
‘ “Ela representa grande parte da história religiosa dos americanos, porque o problema é o seguinte: ninguém mais cresce em linha reta no que diz respeito à religião na América”, disse Anthea Butler, professora de religião na Universidade da Pensilvânia.’ Foto retirada do Facebook oficial de Kamala Harris.
Os acontecimentos sucedem-se, no turbilhão que tem sido o processo conducente à escolha do novo presidente dos Estados Unidos da América (EUA). Em poucos dias, o candidato Trump sofre um atentado, apresenta na Convenção dos Republicanos o nome de J.D. Vance para a vice-presidência; Biden sucumbe à pressão pública e, em nome do interesse do país, desiste da recandidatura e lança na corrida a sua vice-presidente, Kamala Harris. Os dados, que pareciam já lançados, são relançados, criando a ideia de que tudo continua em aberto.
Como é caraterístico de um país em que religião e política andam de mãos dadas, a posição de cada protagonista desta corrida perante o facto religioso não é matéria secundária. Ainda na última sexta-feira, 26, Donald Trump dedicava a intervenção num dos comícios na Florida ao tema da religião, assumindo-se como “protetor das confissões religiosas” no país e acusando os democratas e, em particular Kamala Harris, de ser uma “inimiga dos cristãos e especialmente dos católicos”.
De resto, a figura que escolheu para o acompanhar na vice-presidência é um recém-convertido ao catolicismo, que há poucos anos desfiava críticas contundentes contra as ideias e a mundivisão de Trump e se tornou, entretanto, um seu apoiante fervoroso.
Joe Biden, por sua vez, é assumidamente um católico praticante, ainda que a sua política belicista e os seus posicionamentos em matérias de moral estejam por vezes longe das posições oficiais da Igreja Católica.
E quem é, afinal, Kamala Harris, do ponto de vista religioso e que impacte isso poderá ter na vida pública? Que se pode esperar de um eventual mandato, caso venha a ser aceite como a candidata oficial dos democratas à sucessão do presidente Biden e venha a ganhar a eleição de 4 de novembro próximo? O que esperar daquela que poderia vir a ser a primeira mulher presidente e a primeira mulher negra em tais funções?
Apesar de ter sido, em anos recentes, uma figura de primeiro plano na equipa de Biden como vice-presidente dos EUA, Harris é relativamente desconhecida, visto que exerceu a função de forma relativamente apagada, nomeadamente quando apreciada do exterior do país.
Desde que Biden endossou o seu nome, em 21 de julho último, e que ela aceitou esse apoio, as atenções concentraram-se na sua pessoa, no seu currículo, na sua trajetória profissional e política. Era inevitável que a dimensão religiosa fosse passada igualmente a pente fino.
Nas vésperas da eleição presidencial de 2020, em declarações publicadas pelo Religion News Service, ela explicou como tudo começou, na sua vida:
“O meu percurso de fé começou quando eu era uma garotinha. Aos domingos, a minha mãe vestia a minha irmã Maya e a mim com as nossas melhores roupas de domingo e mandava-nos para a Igreja de Deus da 23ª Avenida em Oakland, Califórnia, onde Maya e eu cantávamos no coral infantil”. “Foi aí que formei algumas das minhas primeiras memórias dos ensinamentos da Bíblia. Foi onde aprendi que a ‘fé’ é um verbo e que devemos vivê-lo e mostrá-lo na ação”, acrescentou.
Interessante é perceber que a mãe de Kamala era uma imigrante originária da Índia, que quis que ela se inserisse numa igreja local, sem deixar de a colocar em contacto com as tradições hindus. Mais tarde, já adulta, Harris integrou uma igreja Batista Negra, em São Francisco, e, quando conheceu o advogado de Los Angeles, Douglas Emhoff, com quem viria a casar, começou a descobrir com ele, que frequentava uma sinagoga reformista, as tradições e celebrações judaicas.
Em todas estas experiências ele foi consolidando a compreensão de que “a fé não é apenas algo que expressamos na igreja e na reflexão em oração, mas também na maneira como vivemos as nossas vidas, fazemos o nosso trabalho e buscamos aquilo a que somos chamados”.
Ao longo dos últimos anos como vice-presidente, Kamala Harris introduziu na Casa Branca o ritual de acender velas de Hanukkah e a celebração do Diwali, o festival hindu das luzes.
“Ela representa grande parte da história religiosa dos americanos, porque o problema é o seguinte: ninguém mais cresce em linha reta no que diz respeito à religião na América”, disse Anthea Butler, professora de religião na Universidade da Pensilvânia, citada num artigo do Religion News Service publicado pelo National Catholic Reporter. Poucos americanos mais jovens, disse Butler, têm apenas uma linhagem religiosa herdada dos pais. Cada vez mais, os americanos escolhem uma identidade religiosa diferente para si próprios e podem mudar novamente de rumo à medida que casam entre si, interagem e apoiam um parceiro de uma fé diferente.
Estas múltiplas influências que configuram aquilo que tem sido designado por “identidade multirreligiosa”, são, afinal, também comuns ao candidato republicano a vice-presidente, uma vez que Vance cresceu como protestante, tornou-se ateu e casou com uma mulher hindu, antes de se converter ao catolicismo.
Um ponto interessante a considerar neste âmbito é como se posicionará o voto dos católicos, profundamente dividido desde os anos 70, essencialmente por causa das questões do “direito à vida” ou dos direitos das comunidades LGBTQ. Sendo certo que o católico Biden estará fora de jogo e que Trump foi escolher um católico conservador para a sua ‘lista’, quem irá Kamala Harris escolher para vice-presidente, sendo que ela não só não tem pontes com o universo católico como tem posições muito vincadas nas matérias mais sensíveis para o catolicismo estadunidense? Talvez a convenção democrata, dentro de 15 dias, permita perceber o sentido da resposta.









