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Álvaro Laborinho Lúcio. Foto APAV
Licenciado em Direito, Laborinho Lúcio era um especial apreciador de literatura e de filosofia, tendo-se tornado escritor nos últimos anos. Foto © APAV

Morreu aos 83 anos

Laborinho Lúcio, o otimista crítico que dispensou discursos e motorista

Laborinho Lúcio tossiu para o microfone. No Centro de Estudos Judiciários, de que era diretor, magistrados, advogados, representantes do Governo e jornalistas esperaram. Era a cerimónia oficial de abertura de mais um ano de atividades daquela escola de formação de juízes, mas, ao contrário do que todos esperavam, não veio discurso.

Sem papel, com os olhos na assistência, Laborinho tossiu, captando atenção e silêncio. E então, começou: “E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você?” Interpretava o célebre poema de Carlos Drummond de Andrade para introduzir o tema das dificuldades que se colocavam ao exercício da justiça e o determinante papel da formação dos jovens juízes. E substituiu o texto formal de boas-vindas por poesia.

Era uma forma de “levar ao palco” o seu gosto antigo pelo teatro, ele que, na juventude, foi ator no Grupo de Teatro da Nazaré.

Foi o meu primeiro contacto com Laborinho Lúcio. Como jornalista do Público dedicada aos temas da justiça, havia de o procurar muitas vezes ao longo do tempo e nas mais variadas circunstâncias. Como diretor da Escola da Polícia Judiciária, como secretário de Estado da Administração da Justiça, mais tarde como ministro da Justiça. E ainda como escritor e conferencista.

Nas longas conversas com Laborinho Lúcio, ele ajudou-me a perceber a diferença entre a lei e a justiça, a importância de ponderar direitos em conflito, de respeitar os direitos da personalidade, de proteger as vítimas e os direitos da criança (e não dos “menores”, como insistia muitas vezes, como quando integrou a Comissão Independente para o Estudo dos Abusos na Igreja), de tornar acessível a linguagem dos tribunais.

E, respeitando rigorosamente a diferença de interesses entre quem quer divulgar e quem divulga, a diferença de perspetivas e de opiniões, os diferentes tempos da comunicação social e da justiça, contribuiu para que me tornasse melhor jornalista na complexa área da justiça. “Quem compreende, não julga”, costumava dizer.

 

“Funcionário público”

Licenciado em Direito, era um especial apreciador de literatura e de filosofia. Tornou-se político e na década de 1990, no Governo de Cavaco Silva, foi-lhe entregue a pasta da Justiça. Mas sublinhava, divertido, que não era ministro, “estava de ministro”. Em 2003, durante a Presidência de Jorge Sampaio, foi nomeado ministro da República para os Açores.

Num dia em que marcáramos um almoço para falar da reforma do sistema judiciário, Laborinho Lúcio decidiu dispensar o motorista e ir a pé para o restaurante. Perto, havia uma igreja, cuja arquitetura muito apreciava. Deteve-se a explicar-me alguns detalhes quando se aproximou um casal estrangeiro que, com curiosidade, pediu o esclarecimento de alguns pormenores que Laborinho explicou num francês irrepreensível. Gratos e impressionados com relato tão rico, quiseram saber qual era a sua profissão. “Sou funcionário público”, respondeu.

Tinha um acentuado sentido de humor, gostava de escapar aos seguranças e de caminhar livremente pelas ruas.

Nasceu na Nazaré, a 1 de dezembro de 1941, vila onde atualmente vivia e pela qual nutria o carinho das recordações de infância. Gostava de fotografias antigas, de sardinhas de Peniche e do molho das iscas no pão.

Cumpriu também a sua veia de escritor. Publicou quatro romances, dizendo a propósito da sua tardia carreira literária, que era um jovem escritor com um brilhante futuro atrás de si”. Ao O Chamador, seguiu-se O Homem Que Escrevia Azulejos, O Beco da Liberdade e As Sombras de Uma Azinheira.

Foi sempre um otimista crítico. Dava especial importância à educação e à cidadania.

Relativamente a um dos seus mais recentes cargos na Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa encarregada em 2021 de estudar os abusos de crianças na Igreja, Laborinho Lúcio defendia a necessidade de “desocultação” dos casos de atos sexuais criminosos e criticava o pacto de silêncio entre os fiéis e a hierarquia.

Morreu sem nunca se render ao que não acreditava, fiel aos seus princípios e crente na possibilidade de um mundo melhor.

Foi um enorme privilégio ter convivido consigo, Álvaro Brilhante Laborinho Lúcio!

 

(O funeral de Álvaro Laborinho Lúcio inicia-se com velório, nesta quinta-feira, 23, apenas para a família. Sexta, na Igreja de Nossa Senhora de Lourdes, em Coimbra, decorre todo o dia, aberto a quem queira prestar-lhe a última homenagem. Sábado, às 12h, haverá missa de corpo presente celebrada pelo bispo da diocese, Virgílio Antunes, após o que a urna será levada para o cemitério da Nazaré, com breve paragem na Igreja de Nossa Senhora da Nazaré.)

 

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