Esta é daquelas coincidências que não poderia escapar à lógica do meu pensamento e a esta minha mania de fazer associações entre acontecimentos, encontros e situações do quotidiano, é o meu já conhecido “nada acontece por acaso”.
A poucos dias do fim-de-semana em que o Sporting iria enfrentar o Benfica num dérbi quase decisivo e carregado de tensão, o mundo conhecia o novo Papa: Leão XIV. Eram dois acontecimentos à primeira vista sem ligação – um jogo de futebol em Lisboa e uma eleição papal em Roma – mas eram ambos marcados pela mesma letra e pela simbologia: o leão.
Assisti ao dérbi com a atenção de quem sabe que, desta vez, há mais em jogo do que apenas os três pontos. O Sporting entrou em campo com a atitude esperada – combativo, orgulhoso, desafiador – com a consciência do que representa e daqueles que representa.
Enquanto os leões lutavam pela vitória na Luz, perante uma multidão eufórica a pedir golos, entrou-me pelo pensamento adentro um outro “leão”, o da Praça de São Pedro, que havia surgido à varanda com um ar sereno, contemplativo, mas carregado de presença efetiva: Habemus Papam, e ali estava o Papa Leão XIV, também ele perante uma multidão entusiasmada e emocionada, que permanecera em suspenso, em espera, desde a morte de Francisco.
Quando ouvi o nome Leão XIV, confesso que estremeci. Os papas mais recentes tinham nomes comuns, de pessoa: João XXIII, Paulo VI, João Paulo I e João Paulo II, Bento XVI, Francisco, mas Leão… Leão não é um nome qualquer, é o nome de um animal. Pensei de imediato: estamos tramados, um Papa com este nome deve vir do sótão, a sacudir o pó e a cheirar a mofo, lá vamos nós para viagens ao passado. No entanto, havia qualquer coisa na minha memória sobre Leão, e não era o Sporting. Chamei o Google e eis que surge o antecessor, Leão XIII: o Papa da Encíclica Rerum Novarum, um pensador social que abriu as janelas ao mundo moderno, estávamos salvos: este Papa parece ter vindo encarnar a tradição, mas com um pé no futuro.
Há algo de simbólico nos pequenos gestos e a nossa condição humana leva-nos sempre a esses lugares mundanos: Leão XIV, ao que parece, recusou os sapatos vermelhos. Um detalhe? Talvez, mas também pode ser sinal de um caminho que privilegia a humildade, o essencial, o caminhar ao lado. Fui saber mais do percurso de vida do atual Papa (bendito Google!): missionário no Perú, bispo em Chiclayo, homem das periferias, alguém que conhece o cheiro da terra e que viveu longe dos holofotes.
Voltei ao jogo. Lá estava o Sporting, que durante anos esteve fora do favoritismo, apresentou-se para esta jornada como tem vindo a acontecer ultimamente, com mais substância do que ornamento, com mais compromisso do que espetáculo. O Sporting, que tantas vezes foi o terceiro grande a lutar para não passar a quarto, soube fazer da formação, da persistência e da identidade as suas maiores armas. No passado fim-de-semana, foi inevitável: o “l” de leão ganhou um peso novo para mim. De um lado, o rugido de Alvalade, do outro, o silêncio solene e o rosto do bispo de Roma. Dois “palcos” onde se quer mais do que o visível, onde se luta por significado, por continuidade.
Não foi apenas um jogo. Não é só mais um papa. Nem foi, apenas, a letra semanal de um dicionário particular. Foi uma espécie de sincronia simbólica entre espaços do mesmo mundo, onde o nome Leão deixa de ser apenas uma metáfora e passa a ser vocação. E eu, perdida nos meus pensamentos, mantenho a certeza: “nada acontece por acaso”. Chegou o tempo do leão: no campo, em golos, na vida, em esperança e na fé, em confiança. Viva o Papa Leão XIV!
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.










