O lema da viagem de Leão XIV a Espanha — Alzad la mirada (“Levantai o olhar”) — encontrou nas Canárias uma expressão particularmente concreta. Num arquipélago marcado pela chegada de milhares de migrantes através da rota atlântica, o Papa convidou a olhar para além dos números e dos discursos políticos, para os rostos, as histórias e as feridas de quem procura proteção e uma nova oportunidade de vida. Ao longo da sua última jornada em Tenerife, apelou ao combate às redes de tráfico humano e alertou para aquilo que definiu como um “segundo naufrágio”: a exclusão e o abandono que podem seguir-se à chegada.
E assim a última etapa da viagem apostólica de Leão XIV a Espanha transformou-se num poderoso símbolo do seu pontificado. Depois de uma semana marcada pela defesa da dignidade humana, pelo diálogo e pela atenção aos mais vulneráveis, o Papa escolheu encerrar a visita junto daqueles que, nas Canárias, representam uma das maiores feridas e desafios do nosso tempo: os migrantes.
Ao longo da manhã desta sexta-feira, 12 de junho, o pontífice visitou o centro de acolhimento Las Raíces, encontrou-se com entidades que trabalham na integração de migrantes em San Cristóbal de La Laguna e presidiu à missa de encerramento da viagem no porto de Santa Cruz de Tenerife. Em todos os momentos, regressou à mesma convicção: a migração não deve ser vista como um problema a gerir, mas como uma oportunidade de encontro, enriquecimento mútuo e renovação humana.
No centro Las Raíces, outrora um quartel militar, Leão XIV recordou que “o amor de Deus não conhece fronteiras” e dirigiu-se aos migrantes como protagonistas de uma história de esperança. Evocando a solenidade do Sagrado Coração de Jesus, celebrada neste dia, sublinhou que Deus “não faz distinções” e reúne todos na unidade.
Perante dezenas de homens e mulheres marcados por travessias difíceis, o Papa reconheceu as feridas que carregam, mas também a riqueza que trazem consigo. “Convido-vos a oferecer o tesouro de humanidade, sonhos e cultura que trouxestes para estas ilhas”, afirmou, acrescentando que as migrações “podem tornar-se uma oportunidade de encontro e enriquecimento mútuo entre povos”.

No Centro Las Raíces, o Papa dirigiu-se aos migrantes como protagonistas de uma história de esperança. Foto © Vatican Media
Leão XIV retomava assim uma das linhas centrais do magistério do seu predecessor Francisco, de quem disse que muito teria gostado de estar também ali. Depois, assegurou: “Todos nós, de certa forma, somos migrantes. Todos somos peregrinos a caminho da pátria celestial.”
Momentos mais tarde, na Praça do Cristo, em La Laguna, cidade que descreveu como uma “cidade aberta, sem muralhas”, Leão XIV desenvolveu aquele que foi provavelmente o discurso mais forte e estruturado da jornada. As muralhas de que falou não eram apenas físicas. “Por vezes, encontram-se no olhar, no medo ou na indiferença”, advertiu.
Numa intervenção marcada pela linguagem da proximidade e do cuidado, o Papa insistiu que a integração não pode reduzir-se à assistência imediata. “O acolhimento abre a porta; a integração ajuda a atravessar o limite. A assistência aplica um bálsamo na ferida e a integração reconstrói o futuro.” A frase sintetiza uma visão que vai além da emergência humanitária e aponta para a construção de comunidades inclusivas.

O lema da viagem de Leão XIV a Espanha — Alzad la mirada (“Levantai o olhar”) — encontrou nas Canárias uma expressão particularmente concreta. Foto © Vatican Media
Para Leão XIV, integrar não significa apagar identidades nem criar sociedades paralelas. É um processo recíproco, em que quem chega aprende a habitar uma nova terra e quem acolhe aprende a abrir espaço ao encontro sem perder a própria identidade. Nesse caminho, insistiu, existem responsabilidades para ambas as partes: das sociedades de acolhimento e dos próprios migrantes, chamados a participar na vida comum, respeitar as leis e contribuir com os seus talentos.
O Papa reservou também algumas das palavras mais duras da viagem para as redes de tráfico humano que lucram com o desespero de milhares de pessoas. “Parai. Convertei-vos”, apelou. Dirigindo-se diretamente a quem organiza “rotas da morte”, explora trabalhadores ou ameaça mulheres migrantes, disse que o sofrimento das vítimas “clama a Deus” e que o dinheiro obtido à custa da vulnerabilidade dos pobres “não trará paz, nem honra, nem futuro”.
Mas a denúncia não se limitou aos naufrágios no Atlântico. O Papa falou também de um “naufrágio silencioso” que acontece depois da chegada: a solidão, a dificuldade em aprender a língua, encontrar trabalho, estabelecer laços e recuperar a confiança. “Integrar é impedir esse segundo naufrágio”, afirmou, naquela que foi certamente uma das expressões mais marcantes desta viagem.
A preocupação com a migração atravessou igualmente a homilia da missa celebrada no porto de Santa Cruz de Tenerife, diante de dezenas de milhares de pessoas. Partindo da solenidade do Sagrado Coração de Jesus, Leão XIV refletiu sobre a sede de sentido que habita o coração humano e alertou para o risco de reduzir tudo “ao comércio e ao lucro”.
Num arquipélago fortemente marcado pelo turismo, o Papa convidou a redescobrir uma cultura da hospitalidade que reconheça a dignidade das pessoas antes dos interesses económicos. Citando a encíclica Laudato Si’, denunciou o ritmo frenético de uma sociedade que vive em constante aceleração e esquece o essencial.
Ao mesmo tempo, retomou um tema particularmente caro ao seu pontificado nascente: a necessidade de se deixar evangelizar pelos pobres. Referindo-se aos migrantes que chegam às Canárias através da rota atlântica, afirmou que os cristãos não são apenas chamados a ajudá-los, mas também a reconhecer a sabedoria que nasce das suas experiências de sofrimento, resistência e solidariedade. Os pobres, disse, têm muito a ensinar à Igreja.

O Papa saúda a multidão no final da missa celebrada no porto de Santa Cruz de Tenerife. Foto © Vatican Media
Na parte final da homilia, o Papa dirigiu-se especialmente aos jovens — residentes e visitantes — pedindo às comunidades cristãs que saibam olhar para além das aparências e reconhecer a profundidade das suas inquietações. E regressou ao coração da mensagem que marcou toda a viagem: o amor de Deus que se torna encontro, acolhimento e compromisso.
Ao concluir a visita a Espanha, Leão XIV deixou nas Canárias uma síntese eloquente daquilo que tem procurado afirmar desde o início do seu ministério: uma Igreja que toca as feridas humanas, que constrói pontes em vez de muros, que denuncia as estruturas de injustiça e que reconhece nos migrantes não uma ameaça, mas irmãos e irmãs portadores de dons para a sociedade e para a própria comunidade cristã.
“Levantemos o olhar para Ele, sem desviá-lo daqueles que sofrem”, pediu na despedida. Numa terra que conhece de perto os dramas e as esperanças das migrações, a frase soou como o resumo de toda a viagem: olhar para Deus sem deixar de olhar para os que permanecem à margem, transformando a compaixão em responsabilidade e o acolhimento em verdadeiro caminho de integração.










