Julia Kristeva, pensamento abrangente, uma inspiração

| 20 Out 19

Julia Kristeva. Foto reproduzida de Harp1980 – Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=3737159

Em boa hora teve a Universidade Católica Portuguesa a iniciativa de, na cerimónia de abertura do ano académico do passado dia 10 de outubro, atribuir o doutoramento honoris causa à professora Julia Kristeva, por proposta da Faculdade de Ciências Humanas. Tive o privilégio de estar presente neste merecido doutoramento de uma mulher cujo pensamento abrangente e comprometido tem sido uma inspiração para mim.

Julia Kristeva é sobejamente conhecida nos meios intelectuais de inúmeros países. Professora emérita da Universidade de Paris-Diderot, “os alunos adoravam-na”, como afirmou na cerimónia a madrinha, Professora Doutora Luísa Leal de Faria. Discípula de Roland Barthes, Kristeva é uma estruturalista, especialista em semiótica, sendo também psicanalista: um interesse profundo pela palavra. É uma mulher feminista. Búlgara por nascimento, é casada com o conhecido escritor Philippe Sollers, foi mãe de uma criança com necessidades educativas especiais, tornando-se uma ativista nesta matéria.

Deste facto vem a sua ligação ao movimento da Arca, de Jean Vanier. Afirmou na sua intervenção na Universidade Católica que “le sujet handicapé est un sujet qui a des droits” (A pessoa com deficiência é um sujeito que tem direitos). O pai, ortodoxo profundamente crente, aconselhou-a a “aprender línguas porque o multilinguismo é a mensagem cultural da Europa”, contou também. Entre cerca de 30 obras publicadas, Julia Kristeva é autora do livro História da Linguagem traduzido em 2007 na língua portuguesa (Edições 70).

Mas a obra que muito pessoalmente me fez “nascer” para Kristeva é o livro Thérèse mon Amour, sobre Santa Teresa de Ávila (2008, Paris, Fayard). Depois de ler as obras completas desta santa da minha devoção, em preparação para um trabalho que me foi pedido pelo movimento do Graal (programa internacional de verão “Mulheres, Teologia e Mística”), tropecei no livro da Kristeva. Foi para mim uma verdadeira revelação, uma epifania. Eis como Kristeva se refere a Teresa de Ávila:

O meu telescópio (visão de longe) que é o meu microscópio (aumento daquilo que é ínfimo) faz de ti uma mulher atormentada mas alegre, uma monja louca mas espantosamente lúcida, que apresentou/impôs ao mundo inteiro as metamorfoses do seu corpo apaixonado, ao formular um desejo da “humanidade de Cristo”. (p. 79)

Afirma ainda:

A tua escrita, que transcende o teu tempo histórico e que hoje me seduz, é-nos dada à maneira dessa matéria líquida que tu adoras, que é a água e cujo vocábulo espanhol – agua – brota frequentemente da tua pena: corres de um estado a outro, de uma convulsão a uma jubilação, das tuas sensações à sua compreensão, das narrativas dos personagens evangélicos ao virtuosismo da tua percepção (…) todas as facetas de uma borboleta não parando de se juntar à sua crisálida. (p. 87)

O livro As Moradas (ou Castelo Interior) é, para Kristeva, um livro de pedagogia espiritual, uma psicologia teológica. Para Kristeva, Teresa de Ávila é “uma verdadeira mulher da modernidade” – apesar de, para o núncio apostólico de então, Felipe Sega (que não gostava da sua obra de fundação de conventos) ela ser “uma vagabunda inquieta, rebelde e cabeçuda, que inventava doutrinas retorcidas, lhes chamava devoções e permitia-se ‘ensinar’ quando o apóstolo Paulo de tal proibira as mulheres” (pág. 151).

Kristeva levou-me a encontrar no livro de Santa Teresa Vida, um livro “jubilatoire”, nas suas palavras, um livro “sur la jouissance féminine”, casando ascetismo com jouissance. Com Kristeva, aprendi a importância da palavra (em Teresa de Ávila) para contar as suas próprias experiências psíquicas e espirituais. Para ela, “Teresa foi intérprete e analista da alma”

Afirma ainda Kristeva:

A palavra “místico” desdobra-se com força e brilho: ela não designa mais um oculto inacessível, mas convida o oculto a manifestar-se, os tormentos da carne e do espírito a tornar-se visível e a seduzir. O “corps verum” – A Paixão de Cristo à qual estou unido – não é mais um segredo protegido. Pela graça dos místicos e da Igreja que os consagra, ele torna-se uma sedução universal.

E conclui: “A experiência de Teresa ocorre neste contexto.” (p. 62)

Brevemente escreverei sobre o discurso de Julia Kristeva na iniciativa Átrio dos Gentios, em Roma, na presença de Bento XVI. Os dez princípios para o humanismo do século XXI foram mencionados na sua intervenção na Universidade Católica. Ficará para outra ocasião.

Cumprimentei Kristeva no final, no meio de tantos professores nos seus trajes académicos. Disse-lhe: “Não sou professora nesta universidade mas adoro o seu trabalho e aquilo que fez por nós, mulheres dos quatro continentes. Obrigado.” Um abraço caloroso nos uniu e saí do recinto da universidade muito comovida.

 

Teresa Vasconcelos, é professora do ensino superior (aposentada) e membro do movimento do Graal. Contacto: t.m.vasconcelos49@gmail.com

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