A mensagem foi enviada pelo novo Papa a inúmeras comunidades e associações judaicas espalhadas pelo mundo e nela Leão XIV escreveu: “comprometo-me a continuar e a fortalecer o diálogo e a cooperação da Igreja com o povo judeu, no espírito da declaração Nostra Aetate do Concílio Vaticano II”. Estas palavras foram acolhidas com satisfação e gratidão pelos responsáveis daqueles grupos, depois de os últimos meses do pontificado de Francisco terem ficado marcados por alguns momentos de tensão devido às declarações do Papa argentino sobre a guerra em Gaza, que alguns interpretavam como críticas a Israel pela sua conduta.
“Estamos profundamente comovidos que o Papa Leão XIV, tão cedo no seu pontificado, tenha reafirmado o seu compromisso com as relações católico-judaicas”, reagiu o Comité Judaico Americano após ter recebido a carta, dirigida ao seu diretor de assuntos inter-religiosos, o rabino Noam Marans. “À medida que nos aproximamos do 60º aniversário desta declaração histórica, ansiamos por trabalhar juntos para aprofundar a compreensão e a cooperação”, prossegue a publicação do Comité.
Escrita por Paulo VI em 1965, a declaração Nostra Aetate aborda a postura da Igreja Católica em relação a todas as religiões não cristãs. No parágrafo 4, o documento reconhece o “tão grande o património espiritual comum aos cristãos e aos judeus”, recomendando que se fomente “entre eles o mútuo conhecimento e estima, os quais se alcançarão sobretudo por meio dos estudos bíblicos e teológicos e com os diálogos fraternos”.
A Nostra Aetate também condena o ódio e a violência contra os judeus e o judaísmo, observando que o povo judeu como um todo não deve ser responsabilizado pela morte de Cristo e reprovando “todos os ódios, perseguições e manifestações de antissemitismo, seja qual for o tempo em que isso sucedeu e seja quem for a pessoa que isso promoveu contra os judeus”.
Recorde-se que o gabinete do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, só publicou a sua mensagem de condolências à Igreja Católica três dias após a morte do Papa Francisco e, nas cerimónias fúnebres – que contaram com a presença de cerca de 50 chefes de estado de todo o mundo – Israel foi representada pelo seu embaixador na Santa Sé.
Já na última quinta-feira, logo após a eleição do novo pontífice, Netanyahu parabenizou-o. “Parabéns ao Papa Leão XIV e à comunidade católica mundial. Desejo ao primeiro papa dos Estados Unidos sucesso em promover a esperança e a reconciliação entre todos os fiéis”, disse ele. Aos seus votos juntaram-se os do presidente israelita Isaac Herzog, que encorajou Leão XIV a “fortalecer a amizade entre judeus e cristãos”.
O padre John T. Pawlikowski – antigo professor do agora Papa Leão XIV no Programa de Estudos Católico-Judaicos em Chicago – assinalava esta terça-feira, 13 de maio, no jornal Jewish News, que “a única área da relação entre católicos e judeus que pode permanecer um tanto conflituosa é a relação entre Israel e Gaza e a resposta militar em curso”.
Considerando que Leão XIV “provavelmente seguirá a mesma linha” de Francisco, Pawlikowski reconhece que isso poderá “gerar certa tensão entre o Vaticano e a liderança judaica internacional”. A escolha do Papa para o cargo de Secretário de Estado do Vaticano poderá ter “uma influência importante nas opiniões papais sobre Israel e Gaza”, assinala.
Seja como for, o especialista em diálogo inter-religioso deseja que o Papa Leão XIV “avance ainda mais nas relações entre católicos e judeus, seguindo o exemplo dos seus antecessores no papado desde o Vaticano II. Isso inclui novos desenvolvimentos nas áreas teológica e litúrgica, além de se manifestar veementemente contra a crescente onda de antissemitismo”.










