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Julgamento Final
Miguel Ângelo: fresco do "Julgamento Final" pintado na parede da Capela Sistina (Vaticano)

Niceia, 1700 anos: uma leitura atual (7)

Julgar os vivos e os mortos – Muito para lá da justiça

| 15/08/2025

 

Publicamos hoje o sétimo texto sobre 1700 anos do Concílio de Niceia (atual İznik, Turquia), de uma reflexão de Vítor Rafael, colunista regular do 7MARGENS, doutorando em História e Cultura das Religiões pela FLUL – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e investigador na Universidade Católica Portuguesa – Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião. [Ler textos anteriores]

 

 

De onde há de vir a julgar os vivos e os mortos

 

O fresco do Julgamento Final, de Miguel Ângelo, pintado na parede da Capela Sistina (Vaticano), demonstra bem o drama dos que, nos finais dos tempos, irão ser confrontados por Jesus. Interessante o facto de o próprio Miguel Ângelo não expressar aqui com vigor o conceito de justiça divina, severo e implacável em relação aos que irão ser condenados. Como entendemos o julgamento? Como será o julgamento presidido por Jesus?

Historicamente, é um facto comprovado que, desde os primórdios, a teologia cristã e o sistema jurídico ocidental andaram lado a lado. Até os autores dos livros que compõem o Novo Testamento, quando falam de justiça, ou se socorrem de conceitos encontrados na lei de Moisés e na tradição judaica, ou no direito romano.

O Deus de Israel é extremamente apaixonado pela justiça, delicia-se nela porque ela faz igualmente parte do seu carácter. Podemos desde já afirmar que o tema da justiça é central ao longo das escrituras hebraicas. O povo de Israel sempre verificou que Deus, embora castigasse sempre os que fossem culpados na transgressão da Sua Lei para que se convertessem e voltassem aos bons caminhos, era um “Deus compassivo e misericordioso, paciente, cheio de amor e de fidelidade, que mantém o seu amor a milhares e perdoa a maldade, a rebelião e o pecado” (Êxodo 34:6,7). Em nenhuma passagem bíblica se verifica a justiça de Deus como tendo o sentido de castigo como fim em si mesmo; antes pelo contrário: a justiça, se aplicada em forma de castigo, tem sempre um fim pedagógico, correctivo para levar cada pessoa a rever os seus caminhos. O Salmo 25:6, em que David demanda a Deus que se lembre da sua compaixão e misericórdia (como o tem mostrado deste a eternidade), mostra como a justiça divina apenas é sensível ao desejo humano por arrependimento e conversão.

Ninguém melhor do que os profetas souberam tão bem expressar a certeza inabalável num Deus misericordioso. Isaías coloca na boca de Deus as seguintes palavras: “Num impulso de indignação escondi de ti por um instante o meu rosto, mas com bondade eterna terei compaixão de ti, diz o Senhor, o teu Redentor.” (Isaías 54:8). Num ímpeto de gratidão, Jeremias afirma mesmo: “Graças ao grande amor do Senhor é que não somos consumidos, pois as suas misericórdias são inesgotáveis. Renovam-se cada manhã; grande é a tua fidelidade!” (Lamentações 3:22-23). Também o profeta Oseias coloca na boca de Deus: “O meu coração dá voltas dentro de mim, comovem-se as minhas entranhas. Não desafogarei o furor da minha cólera – porque sou Deus e não um homem” (Oséias (11:8). Deus contém com mais facilidade a Sua ira do que a Sua misericórdia. A misericórdia de Deus é o coração pulsante do Evangelho.

O próprio Jesus, a imagem perfeita do Pai (Colossenses 1:15-16), nos mostra, melhor do que ninguém, a misericórdia de Deus, contraposta à justiça dos religiosos e legalistas da Lei. Quando acolhia os publicanos, os pecadores à Sua mesa, lembrava, aos que O criticavam, as palavras do profeta Isaías: “Misericórdia quero, não sacrifícios” (Mateus 9:13). No sermão da planície, Jesus, depois de nos ensinar acerca do dever de amarmos sempre os nossos inimigos, observa que o Pai é bom até para com os “ingratos” e “maus”. Termina magistralmente com a sentença, “Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso!” (Lucas 6:35-36). O que Jesus está praticamente a dizer aqui é que a misericórdia do Pai é deveras escandalosa aos olhos dos homens e que Ele não pune ninguém segundo o que merece, mas a todos ama com amor que está para além do que possamos imaginar.

O bispo Desmond Tutu, que presidiu à Comissão de Verdade e Reconciliação, da África do Sul: não permitir que o mal avance mais. Foto © Peter Williams/WCC

 

A misericórdia triunfa sempre sobre o juízo (Tiago 2:13). Quando Jesus vier na Sua glória para julgar os vivos e os mortos, irá certamente confrontar e conceder justiça a todos. Estar perante o olhar de Jesus, que conhece todas as coisas, que a todos conhece e compreende, será, ao fim e ao cabo, olharmos para nós mesmos, para as nossas limitações, misérias e pecados e, ao mesmo tempo, sermos confrontados com o peso imensamente esmagador da graça e amor de Deus. O tribunal de Cristo irá ser o local para a cura das muitas mágoas causadas pelo mal das pessoas, mas dali mesmo também sairá a cura para todas as nações, porque Jesus concederá finalmente ali a justiça para toda a humanidade (Apocalipse 22:1-2).

Philip Yancey relata um facto verídico de um julgamento ocorrido nos conturbados tempos de transição do apartheid na África do Sul. Afim de pacificar e reconciliar a nação, Nelson Mandela nomeou o bispo Desmond Tutu para chefiar a famosa Comissão de Verdade e Reconciliação. Ninguém seria julgado se confessasse perante o tribunal os seus crimes e reconhecesse as suas culpas. Numa dessas audiências, um polícia chamado Van de Brock relatou um incidente em que ele e outros oficiais mataram a tiro um rapaz de dezoito anos e queimaram o seu corpo. Oito anos depois, o mesmo polícia voltou à mesma casa e agarrou o pai do rapaz. A mulher foi forçada a olhar enquanto os polícias amarraram o seu marido sobre um monte de lenha, derramaram gasolina sobre o corpo dele e atearam-lhe fogo.

O tribunal ficou em silêncio quando a mulher idosa, que havia perdido primeiro o filho e depois o marido, teve a oportunidade de resposta. “O que é que a senhora deseja que seja feito ao senhor Van de Brock?” perguntou o juiz. Ela respondeu que queria que o senhor Van de Brock fosse ao local onde haviam queimado o corpo do seu marido e recolhesse as cinzas, a fim de dar-lhe um enterro decente. Com a cabeça baixa, o polícia acenou que concordava. Depois ela acrescentou outro pedido: “O senhor Van de Brock tirou-me toda a minha família, e eu ainda tenho muito amor para dar. Duas vezes por mês, eu gostaria que ele viesse até ao gueto e passasse o dia comigo, de modo que eu possa ser uma mãe para ele. E gostaria que o senhor Van de Brock soubesse que ele foi perdoado por Deus, e que eu também o perdoo. Eu gostaria de abraçá-lo, para que ele saiba que o meu perdão é verdadeiro.”

Espontaneamente, alguns dos presentes começaram a cantar o hino Maravilhosa Graça [Amazing Grace] quando a senhora idosa se encaminhou para o banco das testemunhas, mas Van de Brock não ouviu o hino. Ele desmaiara, completamente arrasado pela emoção. Não se fez justiça naquele dia na África do Sul, como não se fez no país inteiro durante os meses dos dolorosos processos da Comissão de Verdade e Reconciliação. Algo para além da justiça aconteceu. “Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem”, disse Paulo. Nelson Mandela e Desmond Tutu entenderam que, quando o mal está feito, só uma resposta pode vencê-lo. A vingança perpetua o mal. A justiça pune-o. O mal é vencido pelo bem se a parte ofendida o absorver, recusando-se a permitir que ele avance ainda mais. E esse é o modelo de graça do outro mundo que Jesus mostrou na sua vida e morte.

 

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