“Eu tenho clara uma convicção: quem está do lado dos desprezados, vai ser desprezado também. Quem está do lado dos que apanham, vai apanhar também”. Quem o disse, em entrevista recente, foi o padre brasileiro Júlio Lancelotti, de 77 anos, ordenado há quatro décadas e incardinado na arquidiocese de São Paulo. E ele acaba de “apanhar também”, como tinha antecipado. Talvez não esperasse que quem lhe desse forte fosse o seu próprio bispo, Odilo Pedro Scherer, ao ordenar que desaparecesse das redes sociais.
O padre celebra dominicalmente na capela da Universidade São Judas, na Mooca, zona leste de São Paulo, desde há décadas, transmitindo as eucaristias através de canais como Youtube, TVT e ICL Notícias. Conta com mais de dois milhões de seguidores só no Instagram, sendo considerado uma das pessoas mais influentes no catolicismo brasileiro.
Mas tornou-se conhecido pelo seu trabalho junto das pessoas em situação de vida na rua, e, mais globalmente, de setores pobres e marginalizados pela sociedade. As suas homilias são momentos em que, com frequência, denuncia os “pecados sociais” e anuncia a esperança cristã. É aquilo que os brasileiros designam por um padre progressista e muitos católicos chamariam um padre de Francisco, a “cheirar a povo”.
No início deste mês, o arcebispo Odilo Scherer chamou-o e induziu-o ao silêncio na internet. Não foram dadas explicações públicas. Foi o próprio padre Lancelotti que, no último domingo, dia 14 de dezembro, na missa, deu a conhecer o fim das transmissões, sublinhando que a celebração continuaria, mas apenas presencialmente, na capela universitária.
Dois dias depois, a paróquia de São Miguel Arcanjo, a que a capela pertence e que está sob a responsabilidade pastoral daquele presbítero, emitiu um comunicado confirmando o que já fora dito verbalmente, e fazendo notar que se tratava de “um período de recolhimento temporário” do pároco, durante o qual as redes sociais estariam inativas. No mesmo comunicado, era desmentida a informação de que o padre teria de abandonar a sua paróquia, ao mesmo tempo que ele afirmava a sua “pertença e obediência à Arquidiocese de São Paulo”.
Mal este silêncio foi conhecido, as redes sociais e os grandes média fizeram-se eco do facto, desencadeando-se um clamor, mesmo entre padres e religiosos, por aquilo que é caraterizado como silenciamento de uma voz incómoda. Além da solidariedade com o clérigo, deputados estaduais de vários partidos lamentaram o acontecido.
Por sua vez, 40 organizações que trabalham com “população em situação de rua” enviaram esta semana uma carta ao arcebispo, na qual lhe solicitam que reveja a decisão de suspender as transmissões ao vivo de missas celebradas pelo padre Júlio Lancelotti e as suas intervenções ao vivo nas redes sociais.
Um comentador do canal UOL opinou que o padre Júlio Lancelotti vem sendo objeto de sucessivas campanhas, sobretudo de setores de extrema-direita, que não aceitam o acolhimento que sem abrigo, desempregados, pessoas LGBTQ socialmente marginalizadas encontram naquele clérigo e nas suas intervenções públicas.
Alguns setores católicos da linha de Bolsonaro declararam publicamente que a suspensão de Lancelotti é motivo para festejar, adiantando que a “ditadura” que consideram vigente no Brasil se vai agravar em 2026, à medida que se aproximam as eleições presidenciais. Para eles, o pároco é um herege e há muito deveria ter sido calado e retirado da paróquia,
Nas redes sociais circulam informações segundo as quais foram feitas diversas diligências de deputados estaduais e federais de partidos da órbita do ex-presidente, quer junto do arcebispo, quer do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano quer da Nunciatura Apostólica, acusando o pároco de heresia e até de abusos sexuais.
Segundo declarações do visado, o arcebispo, que ao longo dos anos manifestou mais do que uma vez apoio ao seu trabalho pastoral, terá invocado que o recolhimento e saída do espaço público se destinaria a “proteger” o próprio padre. Não foram, porém, fornecidas justificações quanto aos motivos que levaram o prelado a esta medida, havendo a interpretação de que ele tenha “vergado” perante a pressão sobre a Arquidiocese.
E muitos comentadores levantam a questão: porque foi silenciado o padre que sempre se dedicou às pessoas da rua e que era vigário para a pastoral da rua da Arquidiocese, enquanto vários outros padres brasileiros, que são figuras mediáticas com vários milhões de seguidores e abertamente apoiantes de Jair Bolsonaro, continuam a emitir as suas celebrações e a fazerem os seus ‘diretos’ nas redes sociais?










