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Jubileu: abertura a Deus libertador

Neste fim-de-semana decorreu no Vaticano o jubileu das bandas e espectáculos populares. Foto © António Marujo/7MARGENS
Em clima de Ano Santo, o 27.º jubileu ordinário da história da Igreja proclamado para 2025 tem vindo a ser celebrado por grupos sociais, institucionais, religiosos ou diocesanos, com o apoio e a participação dos Papas Francisco e Leão XIV ou do respectivo bispo. Importa recuperar algumas linhas da sua espiritualidade, para a assumir e viver neste «ano da graça do Senhor», renovando o compromisso com os valores da esperança, da paz, da reconciliação e da solidariedade.
A longa prática de celebrar um ano jubilar cada 25 anos só aconteceu na passagem do jubileu de 1450 para o jubileu de 1475. Em 1450 a Europa estava no Renascimento. Com a expansão marítima dos portugueses e dos espanhóis, o mundo alargou-se e ganhou outra dimensão, que não tinha na Idade Média, quando se pensava que o mundo acabava na ponta ocidental da Europa, no cabo Finis terrae. Novos mundos eram noticiados. Grandes transformações culturais, artísticas e científicas aliavam-se a novas descobertas. A humanidade era mais apreciada. Havia motivações que, na consciência das pessoas, fizeram do jubileu de 1450 um acontecimento que marcava a transição do mundo medieval para o mundo moderno. Foi um jubileu com grande afluência de gentes de toda a Europa a Roma: cum jubiloligavam o sagrado e o profano, a espiritualidade e a romaria, em que romeiros peregrinos conviviam e concelebravam com autóctones locais. O envolvimento das multidões fazia do jubileu um convite ao júbilo. Fazia-se penitência e celebrava-se a vida, interligando também a fé e a arte.
Se até à celebração do de 1450 o jubileu se conjugava mais com os “autos”, carnais no melhor sentido da palavra, e com os “mistérios”/representações religiosas medievais, a partir daí a motivação do jubileu já era espiritual: era a salvação da alma, contendo como elementos essenciais a procura e a concessão da indulgência, a peregrinação e a visita às quatro basílicas maiores de Roma.
Mas essa era uma motivação distinta da original, que tinha inspirado o jubileu bíblico (capítulo 25 do livro do Levítico). De facto, lá tinha profunda dimensão humana e social e até ecológica, embora não esquecesse a espiritual. Mandava que cada 50 anos se deveria fazer repousar a terra, não a cultivando, ese deveriam restituir em Israel os campos que tivessem sido arrendados ou vendidos desde o ano jubilar anterior; todas as propriedades, requeridas por causa de dívidas, deveriam ser devolvidas aos seus proprietários anteriores ou aos seus herdeiros. Os escravos deviam ser resgatados e libertados.

Um yobel, chifre de carneiro cujo som assinalava o início do ano jubilar e do Dia da Expiação (Yom Kippur) no judaísmo. Foto: Direitos reservados.
Assim diz o texto fundamental que descreve a origem do jubileu: «Declarareis santo o ano cinquenta e proclamareis pelo país a libertação para todos os seus habitantes. Será para vós um jubileu [yobel em hebraico, traduzido pela assonância jubilaeu – na Vulgata latina]: voltará cada um de vós à sua propriedade e cada um voltará à sua família. Este ano cinquenta será para vós ano jubilar [yobel shenat]: Não semeareis, não colhereis do que cresce espontaneamente, nem vindimareis as vinhas que não foram podadas, porque é um jubileu [yobel], que será sagrado para vós. Comereis do campo o que ele produzir… Não vos prejudiqueis um ao outro… Ninguém de vós prejudique o seu próximo… Eu sou o Senhor, vosso Deus» (Levítico 25, 1.8-17).
Não se sabe se historicamente Israel celebrou alguma vez um ano jubilar, sem trabalho algum nos campos. Importante era a mensagem, um apelo à grande oportunidade para melhorar o relacionamento com Deus, com as pessoas e com a natureza, implicando a remissão de dívidas. Por isso, os primeiros tradutores da Bíblia hebraica (para o grego, desde o séc. III até ao séc. I a.C.) traduziram o «ano do jubileu [yobel]» como «ano, símbolo da libertação/perdão» por excelência. Era a grande libertação, por motivos humanos e religiosos, um ano de liberdade, de festa, em que o povo se sentia voltar à condição original de libertado por Deus (da escravidão do Egipto). De facto, o jubileu aparecia como instituição divina, palavra de Deus a Moisés para todo o povo: «O Senhor disse a Moisés no monte Sinai» (Levítico 25,1). E significava que a vontade de Deus era a libertação total e a fraternidade universal.
Por isso, no evangelho de Lucas, que quer apresentar a vida de Jesus como obra de libertação universal para todos os que aderissem à sua mensagem, na página admirável que traz o seu discurso programático, colocado logo no início do seu ministério público (Lucas 4,16-30), Jesus cita o profeta Isaías: «O Espírito do Senhor… enviou-me a proclamar aos prisioneiros a libertação…, a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano de graça do Senhor». Citando assim as Escrituras, Jesus abria o sentido último delas. Via na passagem de Isaías a expressão do seu próprio projecto de vida humana, que dava corpo ao projecto de Deus. Uma vez que Jesus aparece como Filho de Deus, a libertação sentida como promessa em Isaías irrompeu em Jesus como o hoje de Deus, fiel a si próprio e aos humanos. Portanto, este «ano favorável do Senhor» refere-se claramente ao ano do jubileu israelita e significa que Jesus em pessoa o realizou em pleno, com todas as actualizações: actualizou-o e tornou-o mais eficaz. Sendo ele próprio a «proclamar um ano de graça do Senhor», sugeria que a sua missão era anunciar e comunicar efectivamente o perdão de Deus a todos os povos, perdão total e não só ao povo de Israel.
Esta plena remissão dos pecados por Jesus é precisamente o que se deve ver como indulgênciaplenária ou plena, a palavra e a realidade à volta da qual girou a história dos jubileus até aos nossos dias. É fundamental entender o seu alcance para compreender o significado do jubileu.
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Jubileu: das indulgências à indulgência

Bonifácio VIII e os seus cardeais. Ilustração da edição do século XIV dos Decretais.
Pela primeira vez na história da Igreja, em 1300, o Papa Bonifácio VIII promulgou o jubileu e instituiu a indulgência jubilar, com a remissão das dívidas – agora espirituais – causadas pelos pecados: «Concedemos uma indulgência de todos os pecados, não só plena e mais abundante, mas pleníssima.» Depois, a doutrina sobre as indulgências evoluiu até ao Papa Francisco, que fez uma inovação importante: a abertura da «Porta Santa é para oferecer a experiência viva do amor de Deus» (Bula de proclamação do jubileu ordinário 2025, Spes non confundit, 6). Colocou em primeiro plano a misericórdia e o perdão de Deus oferecido gratuitamente às pessoas que mediante a oração se abrem ao dom do Pai na pessoa do Filho amoroso, em vista da reconciliação com os irmãos: «A todos, crentes e afastados, possa chegar o bálsamo da misericórdia como sinal do reino de Deus já presente no meio de nós» (Bula de proclamação do jubileu extraordinário da misericórdia em 2015, Misericordiae vultus, 5). Sublinha que a misericórdia é «a arquitrave que suporta a vida da Igreja… A Igreja tem a missão de anunciar a misericórdia de Deus, coração pulsante do evangelho, que por meio dela deve chegar ao coração e à mente de cada pessoa» (Misericordiae vultus, 10 e 12).
Nesta nova espiritualidade do jubileu já se fala pouco de indulgências. Usa-se a palavra no singular, que subentende mais o amor de Deus que perdoa do que os actos de piedade para obter o perdão. E as expressões habituais na celebração dos jubileus do passado, «ganhar indulgências», «remissão da pena temporal devida aos pecados»…, dispensam-se sem perder a riqueza espiritual e humana do amor de Deus concedido. «Viver a indulgência no Ano Santo significa aproximar-se da misericórdia do Pai com a certeza de que o seu perdão cobre toda a vida do crente. A indulgência é… para que o perdão se estenda até às últimas consequências aonde chega o amor de Deus» (Misericordiae vultus, 22). O jubileu recusa olhar para a vida como sem-sentido ou como fado e sugere vivê-la com júbilo: não é para a condenar, mas para a recuperar e redimir, até nos que a consideram perdida.
A palavra mais apropriada para exprimir o conteúdo da indulgência é misericórdia. A indulgência sublinha a grandeza da misericórdia de Deus e aponta para ela: «Não é por acaso que na Antiguidade a palavra misericórdia era permutável com indulgência, precisamente porque tem a intenção de exprimir a totalidade do perdão de Deus que não conhece limites… [Cristo] é “a nossa indulgência”» (Spes non confundit, 23). A Misericordiae vultus concretiza o alcance da indulgência: «Todos nós fazemos experiência do pecado… Sentimos fortemente o peso do pecado. Ao mesmo tempo que notamos o poder da graça que nos transforma, experimentamos a força do pecado que nos condiciona. Apesar do perdão, carregamos na nossa vida as contradições que são consequência dos nossos pecados. No sacramento da Reconciliação, Deus perdoa os pecados, que são verdadeiramente apagados. Mas o cunho negativo que eles deixaram nos nossos comportamentos e pensamentos permanece. A misericórdia de Deus, porém, é mais forte. Torna-se indulgência do Pai que, através da Esposa de Cristo, alcança o pecador perdoado e o liberta de qualquer resíduo das consequências do pecado, habilitando-o a agir com caridade, a crescer no amor em vez de recair no pecado» (n.º 22; cf. Spes non confundit, 23).

Caminho de Santiago, 2015: “O recurso aos santos tornou-se quase necessário.” Foto © António José Paulino
A indulgência dá ao pecador a consciência de redimido e de que está sempre frente à bondade de Deus como Pai. Todavia, esta apresentação da espiritualidade da indulgência não deve levar a desconfiar da eficácia total da misericórdia de Deus manifestada na vida e na morte de Jesus e comunicada no sacramento da Reconciliação; o jubileu proporciona e reforça o clima espiritual apropriado para o confessado prolongar os frutos do sacramento.
Entre os exercícios para obter a indulgência dos pecados, Francisco propõe visitar – em peregrinação – uma basílica, um santuário, uma igreja jubilar. Com isso sugere que a fé cristã agradece lugares e momentos que recordem concretamente os seus factos históricos fundadores. Dirigir-se em peregrinação a um lugar considerado sagrado é, simbolicamente, demandar a terra prometida, a Jerusalém celeste (Apocalipse 21,1.4). É fazer um retiro espiritual, subir ao monte de Deus, como Abraão, Moisés, Elias, Jesus, Paulo…
A prática da peregrinação desempenha um importantíssimo papel catequético e de amadurecimento da vida espiritual. Libertada de expressões supersticiosas e reduzida ao seu significado genuíno, constitui um verdadeiro meio de crescimento humano e espiritual. E «representa um elemento fundamental de todo o evento jubilar. Pôr-se a caminho é de quem anda à procura do sentido da vida… Favorece muito a redescoberta do valor do silêncio, do esforço, daquilo que é essencial» (Spes non confundit, 5). Quem faz o exercício sagrado da peregrinação proclama íntima e socialmente a sua condição de caminhante sobre a terra, na dureza e nas alegrias da vida; declara-se insatisfeito com o já realizado e desejoso de subir mais no humano e na vida do espírito.
A peregrinação é uma oportunidade para a descoberta, para a purificação interior. É ocasião para a catequese do coração, sob o signo da contemplação, do gozo e da paz de espírito; é uma iniciação ao «itinerário da alma para Deus». Mais do que puro exercício de ascese que exige esforço, mortificação e penitência, a peregrinação ‘diz’ que o seguidor de Jesus não se prende muito a coisas passageiras e não olha para trás, porque o atrás já passou. Peregrinar é entender que a vida é breve e não há tempo para fazer tudo, muito menos o mal, mas só o bom e o melhor. Nem há autêntica peregrinação se o peregrinar físico não realiza uma peregrinação ao interior do ser e da vida, para perceber que sentido e que orientação dar-lhe. Implicando oração e conversão, a peregrinação continua a ser uma forma irrenunciável de humanização. Durante uma peregrinação jubilar e no fim dela, reaviva-se a esperança humana e crente como melhor fruto da celebração do jubileu.
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Jubileu: Júbilo no amor de Deus

Frei Luís de León. Imagem: Francisco Pacheco, Public domain, via Wikimedia Commons
Como acabamos de ver, a peregrinação aos lugares sagrados é, no jubileu, um exercício humano e religioso significativo. Todavia – parafraseando S. Jerónimo e o enciclopedista Voltaire – não são os lugares santos que nos salvam: salva-nos o amor do Deus santo. Esta verdade leva-nos ao conteúdo intrínseco da indulgência jubilar, que é o amor recebido, de Deus. O Papa Francisco é lapidar: «A primeira verdade da Igreja é o amor de Cristo, deste amor que vai até ao perdão» (Misericordiae vultus, 12). Toca assim o coração do evangelho, onde amor é palavra densa. Desde logo, diz o Ser de Deus (1 João 4, 8.16), equação que marca a originalidade da fé cristã no concerto das religiões. E o ‘amor que Deus é’ não é abstracto, romântico, nebuloso ou distante, também porque l’amour platonique est toujour plat, jamais tonique.
Deus pôde ser definido como Amor porque se tornou próximo dos que amava. Pudemos vê-lo, manifestado historicamente no Filho Jesus, particularmente ao deixar crucificar a sua vida inocente. A sua morte por amor revelava à fé que Deus participa na história da humanidade: «Estou persuadido de que nem a morte nem a vida…, nem o presente nem o futuro… poderá jamais separar-nos do amor de Deus que é em Cristo Jesus» (Carta aos Romanos 8,38-39). «É o próprio Pai que vos ama, porque vós já me tendes amor» (João 16,27). Em cada pessoa que o celebra, o jubileu alcança o objectivo de a abrir ao ilimitado amor de Deus manifestado em Jesus. A fé introdu-la de tal modo na órbita do amor de Deus que tudo na sua existência pessoal e de crente se joga no interior desse amor, onde tudo é sublime.
Aí, porém, soa um alerta: tanto amor dado só é reconhecido por um amor correspondente. É preciso tê-lo. «Porque é sempre assim: ao amor só o amor o encontra, só o amor o entende, só o amor o merece» – assegura o agostiniano Frei Luis de León (citado em El cantar más bello [traducción y comentario de Emilia Fernández; Trotta; Madrid 1998] 85). Se «Deus é amor», só o amor O reconhece e crê n’Ele: «Quem não ama não reconheceu Deus» (1 João 4,8). Não é por acaso que o evangelho de João, na cena do Calvário, põe junto à cruz o discípulo que Jesus amava (João 19,26). Os outros discípulos também tinham acreditado em Jesus. Mas, não entendendo suficientemente o significado da sua morte por amor a eles, fugiram. O discípulo que se sentiu amado não fugiu, porque reconheceu o amor de Deus em Jesus. Igualmente no regresso ao trabalho da pesca «os discípulos não reconheceram que era Jesus» (João 21,2-3). Só «o discípulo que Jesus amava» foi capaz de o reconhecer: «É o Senhor» (João 21,7). Do amor que reconhece em Jesus o Enviado de Deus (João 13,20) emerge a verdade de uma vida.

Goethe: “Sentir-se amado dá mais força do que sentir-se forte.” Retrato de Johann Wolfgang von Goethe, por Stieler (1828). Imagem: Yair-haklai, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.
O amor, enquanto recebido e enquanto dado, é a expressão mais coerente da revelação cristã. Cada um pressupõe o outro, também ao celebrar o jubileu. Quem tem consciência de que é envolvido no amor de Deus em Jesus recebe a indulgência: isso é a indulgência. Então é convidado a corresponder em consequência, segundo a lógica do amor. Ao amor reconhecido, em vertical, responde o amor em horizontal: «Porque o amor vem de Deus, amemo-nos uns aos outros… Se Deus nos amou assim, também nós nos devemos amar uns aos outros… Quem ama Deus ame também o seu irmão» (1 João 4,7.11.20-21; 3,16).
Este amor fraterno a investir no quotidiano seria, à partida, uma aposta sem garantia, condicionada pela fragilidade humana. Mas Paulo declara que em todas as tribulações e dificuldades «somos mais do que vencedores graças àquele que nos amou» (Romanos 8,37), «pelo amor imenso com que nos amou» (Efésios 2,4; Gálatas 2,20).
Esta garantia estremecedora deriva do facto de o crente ser, primeiro, amado por Deus (1 João 4,9-10.19). O gozo de ser amado, sem outra razão que não seja a de ser quem é, institui-se como o mais forte estímulo para ganhar a aposta de amar, alargando o amor de Deus às pessoas: «Não há coisa tão eficaz nem tão poderosa em quem ama como saber que é amado: isso sempre foi a isca e o íman do amor» – insiste Frei Luis de León (Cantar de Cantares [Edición de J. Guillén; Sígueme; Salamanca 1980] 90).Johann Wolfgang von Goethe veio a dizer: «Sentir-se amado dá mais força do que sentir-se forte». Bem o percebeu Camilo Castelo Branco no Amor de perdição: «No amor que [as pessoas] nos dão é que nós graduamos o que valemos em consciência» (Sistema solar; Lisboa 2018, p. 111). Ao ver a beleza e ao sentir o amor da jovem que passou a amar, o protagonista do romance projectou na sua vida a luz e o sentido que não via antes e teve força para substituir o ódio e o crime pelo amor. Para conduzir o ser humano à felicidade, o amor é o maior poder.
O Papa Francisco afirmava que o grande fruto do jubileu decide-se no acolhimento do amor de Deus em forma de perdão de Jesus pela mediação da Igreja. Na imagem, Francisco é acarinhado por uma mulher na Jornada Mundial dos Pobres. Foto: Direitos reservados.
No fim do jubileu de 2015 o Papa Francisco concluía: «Sou amado, logo existo, estou perdoado; por conseguinte, renasço para uma vida nova» (Carta apostólica Misericordia et misera, 16). O grande fruto do jubileu decide-se no acolhimento do amor de Deus em forma de perdão de Jesus pela mediação da Igreja. Na celebração do jubileu não esquecemos o convite do apóstolo Pedro (1 Pedro 4,8): «Acima de tudo, mantende entre vós um intenso amor, porque o amor cobre a multidão dos pecados».
Esta é uma verdade antropológica de grande densidade, a forma mais expressiva de conversão, suposta e requerida para a celebração do jubileu. No ‘jubilado’ renovado, é o amor que deve primar como verdadeiro ser e identidade da pessoa: ele é na medida em que ama; a medida do seu ser é a medida do seu amor. Santo Agostinho di-lo com acutilância: «O meu peso é o meu amor», isto é, peso tanto quanto amo, o meu primeiro valor está no meu amor (Confissões, XIII, 9, 10). A percepção de Paulo é semelhante: «se não tiver amor, nada sou» (1 Coríntios 13,2); na expressão de João, «quem não ama permanece na morte» (1 João 3,14), eventualmente anterior ao jubileu. Quem ama está cheio de vida. Tendo, no jubileu, conhecido e reconhecido o amor, só falta traduzi-lo em vida: «A fé manifesta a sua energia mediante o amor» (Gálatas 5,6); o amor é que torna a fé verdadeira. O conteúdo da fé é «o Amor total, no seu poder eficaz, na sua capacidade de transformar o mundo» (Francisco, encíclica Lumen fidei, 15).
A própria indulgência na celebração do jubileu – amor descendente – é uma vitamina para não desistir do amor ascendente. Interioriza a ideia de que a fé cristã terá de ser um motor de acção e de mudança, de cultura do amor aos que andam nas periferias da vida, por exemplo, na pobreza que é não conhecer o evangelho de Jesus. O jubileu quer acelerar este motor e contribuir para a globalização da misericórdia e da compaixão. É «um ano da graça do Senhor» oferecido ao crente, «o tempo favorável» (2Cor 6,1-2), «o tempo de deixar tocar o coração» (Francisco, Misericordiae vultus, 19).
Armindo Vaz é padre católico da Ordem dos Carmelitas, biblista e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica; publicou, entre outros, Em vez de «história de Adão e Eva»: O Sentido último da vida projectado nas origens (Edições Carmelo) e Criação Divina sem pecado humano (Paulinas Editora).










