Nuno Júdice (1949-2024) poeta, ensaísta e praticante de vários géneros literários, morreu no passado domingo, dia 17 de março, vítima de cancro. O poeta algarvio estreou-se com Noção de Poema publicado pelos Cadernos de Poesia (número 23) em 1972. Neste breve texto João Santos recorda o seu primeiro contacto com o poeta, como forma de homenagem a Nuno Júdice.

Nuno Júdice. Pormenor do cartaz do Festival de Poesia e Música de Vila Nova de Foz Côa (março de 2023). Foto reproduzida da página do poeta no Facebook.
O poeta em alto contraste, gola para cima, cabia no bolso em que também repousavam, repousariam, outros cadernos de poesia, ou os, também pequenos, da ulisseia, colecção de poesia e ensaio.

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Os poemas dele erguiam-se luminosos, verticais, da cor da luz meridional que o vira nascer, ou era só o adolescente retrospectivo que assim o recordava, sobrepondo a vontade de o conceber irmão do sul à experiência do verso?
Regressando aos poemas de 73, os da crítica doméstica, descobre muitas maiúsculas, inquietações, morte. Mas também a lateral, negativa, invocação do sol, como no poema o nascer do dia: “…fecho a janela/ e desço as persianas; mas não suficiente/ para que algo do brilho diurno me não atinja/ os olhos.”
No sul, abrigamo-nos da luz intensa na penumbra dos quartos, mas a luz, não a queremos ignorar. Como não ignoramos a invocação dos deuses mediterrânicos, a Grécia: veja-se o Teixeira-Gomes de Agosto Azul, em magnífica elegia aos caminhos costeiros na orla da terra em que o poeta nasceu.
Do que agora se afasta não conhece, o autor desta prosa, esse excesso que seria a obra toda. Ao contrário, retém imagens e experiências do texto mais ou menos casuais. Mas não esquece esse primeiro encontro com um dos grandes poetas algarvios. Imerso, ainda retrospectivamente, no verso de Rimbaud que invoca uma idade de intensas descobertas: on n’est pas sérieux quand on a dix-sept ans.
João Santos é professor.









