“Laudate Deum”: a exortação no momento certo

| 4 Out 2023

Nesta exortação apostólica, “o Papa apela ao pensarmos nas gerações futuras e naquilo que é verdadeiramente o nosso papel como humanidade – qual o sentido da vida, do trabalho e do compromisso?”. Foto: Direitos reservados.

 

Vale a pena lembrar o contexto em que a carta encíclica Laudato Si’ surge em 2015. Foi um ano marcante, com o Papa Francisco a marcar a agenda da sustentabilidade no final de maio, com a aprovação pelas Nações Unidas em setembro dos objetivos de desenvolvimento sustentável e a aprovação da respetiva agenda de implementação para 2030. Em dezembro seria aprovado o Acordo de Paris, um marco histórico na tentativa de limitar o aumento das emissões causadoras do aquecimento global e consequentes alterações climáticas. Agora, em 2023, a exortação Laudate Deum é obviamente muito mais curta e seletiva na escolha dos temas, fixando-se praticamente e apenas no tema mais grave da crise ambiental que é as alterações climáticas.

Há poucas semanas, nas Nações Unidas, fez-se um balanço da aplicação dos objetivos definidos em 2015 e o resultado foi lamentável – estamos a caminho de, em 2030, apenas cumprir 15% do estabelecido. O Papa Francisco este ano não se antecipou a esta avaliação intermédia. Porém, também nas Nações Unidas, o secretário-geral António Guterres promoveu uma Cimeira de Ambição Climática, preparatória da Conferência anual da Convenção-Quadro sobre Alterações Climáticas que terá lugar no início de dezembro no Dubai – a COP28. É agora, neste tempo intermédio, que a exortação tem lugar, como que um impulso extra para os políticos assumirem as suas responsabilidades nessa altura, ao mesmo tempo que faz um historial e uma reflexão sobre os últimos anos.

A primeira ideia, ainda na introdução, é a ligação dos impactes das alterações climáticas na vida de todos, principalmente dos mais frágeis – na saúde, no emprego, na habitação, nas migrações. Isto é, as consequências de um clima em mudança põem em causa a dignidade humana de muitos. Depois, algo que me deixou surpreendido, critica e desmonta o negacionismo climático ainda enraizado numa percentagem significativa da população, dependendo do país em causa. Recorrendo à ciência, mostra as evidências mais significativas dos principais relatórios, mostra como vivemos todos numa casa comum ao dar o exemplo dos amplos impactes da pandemia e da interligação que temos neste ecossistema planetário que é a Terra, e, acima de tudo, apela a olhar à volta porque é impossível ignorar as evidências.

É evidente a ligação entre o uso excessivo de recursos de um planeta encarado como supostamente ilimitado e a ideologia obsessiva pelo poder, onde a tecnologia e a tecnocracia de forma mais abrangente acabam por separar as pessoas da natureza. É notório que, num mundo onde o dinheiro tudo paga, nomeadamente o viver junto a uma natureza contaminada, as relações entre as pessoas são de menor importância que o lucro de alguns.

Neste contexto, porque efetivamente essas são as soluções-chave para salvarmos o planeta, o Papa apela ao pensarmos nas gerações futuras e naquilo que é verdadeiramente o nosso papel como humanidade – qual o sentido da vida, do trabalho e do compromisso? Não recorrendo à palavra “suficiência” ou “frugalidade” que caracterizou a vida de São Francisco de Assis, é efetivamente este o conceito que transparece das suas palavras, aliado à construção de uma felicidade individual e coletiva.

 

“Um misto de esperança e desalento”

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” Os combustíveis fósseis e a incapacidade de gerar alternativas energéticas renováveis são identificados como os grandes obstáculos a vencer.” Foto: Direitos reservados.

 

Na abordagem do Papa Francisco às relações internacionais, nomeadamente tendo por base o insucesso dos protocolos e acordos climáticos, devidamente explicados e cronologicamente apresentados, senti um misto de esperança e desalento. Por um lado, o reconhecimento inequívoco do multilateralismo, onde uma sociedade mais democrática e participada é essencial para ultrapassar a velha diplomacia (como lhe chama), que continua a ser importante e necessária mesmo se em crise, mas que requer um novo equilíbrio que reconheça a relevância das potências emergentes com um quadro de cooperação mais eficaz. Por outro lado, e quando o Papa é tão concreto e assertivo nalguns aspetos, esperava ideias mais explícitas para o ultrapassar desta situação de governança global.

No que respeita à política climática global, para além de um resumo sucinto e preciso das principais decisões das Conferências das Partes anuais, há uma identificação clara das fragilidades do Acordo de Paris, como seja a falta de um regime sancionatório ou de instrumentos eficazes de assegurar o seu cumprimento. Os combustíveis fósseis e a incapacidade de gerar alternativas energéticas renováveis são identificados como os grandes obstáculos a vencer.

Por último, o Papa Francisco reconhece a dificuldade da próxima reunião no Dubai, num ambiente hostil a decisões contrárias ao petróleo, mas reconhecendo, e bem, que os países e a sociedade não se podem afastar destes encontros, fornecendo uma receita fundamental para as negociações – serem eficientes, vinculadoras e monitorizáveis, onde o futuro seja posto acima dos países e das empresas.

Tal como na carta encíclica Laudato Si’, há sempre lugar a um espaço dedicado à Igreja Católica, que, em minha opinião, sempre teve dificuldades em lidar com este tema da sustentabilidade e de uma Casa Comum, tão importante na vida espiritual e religiosa de cada um e das comunidades, mas ao mesmo tempo sempre encarado de forma exógena e desconfortável pela sua natureza.

Esta exortação surge também aqui como um lembrete à ação, oito anos depois da encíclica e três anos depois do ano Laudato Si’, para que os católicos não esqueçam que há ainda muito por fazer, por mudar, da escala local à global, alertando para as responsabilidades e para a necessidade dos católicos não deverem seguir a obsessão do poder que originou um mundo tão desigual, em que os mais fracos são os mais afetados pelas crises, em particular, pelas consequências das alterações climáticas.

 

Francisco Ferreira é professor na na Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e presidente da Associação ZERO.

 

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