A principal função da biblioteca, pelo menos a função da biblioteca da minha casa ou a de qualquer amigo que possamos ir visitar, é de descobrir livros de cuja existência não se suspeitava e que, todavia, se revelam extremamente importantes para nós […] A função ideal de uma biblioteca é de ser um pouco como a loja de um alfarrabista, algo onde se podem fazer verdadeiros achados, e esta função só pode ser permitida por meio do livre acesso aos corredores das estantes.
(Umberto Eco, A Biblioteca)
Quando em 1981 Umberto Eco pronunciou, na Biblioteca Municipal de Milão, a conferência que daria origem ao livro A Biblioteca, já intuía os múltiplos desafios que a estas se colocariam até aos nossos dias. Muito já se tem escrito e debatido sobre as transformações nos hábitos de leitura, as dificuldades colocadas pelos dispositivos eletrónicos aos níveis de concentração exigidos, ao espaço físico de uma biblioteca visto de perspetivas antagónicas – como espaço de convívio e de circulação ou, antes, como espaço de silêncio –, etc.
Uma dimensão que Eco refere na conferência citada é a do livre acesso do público às estantes. Isto é, que a biblioteca seja não apenas um depósito onde se consulta e se requisita os livros que já se conhecem e que intencionalmente se pesquisam. A circulação por estantes de livre acesso, com tempo e disponibilidade e tendo por único guia a curiosidade, permitiria descobrir o que ainda não se conhece nem nunca se conheceu. Descobrir, no fundo, pérolas.

Aqui vai um exemplo. Na estante 46, prateleira C da Biblioteca D. Manuel Vieira de Matos, em Braga, está um volume, publicado em Paris em 1934, com o título Le Boerenbond Belge: l’oeuvre du relèvement et de la grandeur de la classe agricole d’un pays [A Boerenbond Belga: a obra da recuperação e da grandeza da classe agrícola de um país]. O seu autor é o padre Abel Varzim, cujo percurso é conhecido: deputado à Assembleia Nacional entre 1938 e 1942, as suas críticas ao sistema corporativo e ao funcionamento dos sindicatos nacionais [corporativos, do Estado Novo] valeriam uma marginalização política, convertida num profético trabalho na paróquia da Encarnação, em Lisboa.
Boerenbond é um termo flamengo que significa “Liga de camponeses», e é uma associação profissional fundada em 1890 e, todavia, ativa: com particular vigor nas décadas de 20 e 30 do século passado, a sua existência esteve associada à atuação política da Igreja Católica. O volume corresponde à tese de doutoramento defendida por Abel Varzim em 1934 em Ciências Sociais e Políticas na Universidade Católica de Lovaina, e tem uma dedicatória ao arcebispo de Braga, em cujos seminários o Autor se formou. Diz assim:

A Sua Ex.ª Rev.,
o Senhor D. António
Martins Júnior, Venerando
Arcebispo Primaz,
homenagem filial do Autor
Ao folhear este volume deparamo-nos com os elementos próprios de um artefacto quase centenário: páginas amareladas, marcas de uso, um aroma característico… As mesmas páginas estão, pelo menos, separadas, o que indica algum trabalho de leitura ou consulta: é frequente, neste acesso às estantes, deparar-me com volumes da mesma época com as páginas ainda agrupadas da forma como a máquina tipográfica as produziu. O carácter irregular das marcas sugere o uso de uma régua.
Diante deste objeto pergunto-me: que impacto terá tido na vida do Autor um estudo de terreno, desenvolvido durante vários anos, em torno de uma experiência associativa inspirada e patrocinada pela Igreja Católica, com o objeto de melhorar a vida dos seus membros? Qual terá sido a receção deste estudo nos seus leitores em Portugal? Mais concretamente, terá D. António Martins Júnior lido este livro? Terá agradecido ao Autor, com uma carta ou bilhete?
Não li este volume. Não conto desenvolver qualquer trabalho sobre ele, além deste breve texto. De pouco me servirá, o seu folhear foi um tempo perdido. Ficará na lista de livros em espera. O contacto com ele e, sobretudo, com a dedicatória manuscrita, recordou-me uma personalidade marcante do catolicismo português do século XX. Posto isto, voltarei a colocar o volume na estante, no seu lugar devido, onde continuará a ser um túmulo, testemunho de um tempo e de um lugar que não são os meus. Arrumado o livro, retornarei às minhas ocupações, interesses, distrações.
A Biblioteca D. Manuel Vieira de Matos situa-se em Braga, e pertence à Rede de Bibliotecas da UCP. Serve essencialmente a Faculdade de Teologia, tendo em depósito os antigos fundos do Seminário Conciliar e do Paço Episcopal. Na rúbrica “Livre Acesso” apresentar-se-ão obras do seu catálogo.










