas ainda “falta que os jovens participem mais e façam coisas fora da caixa”.

Vasco Gonçalves: “O Papa tem apelado à participação na política e, se conseguirmos quebrar muitos preconceitos, a política será realmente um modo de transformar o mundo”; foto Maria Wilton

Das JMJ do Panamá, Vasco espera trazer algo mais que o facto de ter participado. “Trabalho numa área – política, gestão de fundos comunitários, relações internacionais – não muito bem vista. Tento trazer para essa área o que tenho aprendido nas Jornadas. Há cada vez mais ódio, populismos, vozes anti-imigrantes, contra o outro que é diferente. O Papa tem apelado à participação na política e, se conseguirmos quebrar muitos preconceitos, a política será realmente um modo de transformar o mundo”, diz.

Pessoas sem liberdade, uma economia de descarte

Também é porque iniciativas como as JMJ ajudarem a “abrir horizontes” que Patrícia D’Ouro, 28 anos, partiu este domingo de manhã, no mesmo grupo de Vasco, para o Panamá. Patrícia mora na paróquia de São José do Algueirão, Sintra, onde é catequista de crianças, participa no grupo de jovens e na liturgia paroquial. Esteve nas JMJ de Madrid e Cracóvia e agora, antes de chegar aos 30 anos (idade máxima de participação), quis participar nesta, por ser fora da Europa. Até por poder “aproveitar plenamente”, ao contrário das anteriores, por ter ido “à descoberta” e como responsável de um grupo.

Patrícia D’Ouro: AS JMJ ajudam a “abrir horizontes”; foto Maria Wilton

“Muitas vezes estamos muito fechados nas nossas maneiras de ver o mundo, de estar em Igreja e seguir Jesus”, diz ao 7MARGENS. “Estar nas JMJ pode significar coisas diferentes: penso sempre na cor, na alegria, associada às jornadas, mas também na relação com Deus e a Igreja… E também me coloco perante os problemas do mundo, que não estão assim tão longe.”

Patrícia cita alguns: “Há pessoas sem liberdade, há quem sofra com os problemas ambientais…” Perante situações como essas, diz que as JMJ podem ter um papel concreto na sua vida: “Dar sentido à mudança de hábitos, por exemplo na redução do uso de plásticos, em fazer menos lixo, em reflectir na forma como consumimos ou na facilidade com que compramos coisas…”

Também enquanto parte da geração dos católicos mais jovens, Patrícia diz que veio das anteriores JMJ a sentir sempre “a necessidade de ser factor de mudança”. Os mais novos, acrescenta, “não são muito ouvidos na Igreja, mas também não fazem para que tal aconteça”.

Bernardo Lobo Xavier, 19 anos, será talvez um dos mais novos do grupo de 21 que ontem partiu, juntando pessoas de Lisboa e mais algumas de outras dioceses. Reside na paróquia de São Francisco Xavier, integra as Equipas de Jovens de Nossa Senhora e o Movimento Apostólico de Schoenstatt, dois grupos católicos de espiritualidade; e frequenta o segundo ano do curso de Economia da Universidade Nova de Lisboa.

Bernardo Lobo Xavier: “O que o Papa diz é um desafio para humanizar esta economia de descarte”; foto Maria Wilton

Será a primeira vez que Bernardo estará numas JMJ, estimulado pela ideia de se sentir mais ligado ao Papa. “Quero tentar relevância à figura dele e ao que ele propõe”, diz, “tentando torna-lo mais presente na minha vida”. O que atrai o jovem lisboeta na figura do Papa é a sua “ternura de coração e a simplicidade com que ele tenta fazer a sua mensagem”.

Mesmo que essa mensagem diga que “esta economia mata” e que contrarie o que eventualmente se ouve nos cursos universitários de economia? Bernardo acredita que isso não acontecerá com muitos professores, mas admite: “O que o Papa diz é um desafio para transformar a economia, para humanizar esta economia de descarte e não ter apenas uma procura cega de lucro.”

Mesmo antes de chegar ao Panamá e escutar o que o Papa te para lhe dizer, Bernardo parece ter já assumido alguma da linguagem de Francisco…

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