Será que o novo papa, Leão XIV, vai dar um alento à Igreja de “todos, todos, todos”, ou vai representar um retrocesso em todo o aspeto sinodal e de paz? Francamente não gostei do nome escolhido, mas gostos são gostos e nada há a dizer. Leão XIV assomou à varanda usando uma estereotipada veste da idade média, só não consegui ver se os sapatos eram vermelhos que nada tem a ver com a roupa de Francisco! No seu primeiro discurso, se é verdade ter falado de paz, e constantemente da Paz, também o é, ter naquele que foi o seu primeiro contacto com o povo, estando a falar com algum nervosismo, natural, até chorou, não existem dúvidas quando fala sempre em “vós”, “convosco” e nunca em “nós” ou “connosco”: “A paz esteja com todos vós!” ou “A paz esteja convosco”. Parece que a Paz não se mistura entre o “vós” e o “nós”.
Já na missa com os cardeais – mas onde mulheres puderam ler algumas leituras -, disse: “Não faltam contextos nos quais Jesus, embora apreciado como homem, é simplesmente reduzido a uma espécie de líder carismático ou super-homem, e isto não apenas entre os não crentes, mas também entre muitos batizados, que acabam por viver, a este nível, num ateísmo prático” e que “Ainda hoje não faltam contextos em que a fé cristã é considerada uma coisa absurda, para pessoas fracas e pouco inteligentes; contextos em que em vez dela se preferem outras seguranças, como a tecnologia, o dinheiro, o sucesso, o poder e o prazer”, estas duas frases constituem uma chamada de atenção à Igreja que deverá ser toda, para todos, fala para “dentro” da Igreja como missionária do bem-comum, embora chame os “não crentes” como de “ateísmo prático” igualando-os a muitos cristãos que são individualistas e não percorrem o caminho. Esta igualdade, no meu entendimento, não é correta porque aqueles que não acreditam em Jesus ou em Deus, muitos são homens e mulheres de boa-vontade que se identificam com o percurso para um mundo novo e, por isso, são nossos companheiros de jornada. Também, todos os que no seu dizer cristãos têm uma postura de “ateísmo prático”, é preciso saber o porquê de tal e aí a Igreja tem de ser penitente.

“(…) no meio do povo, de pé em plena inundação de uma cidade peruana e seu cuidado especial para com os indígenas (a maioria dos peruanos) (…) pode ser a garantia da continuidade do legado do Papa Francisco.” Ilustração retirada do site CMPERU (Vicentinos do Perú)
Leonardo Boff escreve sobre Leão XIV: “no meio do povo, de pé em plena inundação de uma cidade peruana e seu cuidado especial para com os indígenas (a maioria dos peruanos) (…) pode ser a garantia da continuidade do legado do Papa Francisco. Não terá o carisma dele, mas será ele mesmo, mais contido e tímido, mas muito coerente com suas posições sociais, inclusive críticas face ao presidente Trump e ao seu vice.”, e sobre o seu primeiro discurso diz: “Nunca ocorreu a palavra pobre, menos ainda libertação, ameaças à vida e o clamor ecológico. O tema forte foi a paz especialmente “desarmada e desarmante”, suave crítica ao que está ocorrendo nos dias de hoje de forma dramática como a guerra na Ucrânia e o genocídio, a céu aberto, de milhares de inocentes crianças e civis na Faixa de Gaza.”
Para Boff, Leão XIV terá de ser claro em “desocidentalizar” e “despatricalizar” “a Igreja Católica face à nova fase da humanidade.”, em termos de ser característico de um pastor que ouve uma “igreja pobre” e quer ser “pobre com os pobres”, de “ilimitada misericórdia” de “compaixão pelos caídos nas estradas da vida e a vida como serviço aos demais”, é um desafio. Assim como a igualdade entre todos os seres humanos “é visível na negação às mulheres ao sacramento da Ordem. (…) a maioria dos fiéis e são as mães e as irmãs da outra metade, dos homens da Igreja e da humanidade. Essa exclusão machista fere o corpo eclesial e coloca em xeque a universalidade da Igreja.”, é uma questão não da “mulher”, mas de “direitos e dignidade humana”. Como é os direitos dos LGBTQ+, que não foram abordados, entre outros assuntos. Leão XIV não poderá esquecer a sinodalidade, porque assim se constrói a Paz, ouvindo cada um e estabelecendo o respeito pelas culturas de todos os povos. E nós as bases da igreja sem as quais não existe, também, não podemos não defender a “ecologia integral”, Leão XIV só o será connosco e com os mais pobres e marginalizados da sociedade.
2025/05/11
Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental.










