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Leão XIV: Leão de Aslan ou Leão de peluche?

| 16/06/2025

 

Li há poucos dias: Robert Francis Prevost Martínez, ao escolher “Leão XIV” como nome pontifício, não teve em mente restabelecer uma linhagem espiritual. Manifestou, antes, ser exímio a delinear uma estratégia de branding, destinada a gerir estrategicamente a sua marca, “visando criar e manter uma imagem positiva e relevante na mente do público-alvo” (segundo explica um motor de busca disponível em linha). Habituemo-nos: no tempo em que vivemos, nada se eleva; tudo se rebaixa. A compreensão de qualquer fenómeno não deve alçar-se além das mais rasteiras estratégias de consumo.

Discordo. Ao escolher chamar-se Leão (XIV), Prevost exprimiu verbalmente um paradoxo. Segundo revelou, entre outras razões, quis recordar à Igreja e ao mundo a importância da doutrina reformista de Leão XIII (1810 – 1903), ao reflectir sobre “a condição dos operários” e ao enfrentar com desassombro as “coisas novas” (rerum novarum) que perturbavam o final do século XIX e a sua passagem para o século XX. Pretende andar pelo mesmo caminho, disse, actualizando-o de modo a responder às perturbações do nosso tempo. Quer encarar com coragem, prudência e sabedoria a “mudança de época” diagnosticada por Jorge Mario Bergoglio, mudança convulsiva, armada e violenta que não podemos testemunhar sem nos sentirmos incomodados e sem reagir. Apesar destes propósitos, sintomas de aggiornamento, escolheu um nome anacrónico, distante da actualidade. Parece indicar-nos um caminho de peregrinação: a sobrevivência no nosso tempo só será possível se nos afastarmos dele, dando lugar a uma coincidência de opostos: estar no mundo sem lhe pertencermos.

Interior Santuário de São Miguel Arcanjo

Interior Santuário de São Miguel Arcanjo, no Monte Gargano, Apúlia, sul de Itália. Foto © Nikater / Wikimedia Commons

Se o anacronismo nos deixou estupefactos, o poder evocativo do nome escolhido por Robert Francis tem sido causa de um outro espanto. Foi notável, ainda, a acumulação incidências comunicantes ou coincidências, ocorridas no momento da sua eleição como bispo de Roma. Aconteceu a 8 de Maio de 2025, dia da Virgem do Rosário de Pompeia e da padroeira da Argentina, a Virgem de Luján (à qual tinha especial devoção o Papa Francisco), mas também dia em que se recorda a aparição do arcanjo São Miguel no monte Gárgano, em Itália. Comemoraram-se ainda, nessa data, os oitenta anos do fim da Segunda Guerra Mundial.

Para quem encara os acontecimentos ocorridos no mundo como evidências de uma organização bem oleada, capaz de manipular consciências com subtileza, nada disto tem qualquer importância semântica. Calhou ser assim. Poderia ter sido de outro modo. São somente estratégias de comunicação, de branding. Para quem faz da crença metódica uma via de conhecimento, dando à perplexidade um valor maior, de antecâmara da compreensão, certas matérias têm um carácter bem distinto. A incerteza transforma-se em fé e esperança, prenunciando ou confirmando o amor transcendente.

De que vale a presença de um Leão no meio do mundo, onde a nuvem foi substituída pelo “nevoeiro”, onde “Ninguém sabe que coisa quer. / Ninguém conhece que alma tem, / Nem o que é mal nem o que é bem” (F. Pessoa)? Aponta, quanto a mim, um caminho de relação, diálogo e confronto com a realidade mais incómoda (tal como fez Leão XIII no seu tempo); evoca a recepção de uma bênção, a fidelidade companheira e o prosseguimento do caminho proposto pela Dona Pobreza a São Francisco (tal como fez Frei Leão de Assis); e recorda-nos, também (e sobretudo!), uma presença benfazeja, simbólica (porque se opõe ao diabólico), pontifícia, porque construtora ou reconstrutora de pontes que nos salvem das enxurradas mais violentas, nomeadamente daquelas que, salvando o corpo e promovendo o hedonismo, tratam de assassinar a nossa alma.

Leão, o décimo quarto do nome, de uma série de homens que, à frente da Igreja, tanto assumiram uma corajosa santidade nas palavras e nos gestos (como São Leão Magno, ?-461) quanto uma mundanidade pouco cristã (lembremos Leão X, 1475-1521), evoca-me o “Leão de Judá”, patente no Apocalipse (5, 5) – imagem do Cristo que há-de vir no fim dos tempos, desse Redentor que o bispo de Roma, primum inter pares, representa entre nós. Lembra-me ainda a sua mais conhecida projecção literária, criada por C. S. Lewis. Refiro-me a Aslan, o leão de Nárnia, que resgata a humanidade, morrendo e ressuscitando.

Marco Politi

Francisco Entre os Lobos – O Segredo de uma Revolução. Marco Politi

Para que Robert Francis Prevost seja realmente Leão – ou seja, mereça o nome pelo qual decidiu ser chamado e conhecido –, tem de ser a cada passo “simples como as pombas e astuto como as serpentes” (Mateus 10, 16). Os lobos que rodearam Francisco, tal como nos lembrou Marco Politi no seu livro (Francisco entre os lobos. O segredo de uma revolução), ainda não desapareceram, mesmo que alguns tenham vestido a pele dos cordeiros. Não voltaremos a ver o cardeal americano com botas de borracha no meio de uma catástrofe ou montado numa mula ou num cavalo para ir ao encontro dos mais periféricos e pobres. Ousará, decerto, outro calçado verbal, gestual e diplomático para enfrentar as mais perigosas torrentes deste mundo. Escolherá outro transporte nas palavras e nos gestos para chegar às periferias existenciais, económicas, sociais e culturais – ainda que tenha pela frente somente veredas sinuosas e pedregosas, com abismos de um lado e de outro. Será, decerto, no mundo e na Igreja, o melhor colaborador de Aslan, o leão-Cristo que salvou Nárnia do gelo difundido por uma feiticeira. Tentará usar, na concretização dessa tarefa, o calor da humildade e da paciência, proposto por Santo Agostinho, seu pai espiritual. É essa a vontade de todos nós, gente de boa vontade, cuja espera parece não ter fim.

Será, todavia, essa a sua vontade? Assim creio. Tenho poucas dúvidas de que assim deseja. As palavras que propagou no primeiro mês de pontificado são indícios seguros disso. Mesmo que o seu olhar e o seu sorriso transpirem mansidão e paz, não temos pela frente um leãozinho de peluche, fofinho, atractivo, privado de fortaleza e de reacção. A sua paradoxal presença, paulina, ao fazer da fraqueza força, contentando-se com a assistência da Graça (ou não fosse ele um “filho” do bispo de Hipona), dá-nos confiança.  O futuro dir-nos-á se foi capaz de descongelar os frutos do Evangelho que a Igreja e o mundo precisam de voltar a comer.

 

Ruy Ventura é historiador de arte (CHSC – Universidade de Coimbra), poeta e organizador de Por Mim Fora – antologia de poemas de Sebastião da Gama, publicada no dia 10 pela Officium Lectionis [ver 7MARGENS].

 

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