
Cenas como esta têm multiplicado as críticas ao governo birmanês. Foto DR
A organização não-governamental Human Rights Watch (HRW) acusou os militares da Junta que fez o golpe de estado e passou a dirigir a Birmânia de terem recorrido a repressão violenta dos protestos contra o golpe e de terem torturado e assassinado cidadãos feitos prisioneiros.
Este tipo de atos, cometidos desde 1 de fevereiro último, violam as convenções humanitárias internacionais e constituem “crimes contra a humanidade”, refere a ONG, sediada em Nova Iorque, num extenso comunicado.
As Nações Unidas, os órgãos regionais e os governos, incluindo a União Europeia, os Estados Unidos e a Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), devem responder a esta violação sistemática dos direitos humanos “complementando, fortalecendo e coordenando as sanções internacionais contra os militares e a liderança da junta”, sustenta a HRW. Para além das sanções, defende um embargo global de armas e restrições financeiras que reduziriam as receitas da junta com as indústrias extrativas”.
Desde o golpe militar, manifestações em muitos casos multitudinárias encheram as ruas de todo o país para protestar pacificamente pela reposição da legalidade democrática e o respeito dos resultados eleitorais. “Como parte de um ataque generalizado e sistemático à população, nota a Human Rights Watch, as forças de segurança dispararam repetidamente e usaram força excessiva para dispersar e causar danos aos manifestantes”, calculando esta organização em mais de 900 os que foram abatidos pelas forças militares e policiais, incluindo 75 crianças. Mais de uma centena de pessoas, de entre as milhares que foram presas, foram levadas pelos agentes da autoridade, desconhecendo-se o seu paradeiro, de acordo com a mesma fonte.
Os crimes aparentes contra a humanidade cometidos desde 1 de fevereiro incluem, além dos “assassinatos e desaparecimentos forçados, tortura, estupro e outras formas de violência sexual, privação severa de liberdade e outros atos desumanos que causam grande sofrimento”.
O comunicado da organização detalha ainda situações que, segundo o seu entendimento e a legislação internacional, configuram o que designa por “crimes contra a humanidade”.
Já não é a primeira vez, lê-se no documento, que os militares birmaneses cometeram este tipo de crimes. Isso terá acontecido contra a população de etnia Rohingya em 2012-2013 e novamente em 2017, como parte de campanhas de limpeza étnica.
Conflito armado, fome e emergência sanitária

O cardeal charles maung bo deixou apelos à paz. Foto © Direitos Reservados
O cardeal Charles Bo, arcebispo de Rangum e presidente da Conferência Episcopal da Birmânia acaba de lançar um “grito desesperado”, chamando a atenção para o rápido agravamento das condições de vida da população do país.
O surgimento de combates entre milícias armadas de resistentes e militares da Junta militar levaram à rutura de circuitos económicos e de abastecimentos, o que trouxe a fome, agora agravada com o recrudescimento da pandemia da covid-19.
“Estamos em tempos apocalípticos” alertou o cardeal. Em algumas semanas os casos de contágio triplicaram, havendo mais de 185 mil pessoas hospitalizadas. Necessita-se a todo o custo de garrafas de oxigénio para tratar os contagiados nas suas casas, dado o congestionamento dos hospitais e “longas filas nos cemitérios”, refere a agência católica italiana SIR.
“Imploramos àqueles que nos governam: sede bons pastores, salvai o nosso povo ”, apelou o cardeal que, em todo o caso, considerou também que, “se não houver paz, centenas de pessoas serão enterradas todos os dias”. “Não podemos permitir conflitos; faço um apelo mais uma vez: a paz é a única vacina contra aquilo que está a transformar-se num apocalipse de morte e doença”, acrescentou o arcebispo.










