Centenas de rabinos, artistas e outros membros da comunidade judaica norte-americana reuniram-se esta semana em frente à sede do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) para expressar a sua indignação relativamente às ações daquele organismo no âmbito do programa de deportação em massa de Donald Trump, somando-se assim à crescente resistência religiosa perante a agenda anti-imigração do Presidente.
“Estamos a ver o ICE a cometer atos hediondos de violência e terror, e isso visa livrar este país daquilo que nos torna mais fortes, que são os nossos amigos e vizinhos imigrantes”, disse a rabina Sharon Kleinbaum ao dirigir-se à multidão que participou no protesto em Washington DC. “Sabemos pela História, e sabemos por Deus, o que nos é exigido neste momento”, acrescentou a rabina emérita da Congregação Beit Simchat Torah, em Nova Iorque, citada pelo Religion News Service. A multidão irrompeu então num cântico, “Judeus contra o ICE”, entoado por diversas vezes ao longo do protesto, que durou mais de uma hora, na passada quarta-feira, 11 de fevereiro.
A manifestação seguiu-se a um encontro de rabinos organizado pela associação T’ruah: The Rabbinic Call for Human Rights, que reuniu cerca de 140 rabinos em Washington e incluiu discussões sobre como fazer oposição ao Departamento de Segurança Interna (DHS) e resistir ao autoritarismo. Segundo os seus promotores, este foi o “maior protesto judaico contra os crimes e males cometidos pelo ICE”, envolvendo dezenas de organizações e rabinos de todo o país.
Os participantes envergavam cartazes com referências bíblicas, como Levítico 24:22: “Haverá uma só lei para estrangeiros e para os naturais da terra”. Outros tinham o formato de xofares (um instrumento tradicional de sopro usado em diversas cerimónias e cultos judaicos), e exibiam slogans como “Ama o teu próximo”.
A rabina Emma Kippley-Ogman, capelã judaica e inter-religiosa no Macalester College em St. Paul, Minnesota, comparou os apitos usados pela população para alertar os imigrantes da presença de elementos do ICE aos xofares, recordando que aquela espécie de corneta já foi usada para chamar à “ajuda mútua”.
Kippley-Ogman, que esteve entre os cerca de 100 membros do clero presos em protestos contra o ICE no Minnesota no mês passado, instruiu a multidão sobre como usar os apitos: três apitos curtos para indicar a presença de agentes do ICE, três apitos longos para sinalizar que os agentes estão a deter alguém.

Uma manifestante fazendo soar o seu xofar. Foto @giligetz
Seguiu-se a intervenção da rabina Sarah Bassin, que recitou os nomes de 43 pessoas que, segundo ela, morreram sob custódia do ICE no último ano, e pediu à multidão que respondesse com “Baruch Dayan Ha’Emet”, uma resposta judaica tradicional que significa “Bendito seja o juiz da verdade”.
A rabina Jill Jacobs, diretora da T’ruah, recordou que o “compromisso judaico com a proteção de pessoas em movimento não é novo”, pelo contrário: é uma das “tradições mais antigas” do judaísmo.
“Hoje estamos a provar que não vamos a lugar nenhum: que a comunidade judaica sempre defendeu e sempre defenderá os nossos vizinhos, a nossa comunidade”, disse Jacobs à multidão. “Quando exigimos que o ICE deixe as nossas cidades, estamos a viver de acordo com nossos valores”, concluiu.
E quando alguns trabalhadores saíam do prédio do ICE, os participantes na manifestação gritavam: “Vergonha!”. Alguns acenavam para os funcionários do organismo que, de vez em quando, espreitavam pelas janelas com vista para a rua onde decorria o protesto. E, mais de uma vez, a multidão irrompeu em cânticos, incitando os agentes do ICE a abandonar os seus trabalhos e juntar-se a eles. Um dos versos era incisivo: “Não ficarei parado enquanto matam os meus vizinhos”.










