Os meios de comunicação social podem – e devem – desempenhar um papel decisivo na promoção da coexistência entre comunidades religiosas e culturais, mas continuam a privilegiar frequentemente narrativas de conflito e sensacionalismo que em nada contribuem para isso. A conclusão é de um novo documento divulgado pelo KAICIID (Centro Internacional de Diálogo, com sede em Lisboa), que defende uma relação mais estreita entre o jornalismo e os esforços de diálogo inter-religioso.
Intitulado Media for Peace: Peacebuilding Through Interreligious Dialogue (“Média pela Paz: Construção da Paz através do Diálogo Inter-religioso”), o documento foi elaborado no âmbito do programa de bolsas em jornalismo do KAICIID para a região árabe e procura demonstrar como os média podem contribuir para a coesão social, a prevenção de conflitos e a construção de sociedades mais inclusivas.
Uma das principais conclusões do relatório é que as narrativas mediáticas que apresentam conflitos políticos sob uma perspetiva religiosa ou que privilegiam o sensacionalismo acabam por prejudicar o trabalho desenvolvido por líderes religiosos, instituições e organizações da sociedade civil em favor da compreensão entre diferentes comunidades. O documento de 17 páginas alerta ainda para o impacto amplificador das redes sociais na disseminação de discursos de ódio.
“A construção da paz não pode permanecer confinada a salas de conferências, documentos de política ou espaços formais de diálogo”, afirma Waseem Haddad, gestor sénior de programas do KAICIID para a região árabe, em comunicado enviado ao 7MARGENS. Para o responsável, os jornalistas devem ser vistos não apenas como observadores dos conflitos, mas como atores capazes de ajudar as comunidades a compreenderem-se mutuamente, a contestarem narrativas prejudiciais e a criarem espaço para a coexistência.
O relatório sustenta que os média não são meros transmissores de informação, mas agentes que influenciam diretamente a forma como as sociedades percebem a diversidade religiosa e cultural. Por isso, argumenta, as escolhas editoriais podem contribuir tanto para aprofundar divisões e preconceitos como para criar condições de diálogo e entendimento.
Muitos avanços no diálogo inter-religioso, mas pouca divulgação

A capa do relatório.
Baseado numa revisão sistemática da literatura especializada e em entrevistas a profissionais dos média, líderes religiosos e especialistas em processos de paz, o documento identifica três funções centrais para os meios de comunicação: tornar mais acessíveis e compreensíveis conceitos teológicos complexos, aproximar comunidades religiosas e étnicas e dar visibilidade a iniciativas locais de construção da paz.
Os autores chamam também a atenção para um paradoxo: apesar dos avanços alcançados nas últimas décadas no campo do diálogo inter-religioso, muitos deles permanecem praticamente desconhecidos do público. Declarações e iniciativas internacionais em defesa da cidadania comum, da liberdade religiosa e da proteção das minorias raramente chegam ao quotidiano das pessoas, em parte porque os média não conseguem traduzir esses processos em narrativas acessíveis e relevantes.
Os autores observam ainda que, nas últimas décadas, foram produzidos importantes consensos entre líderes religiosos de diferentes tradições, mas que esses avanços permanecem frequentemente confinados aos círculos especializados. O relatório cita como exemplo o Documento sobre a Fraternidade Humana para a Paz Mundial e a Convivência Comum, assinado em 2019 pelo Papa Francisco e pelo Grande Imã de Al-Azhar, Ahmed Al-Tayeb, considerando que os meios de comunicação poderiam desempenhar um papel muito mais ativo na divulgação e contextualização deste tipo de iniciativas.
O relatório do KAICIID critica a predominância de uma lógica mediática centrada no conflito e na procura de audiências. Num contexto marcado por guerras, polarização política e tensões identitárias, as notícias de confronto tendem a eclipsar histórias de cooperação, diálogo e reconciliação. E a crescente pressão comercial sobre os meios de comunicação favorece frequentemente conteúdos sensacionalistas em detrimento de relatos sobre iniciativas de construção da paz, assinalam os autores do texto.
Mas que não restem dúvidas: “A necessidade de fontes de informação fiáveis é crítica para uma paz sustentável e para a coesão social. O mau jornalismo pode alimentar hostilidades interétnicas e oferecer uma plataforma ao discurso de ódio”, pode ler-se no documento.
Quanto ao “discurso de ódio” que “é praticado por figuras públicas, cidadãos comuns e jornalistas”, alcança audiências mais vastas nas redes sociais e “pode ter consequências desastrosas”, sublinham os autores.
Mas há esperança. Maya Sukar, responsável de programas do KAICIID para a região árabe, considera que os jornalistas dispõem de um potencial ainda pouco explorado para promover uma melhor compreensão da diversidade religiosa. “Este documento constitui um apelo à ação dirigido a jornalistas, editores, instituições religiosas e decisores políticos para que construam um novo tipo de parceria, que coloque a paz no centro da missão editorial”, afirma.
Entre as recomendações apresentadas no relatório para que tal seja possível estão o reforço da formação dos jornalistas em matérias relacionadas com o diálogo inter-religioso e intercultural, a criação de espaços dedicados a estes temas nos meios de comunicação social, o desenvolvimento de competências para a cobertura de conflitos sensíveis e a adoção de políticas públicas e legislação mediática alinhadas com os princípios da coexistência e da construção da paz.
Porque “ao adotar um jornalismo ético e ao amplificar narrativas construtivas que destaquem a diversidade religiosa e cultural, as instituições de comunicação social podem ajudar a normalizar o diálogo inter-religioso e a fomentar uma cultura de paz”, conclui o relatório.










