Lares de idosos no fio da navalha

| 25 Mai 20

Por más razões, os lares saltaram para as primeiras páginas da comunicação social. Ao longo das últimas semanas, os mortos nestas instituições, legais e ilegais, motivados pela pandemia do covid-19, atingiram cerca de 40% do número total das vítimas mortais (e cerca de 50% em toda a Europa). Trata-se de um elevado número de cidadãos que permaneceram muito esquecidos dos poderes públicos, na fase mais aguda desta devastadora pandemia: a população mais idosa, a mais vulnerável à contaminação pelo vírus.

Demasiado tempo, foram ficando na penumbra as 5.680 Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), os 340 mil trabalhadores que delas cuidam, bem como os seus 800 mil utentes, incluindo as 380 Misericórdias, associadas na União das Misericórdias Portuguesas. Não incluindo neste número os muitos lares clandestinos, difíceis de contabilizar devido à sua situação de ilegalidade, e que tantas vezes escapam à fiscalização da Segurança Social…

Seja como for, o certo é que nesta esquecida população idosa não se fizeram, em devido tempo, os testes do vírus, como era aconselhável, por se tratar de um grupo de alto risco e, portanto, muito sensível aos efeitos nefastos desta mortífera pandemia. Foram-se deixando passar os dias, até que o escândalo acabou por rebentar nos noticiários, ao constatar-se os numerosos infetados e mortes destas instituições.

Deste modo, se foram esquecendo os idosos, cidadãos de pleno direito, dos quais, não se cuidou como devia, nomeadamente as autoridades da Direção-Geral da Saúde (DGS) e Ministério da Saúde (MS). Porque, como é sabido, uma sociedade que não cuida dos seus idosos está doente. Pois que a eles devemos tudo o que somos e temos. Esta grave omissão acabou por gerar, numa grande parte dos utentes dos lares e famílias, profundo sentimento de abandono que não mereciam. Sabendo-se da grande probabilidade das pessoas idosas serem as mais afetadas por este vírus, os responsáveis pela prevenção e tratamento adequado a esta população tornaram-se supostamente os mais culpados pela perda de numerosas vidas.

A este propósito se referiu recentemente o padre Lino Maia, presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade Social (CNIS): “O Estado fiscaliza muito mais do que acompanha os lares”, onde se encontram idosos em final de vida, por vezes muito penosa, para sustentarem as suas famílias e darem aos seus filhos um futuro mais risonho do que foi o seu. Deste modo, acusa este dirigente: “O Ministério da Saúde, ao longo desta pandemia, não deu indicações atempadas aos lares. E mesmo as que vieram a ser dadas, nem sempre foram a tempo e nem sempre coincidentes. Deste modo, os idosos destas instituições não foram devidamente assistidos (…) ficando assim para trás nos cuidados que lhes deviam ter sido prestados, nomeadamente, nestes tempos pandémicos. Por vezes, parece transparecer uma certa estigmatização dos mais velhos, acompanhada por algum desprezo. E os lares e as instituições de solidariedade que emanam da solidariedade e da capacidade organizativa e mobilizadora da sociedade, não são respeitados pela Saúde como deveriam ser.”

Pelo contrário, a sociedade civil, ao longo destes meses de confinamento, tem demonstrado uma enorme solidariedade para com os mais necessitados da sociedade, procurando não deixar ninguém para trás.

Acrescente-se em abono da verdade, que ultimamente, tanto o Governo como os municípios e juntas de freguesia, se têm empenhado mais no cuidado às instituições de solidariedade social, disponibilizando mais e melhores cuidados de Saúde.

Nesta linha, nas últimas semanas felizmente, está a cumprir-se o prometido pelo Governo, encontrando-se os lares de um modo geral acompanhados por médicos e enfermeiros dos Centros de Saúde, em articulação com os hospitais. Acresce ainda a competente formação que está a ser ministrada aos trabalhadores dos lares, pelo Ministério da Saúde.

A partir de agora é legítima a pergunta: o que irá acontecer a nível de fiscalização dos lares ilegais a trabalharem, muitas vezes, em condições tão deploráveis?

Pelo que temos verificado, esta epidemia foi revelando que, infelizmente, a assistência a muitos dos idosos se encontra no fio da navalha, sem uma adequada assistência. Urge, pois, inverter esta deplorável situação, na esperança de melhores dias. Cuidemo-nos.

 

Florentino Beirão é professor do ensino secundário. Contacto: florentinobeirao@hotmail.com; ver também notícia do apelo da Comunidade de Sant’Egídio na secção Sociedade)

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