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autores - Elsa Vivo

Kafka e os desafios do Papa Francisco

| 02/08/2024

Kafka .Metamorfose

“Quando certa manhã, Gregor Samsa, acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”.

A primeira semana de agosto marcará um ano após as Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) em Lisboa. Este ano, 2024, celebramos o centenário do falecimento de Frank Kafka, um notável escritor nascido em Praga cuja obra foi fundamental para retratar a sociedade moderna. As suas obras atravessam as fronteiras do tempo, permitindo-nos — ainda hoje – refletir sobre os limites da humanidade com a mesma perspicácia e profundidade que ele escreveu e desvendou no seu próprio tempo. Enquanto isso, a Igreja Católica já nos orienta para o Jubileu de 2025 em Roma. Este cruzamento de tempos, entre recordações e preparações, deve-nos instigar a serenar por momentos e a refletir sobre a sociedade atual.

Intitulada “A esperança não engana”, a bula de proclamação do Jubileu de 2025, convoca-nos a sermos peregrinos da esperança, que é o tema central do Jubileu, pois é pela esperança que poderemos ser luz, alegria e tranquilidade para os que mais precisam. Esta mesma esperança é dada a todos desde a Criação, mesmo que alguns ainda não a reconheçam e deve ser vista como ponto de partida para nos fazer sonhar por um mundo melhor e mais fraterno. O desejo de paz no mundo, a fraternidade entre todos os povos, a preocupação com a pobreza e com os marginalizados têm sido algumas das chaves-mestras dos discursos do Papa Francisco, e bem! Deste modo, penso que os desafios à sociedade que tem lançado durante o seu papado são muito importantes. Apresenta a sociedade como “escrava da cultura do descarte” e que necessita de ação para combater a indiferença, tal como referiu, em Portugal, durante a JMJ 2023 no seu discurso às figuras de estado portuguesas.

Não é novidade que os últimos anos têm sido bastante atribulados e desafiantes a nível económico, político, ideológico e social; passaram-se pandemias, guerras, inflação, crises migratórias no Médio Oriente e muitos outros problemas distantes dos holofotes dos noticiários. Consequentemente, a nossa saúde mental e a nossa resposta aos problemas do mundo transformaram-se. Em virtude dos tempos, a sociedade tornou-se cada vez mais individualista e indiferente ao problema do outro. Nesse sentido, o Santo Padre tem alertado e incentivado a luta da nossa sociedade para que os pobres, doentes, idosos e mulheres sejam incluídos na sociedade; não descartados, afastados ou ignorados. Sei que sempre houve muita pobreza, muitas pessoas a passar necessidades, mas cada vez mais se vê pessoas a sentir falta de ter com quem falar. Parece-me que um dos maiores flagelos da sociedade de hoje é a solidão.

A solidão, a dimensão humana, a relação entre o indivíduo e a sociedade são temas muito recorrentes e bem trabalhados na obra de Frank Kafka. Especialmente, naquela que poderá ser a sua obra mais conhecida: A Metamorfose ou, com título original, A Transformação. A narrativa é simples, curta e contundente; talvez a sua mensagem, que oferece profundidade de temas e reflexões, seja um dos motivos para que se tenha tornado um marco da literatura moderna e para continuar a ser analisada por todo o mundo. O romance kafkiano foi publicado pela primeira vez em 1915, e tem a particularidade de ser uma das poucas publicações que Kafka fez em vida. Realmente, o período em que foi escrito — entre a última década do século XIX e a primeira década do século XX — marca uma grande transformação de ideias e valores que são refletidos na escrita. Assim, esta obra tem fortes inspirações do simbolismo alemão e reflete a alienação e desumanização da sociedade moderna. Não obstante, a obra continua bastante atual e suscita várias interpretações e reflexões a pessoas de diversas idades e preferências.

De entre as várias leituras, ensaios e referências que podem surgir d’A Metamorfose, não considero necessária – embora aconselhável – a leitura da obra para compreender a relação entre a metáfora de Kafka e os desafios deixados pelo Papa Francisco. Para melhor exemplificar esta relação, partiremos da frase inaugural:
“Quando certa manhã, Gregor Samsa, acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”.

O que seria de nós, tal como Gregor Samsa, se da noite para o dia acordássemos e nos víssemos transformados e condicionados pelas adversidades da vida e toda a nossa rotina fosse interrompida? A partir desta frase, a narrativa desenrola-se numa gradação bastante sufocante, terminando de forma miserável e fatal. Samsa, que antes era o provedor do seu lar, transforma-se num fardo e a sua morte “natural” (digo natural porque com a sua nova estrutura está impossibilitado de se alimentar) traz alívio para a sua família.

Não me distanciando do assunto, interpelam-me aqui duas ideias sobre o sentido da vida. Primeiro, e talvez a mais vulgar, surge aqui a perceção de que a vida deve ser aproveitada porque a qualquer momento pode chegar ao fim. Segundo, temos a noção de que o valor de uma pessoa é intrínseco. Pois bem, Gregor Samsa deixou de ser relevante ou útil para a sua família na medida que deixou de produzir ou sustentar a família. Alguns críticos apontam uma reprovação do capitalismo; mas a mim faz-me refletir sobre a dignidade humana e o seu valor que não são mensuráveis, muito menos por aquilo que se possui. E, fazendo a ponte com os valores sociais e morais da Igreja Católica, a dignidade humana é um princípio central da sua doutrina, tal como o Papa tem frisado: todos os seres humanos possuem valor intrínseco e intransmissível independentemente de etnia, género, condição económica ou estado de vida. (Cf. Compêndio da Doutrina Social da Igreja —132-134)

Agora e sempre a dignidade humana não pode ser ignorada. “Todos, todos, todos” devem ser respeitados e auxiliados na medida das suas necessidades, mas nunca descartados ou marginalizados. Sem destoar do nosso exercício de reflexão, considero que a grande “metamorfose” que todos enfrentamos é o próprio processo de envelhecimento.

Assim, os idosos, os mais velhos e os doentes são as principais vítimas da cultura de descarte. Faço um apelo a todos nós, desafiados pelas palavras do Papa Francisco e pela obra de Franz Kafka, para que lutemos por condições dignas para os idosos e doentes, garantindo cuidados continuados e ousando dizer um firme “não” à eutanásia!

Ainda é possível que, na nossa vida, num dado momento, após situações intranquilas, possamos ficar transformados em realidades monstruosas que a sociedade descarta. Vejamos: a um determinado momento posso sofrer um acidente e ficar tetraplégica, afastando-me de toda a animação e acessibilidade que antes a minha condição conseguia acompanhar; a qualquer instante, uma debilidade de saúde pode obrigar-me a ficar acamada e, se ninguém me visitar, estarei condenada à solidão; se não conseguir emprego ou se o que ganho não for suficiente para pagar a renda, ficarei desalojada, pobre e sem recursos. Poderíamos pensar em muitos outros casos e situações que nos surpreendem pela sua imprevisibilidade e que nos tiram do lugar de destaque, sucesso ou meramente respeitável e condenam-nos a um espaço de “descarte”, onde somos ignorados e desprezados.

Espero que a vida não me seja tão traiçoeira como a Gregor Samsa e eu faça esforços para não me transformar num imprevisível “inseto monstruoso”. Concluindo, lanço aqui um desafio aos tempos atuais, seja com base na literatura ou na religião, para que comecemos a preocupar-nos mais com os problemas do mundo e a estimar a dignidade humana.

 

Elsa Vivo é jovem estudante de Estudos Portugueses na FLUL e catequista na paróquia de Queluz. 

 

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