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Fontaines D.C. têm novo disco

Novo disco dos Fontaines D.C.

Lápide gaélica foi proibida num cemitério inglês — e ganhámos uma bela canção

| 30/06/2022

Fontaines D.C. têm novo disco

Fontaines D.C. têm novo disco. Foto: Direitos reservados.

 

A Igreja de Inglaterra proibiu uma inscrição em irlandês numa lápide fúnebre, em Coventry, argumentando que a frase teria de ser traduzida para inglês para que as pessoas não a confundissem com uma declaração política. A família de Margaret Keane foi para tribunal e ganhou – e os irlandeses Fontaines D.C. fizeram desta história uma (belíssima) canção do seu mais recente disco, que vêm apresentar a Lisboa no festival Alive, no dia 6 de julho.

Em julho de 2018, quando da morte de Margaret aos 73 anos, os seus familiares quiseram inscrever, na pedra do túmulo no cemitério da Igreja de St Giles, em Exhall (Coventry, centro de Inglaterra, perto de Birmingham), a saudade que tinham: “In ár gcroíthe go deo”, que se traduz por “Para sempre nos nossos corações”. Não puderam.

Dois anos depois, em 2020, o juiz Stephen Eyre QC, de um tribunal eclesiástico – o Tribunal Consistório da diocese de Coventry, da Igreja da Inglaterra (Comunhão Anglicana) – argumentou que aquelas palavras tinham de ter tradução simultânea. “Dadas as paixões e os sentimentos ligados ao uso do gaélico irlandês, existe um triste risco de que a frase seja considerada uma forma de slogan ou que a sua inclusão sem tradução seja vista como uma declaração política”, começou por apontar o juiz, citado pelo jornal The Irish Times. “Isso não é adequado, pelo que a frase ‘In ár gcroíthe go deo’ deve ser acompanhada de tradução.”

A Igreja da Inglaterra disse na época, num comentário solicitado pela BBC, que a decisão “não reflete” a sua política nacional, acrescentando em comunicado que “a língua irlandesa é uma parte importante do património” da organização.

A lápide de Margaret Keane com a inscrição polémica.

A lápide de Margaret Keane com a inscrição gaélica. Foto: Direitos reservados.

O pedido para não haver qualquer tradução tinha partido da filha de Margaret, Caroline Newey. Segundo a decisão do juiz, a filha argumentou que não havia necessidade dessa tradução, uma vez que “a língua irlandesa é considerada não apenas um meio de comunicação, mas [também] um veículo de valor simbólico”. Para Caroline Newey, “o uso dessa língua sem tradução não é uma declaração política, mas [antes] o reconhecimento da identidade da sra. Keane e é para honrar… [a sua] língua nativa”. O juiz não acolheria a argumentação da família: a inscrição seria “incompreensível” para a maioria dos que a leriam e decidiu-se pela necessidade de traduzir a frase.

Esta decisão acabou posteriormente por ser anulada, por discriminação racial, em fevereiro de 2021, culminando uma batalha de quase três anos para que o local de repouso final de Margaret Keane pudesse ficar assinalado com palavras da sua terra natal, como desejava a família. 

Dos jornais para o disco

Neste tempo, Grian Chatten, vocalista e letrista dos Fontaines D.C., leu a história nos jornais e escreveu aquela que é a canção de abertura do mais recente trabalho destes irlandeses, Skinty Fia, lançado a 22 de abril. O título do tema é bebido na inscrição gaélica desejada pela família: In ár gcroíthe go deo.

Na BBC, Bernadette Martin, outra das filhas de Margaret, descreveu a canção como “um final adequado para a jornada que vivemos em família”. “Era a última coisa que esperávamos”, contou. “Quando ouvimos, a primeira coisa que fizemos, eu e as minhas irmãs, foi ficar no túmulo da minha mãe, tocá-la para ela e ouvi-la pela primeira vez naquele lugar especial.”

A família acabou por entrar em contacto com a banda, depois de terem visto a lista das canções do álbum, contou a BBC. O vocalista e letrista, Grian Chatten, diz que, nesse contacto, a família de Keane manifestou a sua aprovação e isso foi “uma das coisas mais incríveis que já aconteceram”. “Isso significa muito mais para mim do que qualquer nomeação para os Grammy”, atirou Chatten à BBC. E acrescentou o seu contentamento por terem sido capazes de dizer algo sobre uma história assim”, sem desrespeitar ou ofender ou de qualquer forma apropriar-se “do que era essencialmente uma história de família.”

O problema do irlandês

Inspirada na história de Keane, esta canção vive também da história pessoal de Chatten. Este novo disco dos Fontaines D.C. é um retrato sobre ser-se irlandês não vivendo na Irlanda, e sentir-se por vezes indesejado. Como o gaélico da lápide de Margaret. Foi isto que inspirou Chatten, que agora mora com a namorada em Londres. “Esta história saiu muito antes de eu me mudar definitivamente para Londres”, disse na conversa com a BBC. “Para ser honesto, deixou-me nervoso com a mudança”, confessou. “A ideia de que uma língua em si é inerentemente política é profundamente crítica, errada e retrógrada. Porque essa língua é a mesma que é usada para dizer: ‘Aproveita o teu primeiro dia na escola, filho’”, argumentou. Para concluir: “Há mais para desinspirar as pessoas do que um conflito.” 

Numa outra declaração, o tom de Grian Chatten é ainda mais mordaz, sobretudo em relação à posição da Igreja anglicana. Com a recusa daquela frase, “a Igreja de Inglaterra decretou que [o gaélico] seria potencialmente visto como um slogan político”. A língua irlandesa – que se tornou minoritária durante o domínio britânico da ilha e é uma arma na disputa entre os dois países – acaba por ser vista como algo que incendeia as emoções, “o que é um nível muito básico de xenofobia”.

A revolta está nas palavras, mais do que na canção. “Considerar o irlandês e perceber o irlandês como algo inerentemente ligado ao IRA ou ao terrorismo ou qualquer coisa assim, é profundamente perturbador. Eu senti-me como se estivesse a olhar para o cano da arma, ao ir viver para este país, que realmente não recebe bem as pessoas irlandesas. Ainda considera as pessoas da Irlanda como algo não confiável e ameaçador.”

Chatten revelou que tudo isto o fez pensar na sua “própria família no oeste da Irlanda”, tocando os seus instrumentos tradicionais (e ele próprio toca acordeão no novo álbum, recorda a BBC) e cantando músicas na véspera de Ano Novo. “Penso que eles fazem parte deste [corpo] que estava a ser julgado desta maneira, e isso deixa-me muito chateado pessoalmente.” Ao ouvir In ár gcroíthe go deo, há aborrecimentos que se podem aplaudir.

Já o baixista do grupo, Conor Deegan III, disse a Chatten que houve uma coisa positiva, que foi a de não terem conhecido o desfecho do caso a favor da família, antes de concluírem a música. Só assim, argumentou Conor, o refrão da canção pode ser repetido com “o mesmo sentimento de lamento”, como se ouve nos coros quase fúnebres de In ár gCroíthe go deo, num registo que remete também para a tradição musical irlandesa dos laments (goltraí, em gaélico), canções tristes muitas vezes cantadas em velórios ou que lembram tragédias locais. 

Não há tristeza neste epílogo: Margaret pôde ser homenageada como a família desejava e os Fontaines D.C. deram-nos mais uma bela canção neste seu terceiro disco, que merece ser escutado de fio a pavio.

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