Lá em casa é assim, “cada macaco no seu galho”

| 13 Mai 21

Moçambique. Evocando os espíritos

 “Há uma hierarquização que coloca os antepassados no centro da vida, seguidos dos curandeiros, dos feiticeiros, dos anciãos, dos chefes”. Foto © Albino Mahumana / Wikimedia Commons

 

Escrevi, em tempos, um texto sobre um artista moçambicano na diáspora, Cândido Xerinda, e para tal, precisei de estudar Altuna (2006), obra na qual se mencionam as seguintes características do povo bantu: participação na vida colectiva da tribo, clã ou família; consideração dos estatutos sociais das pessoas, em função do lugar que ocupam nas sociedades – por exemplo há uma hierarquização que coloca os antepassados no centro da vida, seguidos dos curandeiros, dos feiticeiros, dos anciãos, dos chefes, etc; as pessoas se consideram continuidade da natureza e valorizam muito a procriação, a maternidade, a fecundidade, o matrimónio, entre outras características, que fazem parte da filosofia de vida dos bantu.

É sobre a consideração dos estatutos sociais das pessoas, dentro da sua tribo, que quero falar no presente texto. Não abordarei alguma tribo ou grupo étnico em especial, mas o modus vivendi de algumas tribos moçambicanas, de modo geral. Isso vem a propósito de uma conversa que tive com uma amiga, há dias, quando lhe liguei para falarmos por telefone. Ela disse-me: “Olha, não poderei alongar-me na conversa, porque estou na mhamba da passagem de um mês pela morte de um familiar e tenho muito que fazer; tinham-me mandado comprar sal e agora tenho que ir arrancar piripiri na horta e entregá-lo ao pessoal que se encontra a cozinhar, porque teremos de começar a servir o comer às pessoas que estão aqui.” (Sobre a mhamba, pode ler-se um anterior texto no 7MARGENS.)

Devo dizer que a minha amiga está a caminho dos 60 anos, é mãe de filhos com cerca de trinta e é docente universitária. Perguntei-lhe: “Mas não há pessoas mais novas às quais ordenar para comprarem sal e arrancarem piripiri? Incumbiram a si?” Ela respondeu-me: “Isso nem parece vir de ti. Logo tu que sei que conheces as nossas tradições.” E disse-lhe eu: “Mas pensei que você como professora…”, ao que ela me cortou a palavra e disse-me: “Sabes quem está cá a orientar as pessoas sobre como é que devem ser realizadas todas as tarefas ligadas ao acontecimento? Sabes?” Respondi-lhe que não e ela disse-me o nome. Era o de alguém que ocupara um dos cargos mais altos de um governo em Moçambique.

Tinha que contar essa história, embora com algumas omissões e adaptações, para me fazer entender no que quero contar sobre o estatuto social das pessoas, em algumas das culturas moçambicanas. O que quero deixar claro, em síntese, é que, nessas culturas, as idades biológicas e os cargos públicos que se ocupe (que não seja o da sua tribo), não têm a mesma relevância no seio familiar, ao contrário de que alguns jovens da nova geração julgam.

Retomando as ideias centrais deste texto, as idades e os estatutos são insignificantes, quando se trata de cerimónias familiares. Independentemente da idade, o estatuto que alguém ocupa, dentro da sua família, está acima disso; por exemplo: um indivíduo que tenha filhos está estatutariamente acima de quem não os tenha. De outro modo, se alguém, num agregado familiar composto por pais e filhos, tem o nome de um dos seus avós (pai do pai ou pai da mãe), esse indivíduo, em termos de estatuto é respeitado e tratado como o seu homónimo.

 

Veneração aos chefes
Moçambique. Mulher rural

“Nestas culturas, “a idade é um posto”, sim, mas isso é relativo, a julgar pelo lugar dado ao estatuto social das pessoas.” Foto © Ton Rulkens / Wikimedia Commons

 

Devo lembrar que nestas culturas, “a idade é um posto”, sim, mas isso é relativo, a julgar pelo lugar dado ao estatuto social das pessoas. Quer dizer, se o indivíduo é o terceiro dos filhos, por exemplo e tem o nome do seu avô, é lhe prestada a vassalagem que seria devida ao avô. As cerimónias familiares que deveriam ser encabeçadas pelo avô, é ele quem as dirige. Uma dessas tarefas, por exemplo, é a invocação dos espíritos dos antepassados da família, o ku phaxla. Esse indivíduo pode fazê-las, caso o avô não esteja vivo. “Ele é o avô.”

A amiga de que falei é a quinta filha dos seus pais. E tem primas mais velhas (nestas culturas o conceito de primo não existe; filhos de irmãos são irmãos). Então, as irmãs da minha amiga (as mais velhas do que ela, bem como as suas tias e cunhadas (noras da casa, no local da mhamba) são quem deveria estar a cozinhar e as moças mais novas da família ajudam a servir nas mesas ou nas esteiras. E ela, a minha amiga, sendo a mais nova, era pessoal de apoio, fazia as coisas auxiliares como dar água aos participantes da mhamba para lavarem as mãos, indicar onde se sentarem nas cadeiras ou nas esteiras, ajudar no que for preciso aos que chegam ao evento, servir à mesa ou esteira, entre outras tarefas indicadas pelo “mestre de cerimónias”. E realizava trabalho secundário, porque o seu estatuto é equiparado ao de uma criança. Mesmo sendo o que é na vida pública. (Sobre as tarefas das noras, veja-se também outro texto no 7MARGENS.)

Tratando-se de uma mhamba, na qual estava o tal senhor referido pela minha amiga, o tal que ocupou cargos políticos importantes, participando na cerimónia na qualidade de genro, tinha que realizar os trabalhos reservados ao seu estatuto doméstico. Dirigir e executar alguns actos e ser “mestre de cerimónias”, ou seja, degolar os animais a serem consumidos no evento, receber as visitas, delegar tarefas como servir refeições aos participantes. Tal como no caso da professora, o seu cargo político não é levado em consideração em acontecimentos familiares. E por uma questão de educação, a professora e o dirigente político souberam colocar-se nos lugares reservados aos seus estatutos domésticos. Contrariamente ao que hoje tem acontecido com muitos, que quando têm uma vida abastada ou ocupam cargos públicos, esquecem-se das suas tradições e até chegam a desvirtuá-las, querendo ser chefes em qualquer que seja a ocasião e o lugar.

É preciso também lembrar que aos chefes tribais, nas culturas de que venho falando, é prestada muita veneração. De um modo geral, os chefes têm muitos empregados para tratarem e cuidarem das suas vidas. O que os leva a algumas atitudes estranhas para os ocidentais. Faço essa afirmação e escrevo este texto, numa semana em que circulou por WhatsApp, em Maputo, um vídeo no qual se vê Barack Obama, então Presidente dos EUA, saindo de um avião num dia de chuva, a pegar num guarda-chuva, abri-lo pessoalmente e cobrir a sua cabeça. Estava a chover. Esse vídeo é contraposto a um outro no qual um líder político africano, estando numa cerimónia e começando a chover, recomenda que lhe levem um guarda-chuva e, imediatamente, o seu pessoal de apoio, em vez de lho entregar, abre-o e fica com ele nas mãos para cobrir o chefe. O próprio não pega nele, porque tinha quem o fizesse.

Esse vídeo recordou-me uma outra situação que presenciei numa iniciativa de uma organização internacional africana. Supostamente, seriam cem os convidados com papel a desempenhar no encontro; mas na sala havia cerca de duzentas pessoas, porque alguns líderes com cargos políticos actuais e outros que já os tinham ocupado no passado, para além do seu ajudante de campo, tinham quem lhes carregasse a mala pessoal e/ou a mala do computador. A sala ficou lotada.

Era assim que deveria ser, explicaram-me os que conhecem a matéria, quando questionei. Presta-se muita vassalagem aos chefes. E pensei como deveria ser difícil àquela professora e ao político que mencionei, uma vez que o político, por ter vivido tantos momentos em que era a figura central à qual se fazia muito preito, era depois tratado, no seio familiar na sua terra, como o comum dos mortais. Perguntei à minha amiga professora como é que ele geria isso: “Lá em casa é assim: casa, casa, trabalho, trabalho”, respondeu.

 

*Sara Laisse é docente de Cultura Moçambicana na Universidade Politécnica (Maputo). Membro do Movimento Graal. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

 

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