Num discurso que durou 22 minutos e terminou com os presentes no Palácio do Eliseu, em Paris, a aplaudir de pé, Leão XIV iniciou a sua visita a França pedindo ao país que “nunca” se resigne à perspetiva de uma guerra, e apelando ao diálogo e à diplomacia para construir a paz. Naquele que foi o primeiro momento público da sua visita de quatro dias – o tradicional encontro com as autoridades, representantes da sociedade civil e do corpo diplomático – , o Papa alertou ainda para os riscos de uma tecnologia que, sem discernimento ético, pode fazer a humanidade perder-se num “paraíso das máquinas”, defendeu a dignidade humana, a liberdade religiosa e uma laicidade aberta ao diálogo com as instituições religiosas.
Leão XIV começou por agradecer o convite do Presidente francês, Emmanuel Macron, e por recordar os seus próprios laços familiares com a França, antes de evocar o papel histórico do país como “farol cultural, artístico e espiritual” na Europa e no mundo. A referência à reconstrução de Notre-Dame de Paris serviu-lhe de ponto de partida para falar de esperança e unidade: a reabertura da catedral, afirmou, não representa apenas uma proeza técnica, mas é também “o símbolo de uma esperança reencontrada”, mostrando que aquilo que parecia destruído para sempre pode renascer através da colaboração de todos.
O Papa associou depois a história francesa à defesa da dignidade humana e dos direitos fundamentais. Evocou as raízes cristãs do país, o Iluminismo e a Declaração Universal dos Direitos do Homem, sublinhando a ligação entre liberdade, igualdade e fraternidade e aquilo que classificou como “exigências éticas universais”.
Foi neste contexto que introduziu aquele que tem sido um dos temas centrais do seu pontificado: a relação entre o desenvolvimento tecnológico e a dignidade da pessoa. Recordando a sua primeira encíclica, Magnifica humanitas, dedicada à inteligência artificial, Leão XIV afirmou ser necessário “recolocar a pessoa humana no centro de toda a reflexão” e formar os espíritos para um discernimento ético capaz de distinguir aquilo que é moralmente bom.
O Papa recuperou uma expressão do escritor francês Georges Bernanos, o risco de um “Paraíso das Máquinas”, para alertar contra uma tecnologia que possa condicionar a vida humana sem responsabilização. “Para não perdermos a nossa humanidade no meio do ‘paraíso das máquinas'”, afirmou, “é urgente formar os espíritos para um discernimento ético”.
A defesa da dignidade humana levou-o também a falar dos mais vulneráveis e da proteção da vida. Leão XIV elogiou o trabalho desenvolvido pela Igreja Católica em França no domínio social, educativo e da saúde, e afirmou que a fraternidade exige “acolher a vida incondicionalmente”, acompanhar cada etapa da existência e defender “aqueles que não têm voz ou que não se sentem suficientemente apoiados”.
“A verdadeira laicidade não exclui a dimensão religiosa”
Um dos momentos particularmente significativos do discurso foi dedicado à relação entre Estado e religião. Num país onde a laicidade ocupa um lugar central na identidade republicana, Leão XIV defendeu que “o cristão envolvido na vida pública, agindo à luz da sua consciência iluminada pela fé, não pode ser considerado um proselitista ou uma ameaça à unidade da pátria”.
Citando um discurso que dirigiu este ano a professores de Educação Moral e Religiosa Católica, afirmou que “a verdadeira laicidade não exclui a dimensão religiosa, mas, pelo contrário, sabe valorizá-la como um recurso educativo”. E defendeu uma cooperação entre o Estado e as instituições religiosas ao serviço do bem comum.
Nesse âmbito, valorizou também o papel da escola católica no sistema educativo francês e saudou o trabalho da Igreja Católica em França, nomeadamente através das suas instituições sociais e educativas.
“A paz não é um equilíbrio de forças”

O Papa perante as autoridades, representantes da sociedade civil e do corpo diplomático, no sumptuoso salão daquela que é a residência oficial do Presidente da República Francesa. Foto © Vatican Media
A situação no Médio Oriente ocupou igualmente uma parte importante da intervenção. Leão XIV destacou a cooperação entre França e a Igreja Católica no apoio às populações do Médio Oriente, nomeadamente através da ação educativa, social, cultural e humanitária desenvolvida por organizações como a Ajuda à Igreja que Sofre e a Œuvre d’Orient. Referiu ainda o Fundo para as Escolas do Oriente, criado em 2021, que já apoiou mais de 260 instituições de ensino na região.
“Como falar desta região do mundo onde, há dois mil anos, nasceu o Príncipe da Paz sem pensar também nas populações afetadas pelas consequências dos conflitos?”, questionou, afirmando de seguida que não é possível permanecer indiferente perante sofrimentos que “ferem a dignidade humana e clamam justiça a Deus”. E recuperou palavras de João XXIII contra a corrida ao armamento e a proliferação das armas nucleares. “A paz não é um equilíbrio de forças, mas constrói-se dia a dia com o diálogo e a justiça”, reiterou.
A mensagem tornou-se particularmente explícita no final do discurso. “Exorto-vos, portanto, a nunca vos resignardes à perspectiva de uma guerra, considerando-a ‘inevitável’, mas a promover incansavelmente o diálogo e a diplomacia, a fim de preservar sociedades pacíficas, respeitadoras da dignidade e dos direitos da pessoa e dos povos”, disse Leão XIV a todos os presentes no sumptuoso salão daquela que é a residência oficial do Presidente da República Francesa.
E dirigiu à França uma responsabilidade particular: “A França tem a vocação de continuar a ser uma artífice incansável da paz e do multilateralismo, especialmente no interior da nossa querida Europa”. “Possa a França, fiel aos seus valores, abrir caminho para uma paz desarmada e desarmante”, insistiu, antes de associar novamente os três princípios do lema nacional — liberdade, igualdade e fraternidade — à construção do bem comum.
Antes de terminar, Leão XIV agradeceu novamente o encontro e recuperou uma frase pronunciada por Emmanuel Macron aos bispos franceses em 2018: “uma Igreja que pretenda desinteressar-se das questões temporais não cumpriria plenamente a sua vocação; e que um Presidente da República que pretenda desinteressar-se da Igreja e dos católicos falharia ao seu dever”.
A primeira intervenção pública da visita terminou com uma bênção à França e aos franceses, confiada pelo Papa à intercessão da Virgem Maria, padroeira principal do país.










