Júlio Martín, actor e encenador: O Teatro permite “calçar os sapatos do outro”

| 27 Mar 20

Mensagem para este Dia Mundial do Teatro (27 de Março) fala do teatro como santuário. Várias companhias disponibilizam peças através da internet.

Imagem da peça “Um Acontecimento em Goga”, do TUT. Foto © Francisco Cardoso / MEF (Movimento de Expressão Fotográfica), cedida pelo autor.

 

O actor e encenador Júlio Martín diz que o teatro permite fazer a experiência de “calçar os sapatos do outro”, mantém uma conversa em aberto e, tal como a religião, “faz religar e reler”. E permite ainda fazer a “experiência de calçar os sapatos do outro, como os americanos dizem; sair de mim e estar no lugar do outro, na vida do outro, como ele pensa ou sente”, afirma, em entrevista à agência Ecclesia.

Assinalando o Dia Mundial do Teatro, que se celebra nesta sexta-feira, 27 de Março, a experiência de Júlio Martín, actor e encenador do TUT – Teatro Académico de Lisboa, leva-o a chamar a atenção para uma sociedade individualizada, necessitada de mais diálogo.

“Nesta sociedade tecnológica em que vivemos, que estamos presos a ecrãs de diversos formatos, estamos mais individuais e atomizados mesmo, o teatro proporciona momentos de encontro e de diálogo.” E recorda: “Esta é uma palavra que nasce no teatro.”

Sendo um trabalho de equipa, “mesmo quando é um monólogo”, nunca se está sozinho: fala-se “consigo próprio, com os outros e até com Deus”. O teatro é “comunicação e o bom teatro procura manter uma conversa em aberto; o teatro não dá respostas fechadas, faz perguntas”, diz.

 

Autos de Quaresma, “momentos de passagem e transformação”

Este tempo de Quaresma que vivemos costuma ser rico em encenações e autos da Paixão, que este ano não podem ser repetidos devido ao isolamento social. Esses autos são ocasiões de “aprofundamento humano” e “momentos de passagem e transformação”, como acontecia “em algumas peças que colocavam estas questões de outra forma, falando do que é central na experiência cristã”. 

A própria religião, recorda, tem um lado teatral, “seja no anúncio” na consciência da existência de grandes comunicadores, em pequenos grupos ou multidões. “Eram momentos quase performativos, presenças fortes, de voz, corpo e também de comunicação não-verbal.” O gesto e o olhar lembram o convite: “Vem e segue-me”, recorda.

O actor, que descobriu a paixão pelo Teatro no grupo de jovens, deixou o curso de farmácia e começou a estudar teatro. E nele descobre uma grande ligação ao fenómeno religioso: “Religião e teatro têm muito em comum. Religião vem de religar e o teatro também faz isso e permite reler. É o que se faz com a Bíblia: relemos, descobrimos outras coisas que não tínhamos visto ou não tiveram importância quando lemos” inicialmente.

As artes sempre estiveram presentes na religião, na espiritualidade e evangelização. “Lembramos quadros, esculturas que fazem parte do imaginário cristão”, recorda Júlio Martín, para quem deve haver mais diálogo entre o teatro e o religioso: “Muitas vezes há uma arte cristã que parou no tempo, os artistas estão a precisar que alguém dialogue com eles. Há muitas realidades”, mas, acrescenta, “cada vez que um artista é convidado ao diálogo não recusa”.

Estabelecer esse diálogo e confiança é “dar liberdade ao artista, pois o Espírito sopra onde quer e algo acontece”, acrescenta.

Imagem do filme Acto da Primavera (1963), de Manoel d’Oliveira, que filma um dos autos da Paixão representados no nordeste transmontano.

 

O teatro como santuário

A propósito do Dia Mundial do Teatro, o Instituto Internacional do Teatro publica anualmente uma mensagem. A deste ano foi escrita por Shahid Nadeem, dramaturgo paquistanês, com o título “O Teatro como Santuário”. Escreve Nadeem: “No mundo de hoje, no qual a intolerância, o ódio e a violência estão de novo em ascensão, o nosso planeta mergulha cada vez mais profundamente numa catástrofe climática, precisamos de renovar a nossa força espiritual.” Os actores do TUT fizeram também um vídeo, no qual lêem a mensagem, e que foi disponibilizado no canal Youtube.

Também a pretexto do Dia Mundial do Teatro, e tendo em conta o confinamento social a que a maior parte das pessoas têm de estar em casa, várias companhias começaram a disponibilizar várias das suas produções através da internet. É o caso do Teatro Nacional D. Maria II, que disponibiliza várias peças, incluindo espectáculos para crianças e famílias.

Também o Teatro do Bairro, de Lisboa, disponibiliza a peça Romanceiro Gitano, de Federico García Lorca, bem como o documentário A Baleia Branca, Uma Ideia de Deus, de João Botelho, e ainda a curta-metragem A Que Chamas Pensar, de Margarida Gil.

O Teatro Nacional de São Carlos também possibilita a audição de peças várias gravadas pelos artistas da casa, além de arquivos digitais já disponíveis em outras plataformas. Entre outros, também o Teatro Aberto disponibiliza uma das suas últimas produções, A Verdade, de Florian Zeller.

O teatro será, finalmente, o tema do programa Ecclesia na Antena 1 da rádio pública, no domingo, 29 de Março, às 6h. O programa ficará depois disponível na página da agência.

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