Um dos fundadores da organização não governamental Força de Paz Não-violenta, Mel Duncan, lançou um apelo a interessados em permanecerem um período de tempo na Palestina, em trabalho de proteção desarmada de civis.
“Junte-se a nós na Palestina”, escreve Duncan. “Precisamos de pessoas no terreno, neste momento, especialmente durante a colheita da azeitona e [em que ocorrerão] as eleições israelitas, para prestar proteção direta às famílias palestinianas que vivem sob cerco diário”, explica aquele ativista.
“Esta é uma oportunidade para pôr em prática a mensagem do Papa Leão sobre a ‘Paz Desarmada e Desarmante’”, sublinha ele, apelando a que haja quem dê “o próximo passo” e se inscreva através de um formulário que, entretanto, disponibilizou para aqueles que possam considerar aderir ao Projeto de Proteção Civil Desarmada na Palestina (UCPiP, na sigla em inglês).
Por sua vez, a fundadora do movimento Mulheres pelo Fim da Guerra e dirigente da UCPiP, Amira Musallam, uma cristã que superintende esse trabalho de proteção na Cisjordânia, acaba de divulgar uma mensagem dirigida a amigos israelitas, a propósito de um feriado hebraico que recentemente ocorreu. Amira lembra que, sempre que ocorrem feriados desse e de outro tipo, as pessoas viajam, as famílias juntam-se e celebram com alegria. Enquanto isso, do lado palestiniano, enfatiza ela, trava-se em permanência uma dura luta para proteger as casas dos familiares e amigos ou de gente indefesa.
O que aconteceu no dia anterior ao da mensagem, relatado no Instagram, é o perfeito contraste com o clima festivo em Israel. Tudo se passou no trajeto entre Massafiriata e o norte de Nablus e Jenin, na Cisjordânia. “Foi o pior que vivemos talvez nos últimos 70 anos da nossa vida na Palestina”, nota Amira Musallam. “Havia ataques por todo o lado, ao longo das principais estradas partilhadas, que se supõe serem para israelitas e palestinianos que conduzem”. Verificaram-se ataques a carros e casas em que havia crianças, incluindo um bebé que foi ferido.
Aquela ativista relata, depois, o que ocorreu na aldeia de Jalood, perto de Nablus. Uma família tinha sido expulsa um mês antes por colonos que a atacaram, cortaram a água e a eletricidade, impediram quem quer que fosse de se aproximar, pressionaram-na a abandonar a casa, ameaçando todos os seus membros de morte. Quando a família saiu, os colonos apoderaram-se da habitação. Então a família dirigiu-se ao Supremo Tribunal porque levava consigo toda a documentação que comprovava que ela era a proprietária legal da casa e das terras. Ganhou o caso, tendo o Tribunal decidido que ela deveria retomar o controlo do que era seu.
Como os colonos não aceitassem sair, foram queixar-se à polícia que lhes garantiu que não teriam problemas em entrar no que era seu. Perante a situação, os colonos atearam fogo a todas as casas e carros daquele local, sem que nenhuma autoridade comparecesse. No dia seguinte, a polícia onde tinha sido feita a queixa emitiu um pedido de desculpas por não ter conseguido proteger as famílias.

Colheita de azeitona na aldeia palestiniana de Battir, Cisjordânia, em 2020: a campanha de apanha que vem aí também exige resistência pacífica. Foto © WCC/CMI.
“Este comportamento é mentiroso, já que são eles que abrem caminho aos ataques dos colonos. O próprio governo é cúmplice e chega a financiar estes atos terroristas. É preciso, por isso, deixar de chamar-lhes colonos, porque de facto são terroristas, com o apoio do Estado”, afirma Amira.
Ela alude ainda a um vídeo que lhe chegou naquele mesmo dia, que considera ilustrativo da situação que os palestinianos estão a viver. Nas imagens, via-se uma idosa que teria talvez uns 80 anos e estava sozinha na sua casa. Os invasores arrombaram a porta, entraram e apesar de verem que se tratava de uma pessoa idosa que nem se conseguia movimentar, ainda assim, bateram-lhe.
A responsável que tenta animar a resistência por meios não violentos, considera que “já não há palavras para descrever o que ali se passa”. “E se o mundo continuar a limitar-se a condenar e a fazer declarações sobre a violência dos colonos [sem adotar outras medidas] dentro de alguns meses já não estaremos cá”, conclui.










