Saborear os Clássicos V

Júlio Dinis – a modéstia e o perfume das violetas

| 24 Mai 21

Joaquim Guilherme Gomes Coelho, ou Júlio Dinis, de pseudónimo literário.

 O escritor Júlio Dinis (1839-1871) – na verdade o médico Joaquim Guilherme Coelho – nasceu de uma família da alta burguesia portuense. O pai, médico; a mãe de origem inglesa e irlandesa – os avós, pelo menos, comerciantes, já cá viviam. Estuda na Escola Médica. Acabado o curso com distinção, torna-se lente nessa Escola.

Embora falecesse aos 31 anos de tuberculose e preferisse “a discrição à mundanidade”, [2] a sua obra tornou-se rapidamente muito popular, obtendo grande sucesso; fosse o romance, a mais conhecida – Uma Família Inglesa (FI); As Pupilas do Senhor Reitor; A Morgadinha dos Canaviais; Os Fidalgos da Casa Mourisca –; o conto (Serões da Província), a poesia ou o teatro [3]. Os seus romances surgiram “em folhetim, nos jornais do Porto” [4]. Em As Pupilas do Senhor Reitor, João Semana viria a ser, no léxico do português, sinónimo do médico da aldeia, até meados do XX: bom profissional, dedicado à saúde dos pobres, não levando dinheiro pelas consultas.

 

Ópera de mendigos

“Ópera de mendigos” é como Jorge de Sena apelida os críticos da obra de Júlio Dinis [4]. Como é que se compreende que este escritor tenha sido não só esquecido, mas mal compreendido e desprezado? É considerado “moralista”; nos romances “tudo acaba bem”: “Viveu de leve, escreveu de leve, morreu de leve” (Eça de Queirós). Eça acha que a obra dinisiana marca o início da literatura realista, mas este comentário ficou na história da literatura e parece ser parcial. Deverá ser, de acordo com Hugo P. Santos: Não morrer de leve, não escrever de leve, não morrer de leve [5].

“J. Dinis considera que o romance deve ter um ritmo lento, uma atmosfera envolvente” [6]; “as personagens devem identificar-se com os próprios leitores” [7]; importante, nas descrições, o quotidiano, tornando o que se lê como algo “natural”.

“O sucesso de J. Dinis proveio desta alegria do público em se sentir passar de espectador a actor” [8]. Ao escritor “repugna-lhe e enfastia-o demorar o pensamento num carácter antipático, revoltante…” [9]. Estas personagens passam rapidamente na obra; outras passam por uma transformação, ao longo da acção, graças “às personagens excepcionais (…) que geralmente são mulheres” [10].

 

Personagens excepcionais

Estátua de Júlio Dinis no Porto: São várias as personagens excepcionais criadas por Júlio Dinis. Foto © Béria Lima de Rodriguez/Wikimedia Commons

Margarida / Guida

Em As Pupilas do Senhor Reitor, Margarida, órfã de mãe, é tratada pela madrasta, mãe de Clara, como serva:

“… a cada passo lhe lançava no rosto a pobreza de condição que nascera, clamando que o pão que lhe dava de comer era um roubo que fazia à sua própria filha… Clara não herdara a dureza de coração [da mãe]… afável… compadecia-se já pelo que via sofrer à irmã… admirando aquela resignação que se conhecia incapaz de mostrar, principiou a olhar Margarida com respeito” [3] .

Após a morte da mãe de Clara, ambas se tornam pupilas do padre reitor. Clara é noiva de Pedro, filho de um rico lavrador, mas aprecia os galanteios de Daniel, médico e seu futuro cunhado, apesar dos conselhos de Margarida:

“… bem vês, Clarinha, que não é de ti que receio… mas tu bem sabes, o sr. Daniel é… dizem dele… passa por…” [3] . Clara não lhe dá ouvidos e continuam os encontros dos dois. No auge do drama, Pedro, o noivo, pergunta: “Quem esteve aqui com Daniel?”. Margarida salva a irmã e diz: “ Fui eu!” [3]

 

Berta

N’Os Fidalgos da Casa Mourisca, Berta, filha de Tomé, proprietário rural, outrora criado dos fidalgos da “Casa Mourisca”, regressa de Lisboa, onde fora educada. Embora estranhe a modéstia do lar paterno, arregaça as mangas, toma conta dos irmãos pequenos, é indiferente aos galanteios de Maurício, o fidalgo mais novo do velho solar:

… o que em Berta havia de mais digno… era a permanência de uma razão clara no meio dos atractivos e seduções… a lembrança da sua origem não a fazia melancólica, mas prudente.” [3]

 

Madalena

N’A Morgadinha dos Canaviais, Madalena, de educação esmerada, nascida em Lisboa, filha de um conceituado político lisboeta, de origem aldeã, émorgadinha por herança da madrinha e todos na aldeia gostam dela, sempre pronta a ajudar. Chegado o correio, lê as cartas ao povo:

“… um grupo de crianças e mulheres… escutavam… a leitura que uma senhora jovem e elegante lhes fazia das cartas… a senhora estava montada… numa possante e bem aparelhada jumenta… a leitora segurava no colo a mais pequena e a mais nua das crianças do rancho. (…) – Então que história é essa das arrecadas, Ana? – É, senhora, que o aluguer estava vencido… – E não podia falar-me antes de se lembrar do seu filho? – Ora, senhora, bem basta o que… – Fez mal. Estar a afligi-lo com estas coisas!…” [3]

Henrique, acabado de chegar à aldeia, é o observador desta cena e não lhe escapa a elegância da desconhecida. Ele é o janota lisboeta, frequentador do Grémio, hipocondríaco, aconselhado pelo médico a viver no campo. A sua chegada, no dia anterior, à casa da tia Doroteia que vive com Maria de Jesus, criada e amiga, espanta-o, pela conversa delas e hábitos diferentes, provocando-lhe irritação:

“- Pois na verdade tu és o Henriquinho?! – disse espantada a boa senhora /… – Parece mesmo um soldado! – disse a criada, igualmente estupefacta. / – Credo! Mulher! Santíssima Trindade! Você que está a dizer? Nossa Senhora nos livre de tal!… – Tu dizias-me na carta que estavas doente, pois olha que na cara não o parece…”. [3]

Este comentário fez logo enervar Henrique e ainda mais quando a tia lhe disse que a sua doença “era mania”. [3] Mas elas, ama e criada, insistiam até que a Mª de Jesus terminou com um dito que fez Henrique “pular com sinceridade”:

“- Eu lhe digo, não vá sem resposta: está quase como o cunhado da Rosa do Bacelo… andou aquela alminha por aí sempre triste… até que afinal lá foi parar… – Aonde? – perguntou Henrique… – Lá foi parar ao Rilhafoles (…) – Olha, ó menino, tu bebes água de noite? – Às vezes. – Você pôs-lhe água no quarto, Maria? – Pus, sim, minha senhora, pois então? Já minha mãezinha dizia que antes sem luz do que sem água…” [3] e por aí adiante: a altura do travesseiro da cama, o número de cobertores, “os lumes prontos”. [3] Henrique estava quase a desistir de tudo aquilo. Mas moldou-se a esse ambiente e nunca mais regressou a Lisboa. Conhece a “morgadinha”, mas esta é indiferente aos seus galanteios e após muitos episódios, Madalena vai orientando-o para a discreta Cristina, sua prima.

Henrique torna-se um “rico e laborioso proprietário rural… Cristina, além de ser adorada pelo marido, vê-se rodeada pelo carinho de D. Doroteia e de Mª de Jesus”. [3]

 

Júlio Dinis obras

 

Jenny

N’Uma Família Inglesa, o ambiente é citadino, portuense oitocentista. Jenny, órfã da mãe, é o elemento agregador e harmonizante entre o pai, Mr. Whitestone, “hábil e honesto comerciante da Rua dos Ingleses e da Praça” e o irmão, Charles: “inglês pelo sangue, meridional pelo clima… da península vinha-lhe o entusiasmo, a viveza da imaginação, a impetuosidade de sentimentos que raras vezes reprimia… da Grã-Bretanha, a força de vontade, a pertinácia, o estoicismo… que surpreendia… no pai via quase sempre um juiz severo e inflexível… Jenny era o seu anjo bom… a benigna fada cujo olhar serenava as tempestades…”. [3]

Jenny é a confidente do irmão. Este conta-lhe o que sucedera no Carnaval e a sua paixão por uma máscara de cetim que perseguiu, embora aquela não desejasse e só acabou aí a cena porque a rapariga da máscara suplicou-lhe:

“- Peço-lhe este favor por sua irmã, por Jenny “, sim, foi por ti que ela me pediu e fê-lo juntando as mãos com tal candura que eu… – Obrigada. Afinal o bem triunfa sempre no teu coração”. [3]

Mas em seguida Carlos rouba-lhe um beijo e confessa à irmã: “… mas não me condenes, Jenny… afinal eu nem lhe vi o rosto e estou condenado a nunca descobrir quem ela seja…”. [3]

 

Além destas personagens femininas, excepcionais, há outras que representam a alegria da juventude, um pouco inconscientes, mas de bom coração. Orientadas por aquelas, seguem o bom caminho: Cecília, de Uma Família Inglesa, a máscara do Carnaval, é boa filha, dedicada ao pai, viúvo, honesto guarda-livros dos Whitestone; Gabriela, de Os Fidalgos da Casa Mourisca, jovem viúva baronesa, liberal, irreverente que conduz o primo Maurício, com o interesse de casar com ele, para uma carreira cosmopolita, a diplomacia; Clara, rapariga radiosa, alegre, n’As Pupilas do Senhor Reitor, que depois toma juízo.

 

Fogacho de optimismo num país triste

Uma das edições de As Pupilas do Senhor Reitor.

Júlio Dinis é um optimista. Acredita que “o desenvolvimento da agricultura” [11] tornará o país mais próspero. O fontismo (1858-1870) corresponde a uma onda de desenvolvimento das vias de comunicação; “abertura da linha férrea, ligando o país à Europa; uso do crédito; extinção dos morgadios; incremento da educação”: [11]

Nas Pupilas…, encontramos José das Dornas, jornaleiro que enriqueceu graças ao trabalho, tornando-se proprietário rural, pondo o filho mais novo, Daniel, a estudar para médico.

Nos Fidalgos…, D. Luís, viúvo, o fidalgo da Casa Mourisca, velho absolutista que seguiu a carreira diplomática – embora a mulher pertencesse a uma família “liberal”, cujo irmão fora um dos “bravos de Mindelo” morto pela Liberdade – vive do passado, da recordação da mulher e de Beatriz (uma filha que falecera jovem). O solar está quase em ruínas, “…como muitos outros ricos fidalgos da província … orgulhosos e imprevidentes… [foram arruinando e desprezando a cultura das terras] com hipotecas e contratos ruinosos…”. [3]

Um dos procuradores, fr. Januário, nada fazia: “feroz absolutista… fr. Januário era quem esperava [o jantar] porque era essa a principal ocupação dos seus dias…”. [3]

Jorge, o filho mais velho de D. Luís: é uma personagem excepcional masculina. Observa o contraste entre a Herdade de Tomé da Póvoa, antigo criado de D. Luís e o solar dos seus antepassados, onde vive: “ela graciosa e alvejante, ele severo e sombrio; de um lado, todos os sinais da actualidade, de trabalho; do outro, o passado, a tradição estéril, a incúria, a ruína, o desperdício…”. [3] Pensativo, deita mãos à obra, vai falar com o Tomé: “- e não será possível sustentar aquela casa na sua queda?

Responde-lhe o lavrador: “entregue-a às mãos de um lavrador… que possa dispor de alguns capitais para os primeiros tempos e verá… Sr. Jorge, resolva-se deveras a ser homem… faça-se económico, trabalhador, vigilante, livre-se da praga dos mordomos e procuradores … e os capitais não faltarão …chegará o crédito…”. [3]

Tomé ajuda financeira e secretamente Jorge a levantar o solar: “não é vergonha um empréstimo… quando se procura satisfazer com lealdade os compromissos que se ajustaram”. [3]

Jorge, pouco a pouco, vai progredindo na sua resolução, ligando a teoria à prática, resistindo às oposições de fr. Januário, do pai. Consegue, a médio prazo, reabilitar o solar.

 

Melancolia e felicidade, suavemente…

Uma edição de Os Fidalgos da Casa Mourisca.

Júlio Dinis sofreu a perda da mãe quando tinha cinco anos; depois, morreu um irmão, devido à tuberculose. Também ele a contraiu e por isso a recordação da infância surge-lhe imbuída de uma felicidade perdida. “A escrita tão abundante – tem 19 anos quando escreveu o primeiro romance – parece ser “uma sublimação do sofrimento” [12]. Todas as suas personagens excepcionais são órfãs.

Algo também surpreendente e original – na altura – é a importância dada à “análise psicológica das personagens” [13]. Há muitos exemplos, mas foquemos a personagem do guarda-livros de Uma Família Inglesa, Manuel Quintino, dando um solitário passeio, preocupado com a filha, Cecília: “…tremia com o susto de a vir achar enferma… dormindo, inquietava-lhe os sonhos; comendo, vertia-lhe fel na comida; trabalhando, distraía a atenção do trabalho… [resolveu passear, mas todos os pensamentos circulavam à volta da sua preocupação]…de maneira que o passeio …aquele que o devia distrair, antes lhe exacerbou o mal”. [3]

“Há sempre um fim feliz, casamentos…”, costuma-se comentar em tom de crítica. Em Uma Família Inglesa, Carlos Whitestone casa com Cecília: aliança da alta burguesia  comercial com a pequena burguesia, tornando-se, antes, Manuel Quintino, sócio dos Whitestone. Nas outras obras, há algo semelhante. Mas, afinal, estes enlaces “são só um meio de que o autor se serve para demonstrar as suas teses” [14] . Ou seja: “o valor moral da compaixão, do amor desinteressado, pronto ao sacrifício, à renúncia; a alegria da vida renovada” [15] ; o optimismo; a aristocracia do trabalho; o direito à felicidade, neste mundo. “É influenciado pelas escritoras inglesas Jane Austen e Georges Elliot.” [16]

Por estes motivos, Júlio Dinis é “o primeiro romancista moderno na nossa literatura” [17]. Discreto, optimista e sublime, bem merece o perfume das violetas, no seu túmulo [1].

 

Bibliografia
[1] expressão baseada numa frase do discurso fúnebre a Júlio Dinis, feito por Pinheiro Chagas, in Diário de Notícias, 18 Setembro 1871, in José-Augusto França, O Romantismo em Portugal.
[3] Obras Completas de Júlio Dinis (Romance: As Pupilas do Senhor Reitor; Os Fidalgos da Casa Mourisca; Uma Família Inglesa; A Morgadinha dos Canaviais).
[2], [4], [6], [7], [11], [13] e [16] – José-Augusto França, O Romantismo em Portugal.
[5] Hugo Pinto Santos, “Júlio Dinis, contra a Ligeireza”, artigo na revista Ler (o artigo cita o comentário de Eça de Queirós a J. Dinis).
[8], [14] Palmira Nabais, Introdução à obra “Uma Família Inglesa”.
[9] Júlio Dinis, Inéditos e Esparsas.
[10], [12], [15] – Maria Lúcia Lepecki, Romantismo e Realismo na obra de Júlio Dinis.
[17] António José Saraiva e Óscar Lopes, História da Literatura Portuguesa.

 

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