Moçambique: tradições e costumes

Kudzunguliça ndzava, um ritual lourenço-marquino?

| 19 Set 21

Calane da Silva

Calane da Silva (1945-2021),”um renomado professor, jornalista, declamador e escritor moçambicano.”  Foto © Magazine Independente Moçambique (online).

 

Escrevo este texto na altura em que estou a ler Nyembête ou as cores da lágrima, romance da autoria de Calane da Silva (1945-2020), um renomado professor, jornalista, declamador e escritor moçambicano. Um dos rodapés da página 17 chamou-me a atenção e li: “Ku djungulissa: cumprimentar. Verbo que significa cumprimento tradicional ronga. É um cumprimento, normalmente prolongado. Cada uma das partes narra, respectivamente, os factos ocorridos durante todo esse período de ausência, enquanto a outra acompanha com monossílabos de assentimento até que chegue a sua vez. São autênticas narrativas orais e instrumento de comunicação entre pessoas; djungulissana: troca de cumprimentos; djungulissar: neologismo (aportuguesamento) feito a partir do verbo ku djungulissa.”

Utilizo a palavra kudzunguliça, com recurso a duas grafias, conscientemente. Isso é uma marca típica de acordos ortográficos em andamento, mas, também, uma marca de que, quando se trata de línguas banto, uns escrevem-nas de modo aportuguesado – com os sons que lembram a língua portuguesa – e outros, não. No caso deste texto, na citação a palavra está escrita de modo aportuguesado e, no caso do meu título, tentei representá-la, com recurso ao que me parecem ser os seus sons originais no ronga. Nunca vi escrito, numa palavra, uma sequência das consoantes “ss”, nas línguas moçambicanas que conheço.

A leitura do referido romance vinha mesmo a calhar, porque, em tempos li O Domador de Burros, obra de um outro escritor moçambicano, Aldino Muianga, um exímio contista, diga-se. É médico e escritor. Tem escrito muito sobre os subúrbios da antiga Lourenço Marques, actual Maputo. Dessa obra ecoa sempre, em minha mente, a estória que o autor narra sobre “o ritual da cumprimentação”, longo, na sua óptica (dentro da narrativa) e no que, de facto acontece na vida real. É algo que já me propus escrever em 2003, quando li a obra e a coloquei em debate no programa que eu coordenava na casa do Graal, “Tertúlias de sábado” e nunca mais o tinha feito.

Há dias voltei a falar com ele. Fazia tempo que não dialogávamos sobre a literatura moçambicana – desde o ano 2005, quando me concedeu uma entrevista no “Letra Viva”, um programa que apresentei na Televisão de Moçambique.

Da retoma dessas conversas contei a Aldino Muianga sobre a minha antiga vontade em escrever sobre o ritual e ele afirmou:

Adorei a tua iniciativa de te lançares nesse projecto de pesquisa sobre o “ndzava”. Vai ao encontro do grande sonho de divulgação da história do subúrbio, porque cruzava informações de um bairro para o outro num espaço de tempo muito curto, ao longo das jornadas para os mercados, nas igrejas, nos ajuntamentos em cerimónias como baptizados, casamentos, funerais, etc.

Na tua pesquisa podes aproveitar outras linhas como as agremiações étnicas, como os Clubes Gazense, Inhambanense, o Beira-Mar (predominante ronga). E não só: havia grupos de cantores e músicos que divulgavam as culturas dos seus lugares de origem, de bairro em bairro. Cito o Grupo “Rádio Mundial” de Inhambane, os Marinheiros de Zavala, o Chigubo da Manhiça e Marracuene. E tantos outros. Estes grupos interagiam, estabeleciam elos culturais e representavam elos de comunicação comunitária. Sem o saberem, construíam o embrião de uma nação que se visualizava distante, mas sonhada. (…).  As fontes vivas para a tua pesquisa estão a escassear. São pessoas acima dos 70/80 anos com tendência ao desaparecimento. Usa essas fontes para eternizar a nossa História.

Foi desta conversa que me recordei que, em 2016, a convite de Luís Bernardo Honwana, o “pai” do conto moçambicano, autor do livro Nós Matamos o Cão Tinhoso, obra de 1964, fiz parte de uma pesquisa sobre o kudzunguliça. Nessa altura, participei como entrevistadora das idosas reunidas pela sua mãe, uma mulher carinhosamente chamada por vovó Nely. Ela nasceu em Novembro de 1920. É autora de uma obra de cariz biográfica, intitulada Mahanyela: a vida na periferia da grande cidade. Nesse livro, conta as suas vivências nos subúrbios da cidade de Lourenço Marques.

Nesse levantamento que fiz (na verdade éramos um grupo de pesquisadores), a vovó Nely juntou o seu irmão e algumas das suas amigas, cujos anos de nascimento são: 1925, 1937, 1945 e 1949.  Ela era a mais velha. Pudemos, então, sorver as suas explicações sobre a ndzava. A amostra era boa, porque diversificada. Havia entre os declarantes changanas e rongas. Foi um chá memorável. Diziam eles sobre esse ritual:

O kudzunguliça ndzava é um “ritual de cumprimentação” entre duas pessoas. Pode ser realizado num contexto em que haja mais gente. O ritual começa com o dono da casa (se se estiver numa casa) ou com uma das pessoas (se for na rua) a cumprimentar a outra, em função da hora que for e passa a perguntar como é que a outra pessoa está. Há uma performance na qual um vai falando (dizendo como é que está ele, a sua família e as pessoas que vivem ao seu redor ou as que representa) e o outro, responde umm, ummm; depois há uma troca de papeis. O umm significa sim e é um modo de se mostrar atento ao que é dito.

Estando outras pessoas no grupo, a palavra é passada para elas através da expressão: hiyoleyo ndzava, significando grosso modo: aí está a informação sobre nós, nossas famílias e todos com que convivemos. E os outros respondem: hiyikumile, recebemo-las. Nesse ritual, fala-se em primeira instância sobre a saúde das pessoas, sobre falecimentos, nascimentos e outros assuntos sociais. Julgo ser daí que Aldino Muianga afirma que se forma o embrião do que é uma nação. Sendo um acto demorado, há muito o que se diga.

Do grupo de entrevistados, um teve o cuidado de informar que, ainda que demorado, são só pistas que são lançadas, para serem retomadas ao detalhe numa outra altura. Uma outra entrevistada deu um pormenor interessante ao referir que nesse ritual são também utilizadas expressões idiomáticas. Deu o exemplo de duas, que vale a pena partilhar: fwi txiwana fwi zwala mabadji na fwi ti fambela, swiku pfo pfo, pfo. Traduzindo à letra: as crianças carregam ou vestem os seus casacos e vão andando, para significar que as crianças estão bem ou, mesmo não estando, vão se conseguindo aguentar. As palavras pfo, pfo, pfo são onomatopeias que indicam os passos dados por crianças. A outra expressão é a swi patuana fswa pfweka, os patinhos estão bem, ou seja, as crianças estão bem. Uma outra entrevistada referiu que o facto de, nos dias que correm, as pessoas se cumprimentarem de modo apressado, não lhe parece bem. Deu o exemplo de uma vizinha que adoeceu, numa altura em que a entrevistada se encontrava a fazer uma obra de manutenção do edifício da sua casa. O trabalho fez muito barulho, o que levou a que um familiar da vizinha fosse reclamar, informando que o seu familiar doente não aguentava mais com o barulho. Na óptica da entrevistada, um ritual de cumprimentação que vá para além do “passou bem?”, poderia ter evitado esse constrangimento.

Os entrevistados distinguiram esse “ritual de cumprimentação”, afirmando que o modo de fazer dos ronga difere ligeiramente do dos changanas, na medida em que, entre os rongas, o ritual é realizado logo que se chegue a uma casa; enquanto que entre os changanas, a pessoa chega a uma casa e, se os moradores estiverem a cuidar do comer, continuam a fazê-lo e só depois que terminem de o fazer, só depois da refeição ter terminado é que fazem o ritual de cumprimentação, para saber a que é que o visitante foi. A explicação para a demora em fazer o ritual tem a ver com a ideia de que, se o visitante leva uma má notícia, convém que se passe a refeição primeiro, para depois saber-se como proceder para resolver o acontecimento narrado por ele, visitante.

Um outro pormenor interessante é o de que, se se tratar de uma reunião entre famílias – como por exemplo aquele no qual se deve falar sobre o casamento de um dos filhos – o elemento mais velho na família que recebe os visitantes em sua casa deve escolher um homem e uma mulher que vá realizar o ritual em representação da família. Depois de se receber os visitantes é que se decide qual dos dois é que falará, porque, ao chegarem à casa visitada, há um grupo que recebe os visitantes e muito rapidamente se deve “observar os sinais”, para tentar perceber quem é o responsável pelo grupo de visitantes. Se se verificar tratar-se de uma mulher, o representante da casa acolhedora será uma mulher e, se se tratar de um homem, o representante da casa acolhedora será o homem previamente escolhido. As coisas não são feitas à toa. Há hierarquias, sequências e performances a serem seguidas.

De um modo geral, os entrevistados lamentam a perda desse hábito, em detrimento de uma cumprimentação superficial na qual as pessoas, nem se quer se sentam para se cumprimentarem, nem sequer se olham na cara. Vive-se um exacerbado corre-corre.

Soube, aquando da escrita deste texto que, à moda dos machaganas, os bitonga também fazem o seu ritual: após terem recebido o visitante, o terem acomodado se for caso para pernoitar e só no dia seguinte, logo de manhã muito cedo é que se faz o ritual, de modo a que, havendo procedimentos a realizar, sejam abordados no momento ideal, o do começo do dia.

 

Sara Jona Laisse é docente de Técnicas de Expressão na Universidade Católica de Moçambique, delegação de Maputo e membro do Graal, Movimento Internacional de Mulheres Cristãs. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

 

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