VERNA: novo livro de poesia de Joaquim Félix Carvalho

“Laminaria bulbosa”

| 19 Abr 2023

 VERNA é o título do novo livro de poesia de Joaquim Félix Carvalho, padre de Braga, membro da equipa formadora do Seminário Conciliar da diocese e que publicou já vários textos no 7MARGENSEditado pela Officium Lectionis, o livro tem prefácio do poeta Carlos Poças Falcão. É esse texto que publicamos a seguir, como forma de apresentação da obra e convite à leitura.

VERNA Capa, Joaquim Félix

 

Por não se entender como texto crítico, nem se presumir especialmente dotado de qualidades interpretativas, servirá este prefácio para dar breve testemunho de uma experiência de leitura.

É a primeira vez que entro em contacto com a poesia do autor. Verna (desde logo um título aparentemente enigmático) foi-me entregue em mãos sob a forma de um flexível caderno de fotocópias, tamanho A4, sendo a segunda folha toda preenchida por uma bela imagem, em gradações de azul, de uma alga, a Laminaria bulbosa, também ela flexível, finíssima até à transparência, dobrando-se como que em velaturas, apresentando alguns fáceis rasgões, de tão delicada e frágil. Esta imagem vai ter a sua importância reveladora na leitura, como adiante explicarei.

Folheio entretanto as fotocópias, num primeiro reconhecimento visual do livro – e eis que os seus cinquenta e cinco poemas se me perfilam, na brancura das páginas, em sequências gráficas enxutas, cinquenta e cinco colunas, de alto a baixo, compondo como que uma arquitectura de palavras e silêncios, um vasto pavilhão, hipostilo, um templo. Certamente que esta aparência se desvanecerá na forma editada do livro. De qualquer modo, parece-me útil fixá-la aqui, pois, segundo experimentei, ajuda significativamente na visitação destes poemas.

Entremos, pois. Cinquenta e cinco poemas, cinquenta e cinco colunas de palavras. O leitor visitante dar-se-á conta, sem dificuldade, da altura dos fustes, mas já dificilmente entenderá de que sentidos estão erguidos. Na verdade, este poeta não condescende muito com o leitor. A sintaxe surpreendente e não raras vezes obscura, reveladora, porventura, da familiaridade do autor com o Latim, “obriga”, frequentemente, a uma leitura espessa do verso, passo a passo, elemento a elemento, pelo interior da própria estrutura gramática da frase. Mesmo a morfologia é intencionadamente inusual, criativa, sendo numerosos os casos em que os nomes são adjectivados por outros nomes ou formas verbais, que não o particípio – como, por exemplo, “ádito ângulo” (poema 11), “cilício vento” (poema 13), “olhar juncal” (poema 21). Também rapidamente o leitor se confrontará, aqui ou além, com um léxico raro, especioso, que não o deixará embalar-se numa apreensão acomodada do poema: designações científicas de plantas, nomeações nem sempre imediatamente identificáveis de paisagens, objectos e vivências, nomenclaturas dos universos bíblico e litúrgico, expressões de uma frequentação erudita da língua. E é assim que o templo ressoa e as colunas se erguem de estranheza. Aqui e ali uma palavra brilha de repente como joia, a sombra dos sentidos cria recantos de perplexidade, ouve-se continuamente um murmúrio, o fio do poema a querer ser escutado. Há então que aceitar o jogo para que o poeta nos convida, há que entender-lhe as regras, precárias, não escritas.

O murmúrio, logo a partir do título e de alguma incidental indicação em vários poemas, é o de um ciclo vernal, de primavera, de um arco ascendente da luz (“Sinto que estou para brotar, meu Deus” – poema 35). Em sóbria embriaguez, o poema conduz o leitor a participar do sopro de um olhar que se expande. Muito se convoca de memórias que ainda fulgem, vívidas viagens, leituras, presenças súbitas de rostos e objectos, como epifanias ínfimas e íntimas – a voz destes poemas é “vertical nómada” (poema 35), ansiosa por “atravessar o diminuto” (poema 31). “A dias crescentes confio, ó eterno/ meu desconhecido a acumular-se” (poema 39) – é assim que esta voz poética, dita como quem corre a paisagem viva com um só olhar litúrgico, de celebração, de invocação, recorre abundantemente aos vocativos, aos chamamentos, às interpelações enfáticas. E o templo então ressoa, hipostilo, cinquenta e cinco fustes de palavras, cinquenta e cinco colunas de poemas, numa “sapiencial colunata” (poema 13). “A uma grande fome, ó Corpo, me estás a abrir” (poema 40). E no “irresistível percurso” em que se abre (poema 12), o poeta (e o seu leitor) constata, como que conclusivamente, a realidade inesperada: “Tu não és o lugar, ó paisagem, tu és o veículo” (poema 47).

E a Laminaria bulbosa referida no início deste prefácio? Bom, ela forneceu-me a imagem perfeita da tessitura, digamos assim, destes poemas. Assemelhei-os a colunas, mas também são fitas, como esta alga, lâminas translúcidas, tiras suspensas de palavras. E a sua finíssima textura é a do texto dos poemas, cujos sentidos se entretecem por transparências, velaturas – alusões, breves descrições que mal se decidem, versos que não acabam neles mas em outros muitos, súbitas aparições de uma memória que logo se enlaça, ou se deslaça, em perda ou em transfiguração. Enfim, dobras, quebras, vincos, sobreposições, talvez rasgões nalguns mais esforçados sentidos. O poema avança então por descontinuidades carregadas de sinal, aproximações, sinapses, gerando uma flutuação como que encantatória, que o leitor recebe como voz, pequena forma de poema, lâmina ondulante de perguntar no oceano: “Água, porque ondeias?” (poema 47).

 

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